Por Aluísio Azevedo (1897)
O patrão ontem chamoume em particular, e disseme com os olhos cheios de água: "— Alfredo, estou com medo de perder minha filha mais querida! O médico declarou já que ela só o que tem é muita debilidade e melancolia, mas que pode vir a ser, de um momento para outro, atacada do peito. Ora, eu bem sei que a Eugeniazinha está desgostosa com a ausência do Gabriel... Tu me falaste várias vezes nesse rapaz e sempre lhe encareceste as qualidades... Pois então vai por aí; indaga a respeito dele, e vê se trazes alguma boa notícia para minha filha... Eu conheço bem aquela cabecinha!... Eugênia é muito orgulhosa; é muito capaz de deixarse morrer, sem soltar uma queixa, nem derramar uma lágrima!..."
— Pobre menina! suspirou Genoveva.
— Eu fiquei sufocado com o que me disse o patrão, continuou Alfredo; mas, nesse mesmo dia, ao visitar D. Eugênia no se quarto, prometi que lhe havia de levar notícias do Gabriel. Ela, coitadinha! olhoume com toda a calma e respondeume, sacudindo os ombros indiferentemente: "— Não, não é preciso... ele mora nas Laranjeiras com Ambrosina". Esta notícia tiroume a luz dos olhos; não pude dar mais uma palavra, e cá estou para saber ao certo o que há!
— Pois D. Eugênia não se enganou, disse Genoveva, a olhar tristemente para a sua saia de paninho preto. É exato! Ambrosina mora com Gabriel...
Alfredo levantouse de novo para sair.
— Foi uma desgraça!... repisava a viúva do comendador, acompanhandoo até à porta. Foi uma grande desgraça! Faça o senhor idéia da vida que não levo eu aqui entre estas quatro paredes!... Então é chegar a noite, meu Deus! fico tão triste, que me ponho a chorar até dormir. Ando nervosa!... não tenho ânimo de sair da sala de jantar, onde trabalho! Qualquer rumor fazme ficar a tremer; ponhome a cismar em quanta asneira me vem à cabeça! pareceme que vão aparecer ladrões para me matarem, ou suponho ver o espectro de meu defunto marido! Fico num estado de causar dó!
— Tudo isso são nervos, dizia Alfredo.
E aconselhava à Genoveva que todas as noites, antes de dormir, tomasse água de flor de laranja. Ele havia de aparecerlhe mais amiúde...
— Venha! venha conversar à noite. Jogaremos a bisca... O senhor é só e não tem que fazer a essas horas... se há de ficar em casa, a olhar pro tempo, venha antes para cá dar dois dedos de cavaco. Olhe, venha amanhã!
— Pois sim, prometeu ele, e saiu.
No dia seguinte, voltou à noite.
Genoveva estimou muito esta nova visita. Os dois viúvos conversaram largamente sobre o passado, falaram de Ambrosina, de Gabriel e de Eugênia. Alfredo retirouse às dez e meia, depois de tomar chá com torradas.
A pobre senhora não chorou essa noite e acordou menos nervosa no outro dia.
Alfredo repetiu a visita; ao fim do mês, já estas se tinham convertido, para ambos, em um hábito feliz. Genoveva davalhe chá todas as noites. Ele mostravase reconhecido a esse galanteria, levavalhe quase sempre alguma gulodice.
Um dia reparou que Genoveva tinha um pescoço roliço e uns dentes muito sãos. "— Devia ter sido um mulherão no seu tempo!" considerou ele. E o fato é que, desde logo, principiou a notar que a viúva estava bem frescalhona. E, sem querer, demoravamse os dois a olhar mais expressivamente um para o outro.
Chovia muito uma noite, e às onze horas a tormenta recrudesceu de modo atroz.
— Foi o diabo esta chuva! dizia Alfredo, a pensar no seu romantismo.
— Temos aí o assado do jantar e uns camarões frescos, lembrou Genoveva.
E, como a criada se retirava às oito horas, andou ela mesma à cozinha para preparar a ceia; depois, a conversar, a rir, estendeu a toalha, e foi buscar uma garrafa de vinho que guardava reliosamente ainda do seu tempo de casada.
— O defunto tinha ciúmes destas garrafas... observou a viúva, a limpar as teias de aranha de uma delas com o guardanapo. Foi presente que lhe veio da terra... Uma delícia!
Alfredo sentiase bem.
A noite estava fria, a sala fechada, a toalha da mesa era de linho claro e cheirava aos jasmins da gaveta, a fritada de camarões enchia o ar de um aroma quente e picante.
— E a verdade é que tenho bom apetite! confessava Alfredo, a abrir com mil cuidados a velha garrafa do defunto comendador.
— Ora! a gente em companhia sempre é outra cousa! disse Genoveva, expandindo a sua satisfação.
E assentouse, garrida, defronte do conviva.
A chuva continuava lá fora a cair, cada vez mais forte. Alfredo elogiava o vinho, saboreandoo a goles pequeninos e estalados. Genoveva enchialhe o prato.
— Então, já vai à nossa; para que tenhamos muitos dias de boa paz, como o de hoje! disse o viúvo, a erguer o cálice, que cintilava à luz do petróleo.
— A nossa! repetiu Genoveva, bebeu, saculando as bochechas.
O tempo passavase. Alfredo reparou que já era mais de meianoite, e que a chuva ainda não havia cessado.
— O verdadeiro é ficar aqui mesmo por hoje. Seria imprudência arriscarse agora por este tempo.. alvitrou a mãe de Ambrosina, com as faces coradas.
Alfredo lembrou vagamente os vizinhos; sempre havia más línguas, que em tudo achavam pretexto para murmurar!...
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)AZEVEDO, Aluísio. A Condessa Vésper. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2124 . Acesso em: 8 mar. 2026.