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#Romances#Literatura Brasileira

O Matuto

Por Franklin Távora (1878)

Não sem razão inspirava aos nobres plena confiança o ajudante-de-tenente Francisco Gil Ribeiro. A galhardia e a bravura militar de Gil eram tradicionais, e constituíam um dos mais ricos e ilustres patrimônios da gloria pernambucana. Para descansar das fadigas da sua longa e trabalhosa vida, acolhera-se o ancião na sombra do lar domestico. Afetos brandos, inclinações respeitáveis, tinham-se substituído às violentas explosões da paixão guerreira. Estabelecera ele sua residência nas Salinas (hoje Santo-Amaro), à margem direita do Beberibe, entre cajueiros e sapotiseiros pitorescos. Daí o foi tirar o governo, para lhe entregar o comando da fortaleza de Itamaracá, ameaçada de cair no poder dos amotinados de Goiana. As noticias, porém, dos graves e sucessivos conflitos havidos nesta vila, determinaram o governo a ordenar que o ajudante-de-tenente, à frente de quarenta homens, e acompanhado dos alferes Carlos Teixeira e Francisco Alves, e do ajudante Felipe Bandeira de Melo, se dirigissem sem perda de tempo a pacificar aquela localidade.

Ao entrarem na estrada geral do norte, um matuto que passava do Recife, vendo a força, recuou o cavalo, para deixar livre o caminho. Parecendo suspeito a Gil este movimento de pura cortesia ou respeito, fez sinal a alguns soldados que segurassem o matuto. Este, porém, que não era outro que Francisco, adivinhando a intenção, pôs-se a respeitosa distancia, aos primeiros gestos dos soldados.

- Que idéia faz de mim, seu comandante? perguntou ele com serenidade. Pensará que sou pela mascataria? Pois se pensa, está malenganado.

Ouvindo estas palavras, Gil, com gesto imperioso e grave chamou o matuto para mais perto de si; e lhe disse:

- Quem foi que te ensinou este recado para me iludires?

- Não quero iludir ninguém.

Cuidado com esta gente, senhor ajudante, disse Felipe Bandeira a meia voz a Gil. Parecendo simplórios, são finos e manhosos.

- Mas quem lhe disse que eu sou pela mascataria? tornou Gil a Francisco.

Se é ou se não é, eu não posso jurar. Cá eu é que não sou nem serei por eles nem neste mundo nem no outro.

- Então, se eu tivesse necessidade de uma pessoa que me ensinasse os atalhos para chegar à vila sem ser pressentido pelos nobres, não me prestava você de boa vontade este serviço tão pequeno?

- Saberá vossa senhoria que nem de boa nem de má vontade eu lhe ensinava os caminhos da vila para este fim. Daqui mesmo destorcia para traz no meu castanho, porque para servir a tais indivíduos não há forças humanas que me obriguem, nem dinheiro que me compre.

- Grande ódio tem você à esses homens que só cuidam em viver do seu trabalho.

Eu cá sei em que eles cuidam. Querem enriquecer à nossa custa. Vendem a fazenda pela hora da morte, agora os gêneros da terra querem comprar por pouco mais que nada. Não fazem isto só com o pobre matuto, como eu; até os senhores-de-engenho gemem entre as unhas deles. O que não tem o olho vivo, quando dá acordo de se está com as terras, as canas, os negros de sua propriedade metidinhos todos dentro da gaveta do mascate, que faz os suprimentos e adiantamentos. Muito francos em fiarem são os tais mascates, quando vêm que a pessoa a quem fazem seus oferecimentos, tem bens de seus. Agora, quando a conta está bem aumentada, tomam tudo pela justiça, e ficam donos de casas, escravos e fazendas do dia para noite. Se isto é ser bom, o inimigo leve esta bondade para si, que eu não a quero nem de graça, quanto mais à custa do meu roçado, do meu cavalo e da minha casinha.

Tendo dito estas palavras, Francisco, chegou a espora que trazia no pé direito à barriga do castanho e virou para o Recife. Não pode, porém, avançar muitos passos, porque Gil, pondo as pernas à sua cavalgadura, tomou-lhe logo o caminho.

- Para onde vai? Venha cá. Estamos de acordo, e podemos ir juntos até Goiana. Você é muito desconfiado, camarada, disse em tom de quem gracejava.

- Não me fiz por minhas mãos, respondeu Francisco. Foi assim que nasci da barriga de minha mãe.

- Mas não tem que desconfiar de mim.

- Meu senhor, a gente vê cara e não vê coração. Eu sei lá se vosmecê vem contra os mascates ou pelos mascates...

- Pois você não está vendo a tropa?

- Que tem a tropa? Não podia ser deles?

- Então, você vem da capital e não sabe que eles estão cercados?

- Eu sei muito bem que eles estão cercados. Sou capaz de dizer até por quem. - Diga lá.

Pois escute. Nas trincheiras levantadas junto do muro do S. Bento está a companhia do capitão Dionizio, e a dos Estudantes, comandada pelo capitão Antonio Tavares; nos presídios do Varadouro, Porto-dos-padres, Porto-daslavadeiras, Carreira-dos-masombos e Tacaruna, estão o tenente José Tavares e o sargento-mór Domingos Freire; as forças de S.Amarinho, Campina-da-cerca, Curtume e Santo-André são comandadas pelo padre Paulo; na Conceição, Saco, Olaria e Arraial-da-boa-vista está o capitão Carlos Ferreira; na Barreta e no Arraial-dos-afogados está o comandante João de Barros.

- Bem informado anda você da distribuição das forças do governo.

(continua...)

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