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#Romances#Literatura Brasileira

Senhora

Por José de Alencar (1875)

Frutas da estação: abacaxis, figos e laranjas seletas, rivalizando com as maçãs, pêras e uvas de importação, ornavam principalmente a refeição meridiana que os costumes estrangeiros substituíram à nossa brasileira merenda da tarde, usada pelos bons avós. 

Havia também profusão de massas ligeiras, como empadinhas, camarões e ostras recheadas, além de queijos de vários países e doces de calda ou cristalizados. Os melhores vinhos de sobremesa desde o Xerez até o Moscatel de Setúbal, desde o Champanha até o Constança, estavam ali tentando o paladar, uns com seu rótulo eloqüente, outros com o topázio que brilhava através das facetas do cristal lapidado. 

- Não tenho a menor disposição! disse Fernando obedecendo ao gesto de Aurélia e sentando-se à mesa. 

- Ora! disse a moça com volubilidade. Para provar frutas e doces não é preciso Ter fome; faça como os passarinhos. O que prefere? Um figo, uma pêra ou o abacaxi?

- É preciso que eu tome alguma coisa? perguntou Fernando com seriedade.

- É indispensável. 

- Nesse caso tomarei um figo. 

- Aqui tem; um figo e uma pêra; é apenas um casal. 

Seixas inclinou a cabeça; colocou o prato diante de si e comeu as duas frutas, pausada e friamente, como um homem que exerce uma ação mecânica. Nada em sua fisionomia revelava a sensação agradável ao paladar. 

Aurélia que esmagava entre os lábios purpurinos bagos de uva moscatel, seguia com os olhos os movimentos automáticos de Fernando, e se não adivinhava, confusamente pressentia o motivo que atuava sobre seu marido. 

Ergueu-se então da mesa, e saindo fora, à beirada da casa, onde já fazia sombra, divertiu-se em dar de comer aos canários e sabiás, que festejaram sua chegada com uma brilhante abertura de trinados e gorjeios. 

Pensava Aurélia que sua presença porventura acanhava o marido; e buscava aquele pretexto para arredar-se um instante e deixá-lo mais livre de cerimônias. Desvaneceu-se porém essa idéia do seu espírito, quando espiando pela fresta da janela, viu Seixas imóvel, com os olhos fitos na parede fronteira, e completamente absorto. 

Depois do lanche, Aurélia convidou o marido para darem uma volta pelo jardim; mas 

havia senhoras nas janelas da vizinhança, e a moça não quis expor-se aos olhares curiosos. Ela não era a noiva feliz e amada; mas as outras a supunham, e tanto bastava para que seu pudor a recatasse às vistas dos estranhos. 

Voltaram pois à saleta. 

Aí andaram a borboletear de um a outro assunto, mas apesar do desejo que tinham, de prolongar a conversação, ou talvez por essa mesma preocupação que os distraía, não encontraram tema para divagar. 

Afinal recaíram nas fotografias. Desta vez foi o álbum dos conhecidos que forneceu matéria. Em um dos primeiros cartões figurava o Lemos, cuja aparição coincidiu com esta observação de Aurélia: 

- O álbum das pessoas de minha amizade, eu o guardo comigo. Estes são álbuns de sala, tabuletas semelhantes às que têm os fotógrafos na porta. 

- Mas não apresentam de certo as antíteses curiosas das tabuletas. Os tais senhores parece que o fazem de propósito; não há mais perfeita democracia. 

Seixas, emérito conhecedor da rua do Ouvidor, começou a especificar alguns dos contrastes de que se recordava; abstemo-nos porém de reproduzir suas observações, que ressentiam-se de singular mordacidade. 

Esse tom cáustico não era natural ao mancebo, cuja índole benévola e afável, nunca passava de uns toques de fria ironia. Ele próprio já notara em si essa alteração de seu caráter, e achava um sainete especial em saturar-se do fel que tinha no coração. 

Ao cabo de algum tempo notou Fernando que Aurélia erguia freqüentemente os olhos para a pêndula, e disfarçou, porque ele também interrogava amiúdo e furtivamente o mostrador, ansioso de ver escoar-se o dia. 

Uma vez os olhos de ambos encontraram-se, quando buscavam a pêndula. Aurélia corou de leve: 

- Cuidei que fosse mais cedo! disse ela. 

- Como passa rapidamente o tempo! exclamou Fernando. Quase três horas.

- Ainda falta muito. São apenas duas e um quarto. 

- Ah! É verdade. 

- Talvez esteja atrasado! observou Aurélia. Consulte seu relógio. 

Havia uma diferença de minuto e meio entre o relógio de Seixas e a pêndula da sala. Foi o pretexto para consumir o resto do tempo. Aurélia quis acertar a pêndula; aproveitou a ocasião para dar-lhe corda; depois do que veio uma discussão acerca da conveniência de mudá-la para outro consolo. 

- Já três horas? exclamou afinal a moça. É tempo de vestirmo-nos para o jantar. Até logo! 

Aurélia fez um gracioso aceno de fronte ao marido e desapareceu pela porta, que dava para o seu toucador. 

Quando ela entrou nesse aposento e fechou a porta sobre si, não teve tempo de desatar o corpinho do vestido; meteu as mãos pelo ilhós e magoando os dedos mimosos nos colchetes, despedaçou a ourela para não sufocar. O coração que ela recalcara por tanto tempo sublevava-se afinal, e estalava nos soluços que lhe dilaceravam o seio. 

(continua...)

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