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#Romances#Literatura Brasileira

O Sertanejo

Por José de Alencar (1875)

O sertanejo, que de parte acompanhava os movimentos de Flor, surpreendido por seu olhar, ergueu a cabeça com um gesto de revolta. A donzela voltou-se com uma dignidade fria e desdenhosa para um homem da escolta. 

— Apanhe aquela flor, Xavier. 

Antes que os outros ouvissem a ordem já Arnaldo arremessara o cavalo à touça de carnaúbas, e colhia a flor que veio apresentar à donzela. 

— Obrigada! disse-lhe ela, e deu a flor a Alina. 

A posição de Arnaldo na fazenda tinha-se modificado de certo modo desde a tarde do aparecimento da Bonina, quinze dias antes. É isso que explicava sua presença alí, naquele momento, reunido à comitiva. 

O capitão-mór no dia seguinte o tinha declarado vaqueiro geral de suas fazendas; e todos o consideravam como tal, e o tratavam nessa conformidade, exceto êle próprio, que fazia suas reservas. 

O rasgo do fazendeiro naquela tarde, se a todos admirou, a êle o comovera profundamente. 

Depois de sua desobediência, só uma graça especial podia mover o ânimo do capitão-mór em seu favor. 

O Campelo não era cruel, como outros muitos potentados do sertão; mas o seu rigor em manter o respeito à sua autoridade, tornara-se proverbial. Nesse ponto mostrava-se inflexível. 

Referiam-se como exemplo, casos de indivíduos a quem êle mandara buscar aos confins do Piauí e às matas da Bahia, onde se haviam refugiado, para castigá-los do desacato cometido contra sua pessoa, passando pela frente da Oiticica sem tirar o chapéu, ou pronunciando o seu nome sem a devida reverência do tratamento e título. 

Eram faltas estas que êle não perdoava, nem esquecia. Embora decorressem anos, em tendo notícia do culpado, despachava uma escolta para prendê-lo, onde quer que estivesse. Satisfeito, porém, o seu orgulho, aplacava-se de todo a ira; assim a maior parte das vezes o castigo não passava de um ato de submissão e quando muito de uma prova expiatória. Obrigava o atrevido a pedir-lhe perdão de joelhos, ou mandava amarrá-lo ao moirão por um dia inteiro. 

Arnaldo, que sabia dêstes fatos e conhecia a severidade do capitão-mór, julgava-se banido da Oiticica para sempre; pois não lhe consentia o seu gênio fazer contrição da culpa e pedir perdão da desobediência. Mas essa índole altiva que nenhuma condideração, nem mesmo o amor de D. Flor conseguia dobrar, não resistiu ao rasgo de generosidade do velho. 

O caráter de Arnaldo tinha êste traço especial. Zeloso de sua independência, e de extrema suscetibilidade nesse ponto, a menor aspereza, qualquer gesto imperativo, bastava para revoltar-lhe os brios e torná-lo arrogante, como acontecera na mesma noite do aparecimento da Bonina, quando ofendido pela repreensão de D. Flor, lançara ao fogo o mimo da donzela. 

Por outro lado também o coração indomável era de cera para os sentimentos afetuosos. Uma demonstração de amizade, um afago, obteria dele sacrifícios a que nenhum poder humano teria fôrças de o compelir jamais. 

Porisso, depois do que acontecera, não teve ânimo de contrariar de novo e tão proximamente o desejo do capitão-mór. Prestou-se a desempenhar por algum tempo o emprêgo de vaqueiro, do qual o afastavam os seus instintos de liberdade, os hábitos de sua vida nômade, e mais que tudo uma repugnância invencível de servir a qualquer homem por obrigação e salário. 

O vaqueiro não entra na classe dos servidores estipendiados; é quase um sócio, interessado nos frutos da propriedade confiada à sua diligência e guarda. Esta circunstância levou Arnaldo a condescender por enquanto com a vontade do capitão-mór. Fosse outro emprêgo, que a-pesar-da disposição de seu ânimo, não o aceitaria por uma hora. 

É de presumir que mais tarde se revele a causa oculta desta repugnância do sertanejo. Talvez a inspire o mesmo sentimento, que, em todas as ocasiões e ainda mais durante o passeio, o conservava arredio da comitiva, como uma pessoa estranha à família. 

— Onde ficou o capitão Fragoso de esperar-nos, D. Genoveva? perguntou o capitão-mór à mulher. 

— Na marizeira. 

— Ouviu, Agrela? disse o fazendeiro, voltando-se de leve para falar ao ajudante por cima do ombro. 

— Ouví, sr. capitão-mór. É daqui a meia légua. 

 

II – A montearia 

 

Tinha nascido o sol. 

Aos primeiros raios que partiam do oriente e se desdobravam pela terra como uma vaga de luz, a natureza, rorejante dos orvalhos da noite, expandiu-se em toda a sua pompa tropical. 

A cavalgada atravessa agora uma zona, onde o sertão ainda inculto ostenta a riqueza de sua vária formação geológica. 

De um lado, para o norte, os tabuleiros com uma vegetação pitoresca e original, que forma grupos ou ramalhetes de arbustos, semeados pelo branco areal e divididos por um interminável meandro. 

Do outro lado, o campo coberto de matas, no meio das quais destacam-se as clareiras, tapeteadas de verde grama e fechadas por cúpulas frondosas, como rústicos e graciosos camarins. 

Além a várzea, levemente ondulada como um regaço, e coberta de grandes lagoas formadas pelas águas das chuvas recentes. 

(continua...)

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