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#Romances#Literatura Brasileira

A Mortalha de Alzira

Por Aluísio Azevedo (1891)

O último passeio maravilhoso daquelas noites deixara-o profundamente impressionado, porque fora de todos o mais comovedor e transcendente, como vai ver o leitor.

Foi assim esse terrível sonho:

CAPÍTULO XI

Luta de Ângelo com a própria sombra

Ângelo, ao adormecer, viu-se logo à margem de uma formosa baía, cercada de misteriosos arvoredos, por entre os quais se destacavam ao luar os mármores de velhos palácios talhados em estilo veneziano.

Alzira veio buscá-lo numa gôndola cor de prata, guarnecida de brilhantes lanternas verdes. Ele embarcou e sentou-se ao lado dela.

A gôndola começou a deslizar indolentemente sobre as águas, onde o céu se espelhava todo azul, borrifado de estrelas, e onde as luzes dos barcos e das janelas ogivais vinham perder-se em trêmulos reflexos de mil cores.

A noite era serena e transparente. Alzira pousou a cabeça no ombro do seu amante, tomou um bandolim e começou a cantar:

As águas tem mil lampejos, Se a brisa cantando vai... Ó mar! bebei nossos beijos! Ó brisas! murmurejai!... Ai! ai! O mar tem alma, É belo o mar! A noite calma Convida a amar! Ai! ai!

Um coro longínquo respondeu noutro tom da margem aposta: Vivam os amantes Cantando aos pares! Voem distantes Negros pesares!

Alzira continuou a cantar, e Ângelo cantou depois de beijar-lhe a boca:

As águas dormem, querida; A lua brilha nos céus... Eu quero beber a vida Num beijo dos lábios teus!... Ai! ai!

E ambos repetiram:

O mar tem alma É belo o mar! A noite calma Convida a amar! Ai! ai!

O coro respondeu agora mais perto, porque a gôndola se aproximara dele:

Vivam os amantes

Apaixonados,

Morram as dores

E vãos cuidados!...

E Ângelo achou-se defronte de um lindo alpendre, construído à beira-mar e coroado de verdura e de flores.

— Saltemos! disse a cortesã, indicando a longa e branca escadaria de pedra batida pelas águas.

E os dois saltaram, galgaram os degraus de mármore, e penetraram num doce e vasto recinto, frouxamente iluminado por balões venezianos.

Ao centro havia um esplêndido tapete desdobrado no chão, com uma ceia servida em baixelas de prata e ouro.

Aí três cavalheiros e três damas, ricamente vestidos e negligentemente reclinados em coxins orientais, bebiam e comiam, em boa camaradagem, a rir e conversar, e meio abraçados uns com os outros.

Mais adiante três damas e um cavalheiro, assentados sabre macias e felpudas peles, jogavam as cartas, entre beijos e gargalhadas.

De outro lado, três moços trajados à napolitana e estendidos por terra, fumavam em volta de um grande cachimbo arábico, e bebiam vinho cor de topázio, que uma bela rapariga de colo nu lhes derramava nos copos de ouro.

Sobre o cais que dominava a baía, um casal deitado, de peito para o ar, contemplava a lua, ambos quase adormecidos, com a cabeça pousada nos braços um do outro.

Cantavam a meia voz em tom de barcarola:

Tem a vida mil encantos,

Quando a gente sabe

amar...

Os gozos são tantos,

quantos

Murmúrios há no mar...

Deixa-me a boca

Tua beijar!

A vida é pouca

Para te amar!...

Ângelo parara à entrada com Alzira.

— Que bela cousa é o prazer!... disse um dos cavalheiros que ceavam.

E acrescentou, abraçando preguiçosamente as duas damas que tinha ao seu lado:

— E pensar que há por esse mundo gente que fala em tristezas!... As mulheres, as flores, a música, o jogo, o vinho e os bons manjares, eis o nosso elemento da vida!...

E tomando as mãos da sua vizinha da direita:

— Não é verdade, minha bela, que o prazer é a melhor cousa da vida?...

A dama respondeu-lhe com um beijo, quebrando os olhos voluptuosamente.

— Ganhei! disse outro cavalheiro no grupo dos jogadores. Paga!

— Aqui tens! volveu a dama, oferecendo-lhe os lábios, que ele beijou com delícia.

E ela exclamou logo em seguida:

— Agora ganhei eu!

Ele tirou da cinta um punhado de moedas que lhe atirou ao colo.

E continuaram a jogar.

— Entremos! segredou Alzira, penetrando no recinto do alpendre.

— Que lugar encantador!... considerou Ângelo, que até aí estivera a olhar para todos os lados, deveras surpreendido.

E fazendo a todos um rasgado cumprimento:

— Boa noite, cavalheiros!

— Vivam, rapazes! exclamou Alzira ao mesmo tempo.

Foram correspondidos indolentemente pelos circunstantes.

Só um dos cavalheiros da ceia voltou-se para eles, e disse-lhes em ar amável:

— Boa noite, gentis namorados. Andais gozando a vida, não é verdade?...

— Sim, respondeu Alzira. Temos mocidade e dinheiro: queremos gozar!...

— Sede bem-vindos! volveu aquele; não podereis escolher sítio melhor! Aí tendes o que comer e o que beber... Tomai assento conosco e sereis dos nossos! Bebei e embriagai-vos, caríssimos:

Ângelo e Alzira assentaram-se juntos num coxim, e o cavalheiro prosseguiu, mal podendo abrir os olhos:

— Aqui as horas correm ligeiras e felizes! Escorregam como um bom vinho!...

— Mas quem sois vós?... perguntou Ângelo, levando aos lábios a taça que acabara de encher.

O interrogado explicou logo:

— Somos sectários da religião do prazer: nossa única ambição, nosso único ideal — é gozar! A Sensualidade é o nosso Deus!

(continua...)

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