Por Aluísio Azevedo (1884)
Seu desejo, estimulado e tonto, evocava então todos os meios de saciar-se; descobria hipóteses absurdas, inventava possibilidades que não existiam. Amâncio chegou a pensar em Amélia, em Mme. Brizard, na mucama, e até, que horror! Em
Nini!.
— Ai , meu Deus, gemeu nesse instante o doente do n. ° 7.
O estudante deixou a porta de Lúcia e segui em ponta de pés pelo corredor. Ao passar defronte do quarto do Paula Mendes, suspendeu o passo; a luz continuava com a mesma intensidade; o curioso não resistiu a uma tentação e espiou pela fechadura.
O pobre homem trabalhava, vergado sobre ma mesinha estreita e todas coberta de papéis de música. Ao lado, pelas cadeiras e sobre um sofá de couro negro encostado a um biombo havia folhas esparsas e cadernetas empilhadas.
Recebera nessa tarde a encomenda de organizar uma sinfonia, que tinha de ser executada daí a quatro dias em uma festa fora da cidade. O Imperador prometeu que iria.
Mendes estava ainda organizando as partes cavadas. Ouviam-se o ranger da pena no papel grosso de Holanda, o tique-taque de um despertador de metal branco, pousado sobre a cômoda, e o grosso ressonar da mulher, que dormia por detrás do biombo. O rabequista parecia menos triste naquela ocasião do que nas outras em que o vira Amâncio.
É porque a mulher está dormindo, calculou este, lembrando-se do mal gênio de Catarina. E considerou sobre a existência ordinária que levariam ali, encurraladas no mesmo cubículo, aquelas criaturas tão opostas.
O Mendes, sem desprender a pena do papel, começou a solfejar em voz baixa o que escrevia; mas, como lá dentro cessaram os roncos da mulher e esta remexeu na cama, resmungando, ele incontinente calou a boca e prosseguiu em silêncio no seu trabalho.
— Ainda estás com isto?! Perguntou ela, afinal, depois de uma pausa.
O marido respondeu afirmativamente.
— Pois, homem, vê se acabas com essa porcaria! Bem sabes que, enquanto houver luz no quarto, não posso pregar olho!
E, fazendo ranger as tábuas da cama, virou-se de um lado para outro; acrescentando com a sua voz de homem:
— Deixa isso! Anda! E apaga o diabo dessa luz!
— Não , filha, respondeu o artista brandamente. – É preciso que este serviço fique pronto amanhã...
E, depois de um muxoxo da mulher:
— Sabes o quanto precisamos deste dinheiro...A diretora do colégio ainda ontem protestou que despediria a pequena, se seu não lhe arranjasse alguma coisas por conta do que devemos; o Joãozinho, coitado, há quase dois meses pediu-me que lhe levasse um sobretudo, porque lá no trapiche onde ele agora está trabalhando, faz pela manhã um frio de rachar; Mme Brizard, você não ignora, temnos apoquentado e...
— Ë isto! interrompeu a mulher. — Ë sempre a mesma cantiga! — De tudo você se lembra, menos do que eu preciso!
— Ah! se me lembro , filha! Mas é que nem sempre a gente pode fazer o que deseja...Descansa, porém, que as coisa hão de endireitar e tu possuirás de novo o teu piano de cauda! Tem um pouco de paciência...
— Já me tardava essa música! Já me tardava a “paciência”! A paciência inventou-se para consolar os tolos! Farte-se você com ela! De conselhos estou cheia, meu amigo! Quero obras e não palavras!
Mendes não respondeu e continuou a trabalhar meneando a cabeça resignadamente. Catarina remexeu-se com mais agitação e rangidos da cama e, daí a pouco levantou-se de um salto, gritando:
— Arre, com os diabos! Que nem se pode dormir!
— Olha os vizinhos, filha!...arriscou o marido. — Lembra-te de que são três horas da madrugada...
— Os vizinhos que se fomentem! Berrou ela, embrulhando-se na colcha e fazendo tremer o soalho com seus passos de granadeiro. — Não como em casa deles, não preciso deles para nada!
E, depois de ir beber um copo d’água ao fundo do quarto:
— Tinha graça! Que eu, além de tudo, não pudesse falar à minha vontade! Melhor seria, nesse caso, que me amarrassem uma bala aos pés e mandassem, atirar comigo ao mar!
— Estás de mau humor, filha! Vê se descansas.
— Não é de espantar, levando a vida que eu levo! Sempre numas porcarias de quartos! Se precisa de qualquer coisa, é um “ai Jesus” Nunca há dinheiro! O almoço é aquilo que se sabe; o jantar pior um pouco! Se fico doente, se tenho uma debilidade, não há quem me traga um caldo! não há quem me dê um remédio! Arrenego de tal vidas, diabo!
— Ö Catarina!...disse o Mendes ressentindo-se — Pois eu não estou aqui?...Algum dia já me afastei de teu lado, ao te sentires incomodada?
— E antes se afastasse, creia! Porque já me custa a suportá-lo quando estou de saúde, quanto mais doente! Casca! — atirar-me em roto uns miseráveis serviços que qualquer um faria!...Pois não os faça!, que até é favor! Passo muito melhor sem eles!
— Está bom, senhora, está bom! Não precisa se arreliar! Veja se descansa, que eu agora tenho que fazer!
— Descansada queria você me ver, mas era no Caju, por uma vez, seu malvado! Pensa que encontraria o demônio de alguma tola que caísse na asneira em que eu caí de se amarrar a um homem de sua laia? Um pingas! Que anda sempre com a sela na barriga!
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)AZEVEDO, Aluísio. Casa de pensão. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16529 . Acesso em: 10 mar. 2026.