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#Romances#Literatura Brasileira

O Moço Loiro

Por Joaquim Manuel de Macedo (1845)

Com tais pensamentos chegou a casa. Ema os esperava cuidadosa; recebeu nos braços a querida neta, a quem achou mais pálida e por demais fatigada; graças talvez a isso, foi-lhe para logo permitido retirar-se para seu quarto em companhia da boa Lúcia.

No entanto, logo que Hugo de Mendonça e sua filha desapareceram aos olhos do jovem marinheiro, este fez certo sinal a um dos remeiros que, imediatamente, apertando o lábio inferior, soltou três assobios.

Alguns minutos depois um velho, cujos vestidos em tudo se pareciam com os do moço patrão, chegou-se para este.

— Então, meu cavalheiro, disse o velho.

— Aqui está o seu dinheiro, patrão, respondeu o moço, três mil-réis, que deveria receber dos seus passageiros, e o dobro dessa quantia que lhe prometi.

— Obrigado, senhor... senhor... ah! é verdade que ainda me não disse a sua graça.

— Nem creio que seja preciso dizê-la: não entrou isso no nosso ajuste.

— Também foi só por perguntar... eu cá não sou curioso; mas conte-me, como se houve... o certo é que o mar esteve de rosas...

— Todavia desgovernei uma vez... vi-me doido entre os navios... e a maldita voz de bronze, que me foi preciso fingir!... enfim, está passado; agora pertence-lhe o resto; o senhor jurou-me não dizer palavra.

— Pode ficar perto, que eu cá para isso sou um poço.

— Otimamente. E pretende ir dormir?...

— Quando está para amanhecer, senhor?...

— Tanto melhor; dentro de uma hora parto para a corte; quer levar-me?

— Sem dúvida.

— Bem; eu volto imediatamente.

Com efeito, uma hora depois um interessante mancebo, cujos vestidos sem dúvida muito decentes estavam, todavia, em censurável desalinho, saltou dentro do batel, que regressou para a corte: uma metamorfose completa se havia, pois, operado no marinheiro de cabelos pretos.

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— Mãe Lúcia! mãe Lúcia!... dizia Honorina à sua ama, tendo um pequeno papel diante dos olhos; eis aqui!... é, portanto, sempre ele!...

— Quem, menina?...

— O homem que trabalha por enlouquecer-me!... que põe uma carta debaixo da janela do meu quarto... que se veste de cabeleireiro para cortar um anel de meus cabelos, que se veste de marinheiro para viajar comigo, e deitar um escrito dentro de minha luva!...

— Pois ele escreveu...

— Sempre as mesmas... as minhas próprias palavras!... ouve: “Honorina! eu te amo! eu te amo com esse amor de poeta, com esse amor de fogo, que ainda quando acaba na desgraça e na morte, contanto que seja o mesmo amor, é por força bem belo!...” — E, portanto, é que ele lhe ama muito!

— Oh!... mas quem se esconde é porque teme causar horror!

— Senhora!

— Está bem, mãe Lúcia, eu quero dormir... e amanhã que me deixem na cama até bem tarde.

— Pois será assim, menina. Boa-noite!

— Boa-noite!...

Mas como dormir?... como conciliar o sono, quando se tem tanto em que pensar, tantas idéias a ligar, e, sobretudo, um mistério a decifrar?... porém, Honorina lutou em vão com esse mistério; o homem que a amava, nunca lhe tinha aparecido tal qual era; havia-se mostrado sempre ridículo ou estúpido... com uma cabeleira ruiva, ou com uma de cabelos pretos... longos e tão grosseiros, que pareciam nunca haver conhecido um pente, e ser bem capazes de rebentar o mais forte que primeiro ousasse querer domá-los!... era por força feio... detestável... horrível o homem que se escondia assim.

E do feio... detestável... horrível o pensamento de Honorina fugiu, procurando um objeto bonito... e amável, em quem por alguns momentos ao menos pousasse; e pousou na imagem do moço loiro que se havia sentado no terrado, triste e pensativo defronte dela e de Raquel.

Oh! aquele mancebo, apesar da extravagância e leviandade que mostrou, falando tão imprudentemente de seus amores a duas jovens desconhecidas, deveria ter deixado no ânimo de Honorina uma impressão bem agradável e talvez bem perigosa para que ela, com o pouco tempo que o viu, se lembre tão bem dele, que sua imagem a ocupe por momentos.

Com efeito, Honorina tem diante de si a graciosa figura do apaixonado mancebo: ela o vê ora melancólico e pensativo, suspirando silencioso... depois com sua cabeça levantada... seus cabelos loiros, caídos em belos cachos sobre as orelhas... seus brilhantes olhos dardejando vistas de fogo... ela escuta sua voz doce e comovida... enleva-se, vendo o triste sorriso de seus lábios... enfim, ela o vê partir... escapar-se por entre a multidão, que entra no terrado, com o lenço sobre o rosto, como para não ser conhecido...

Mas a imagem, que desapareceu, volta de novo para repetir-se a mesma cena... duas... três... mil vezes até ao romper da aurora.

É que em seus sonhos de inocência e de amor, Honorina tinha desde muito tempo muitas vezes sonhado uma bela imagem de fantástico mancebo, que aquele moço venturoso viera realizar!...

A natureza havia despertado com a aurora, e o ruído que traz o dia arrancou Honorina de suas meditações.

(continua...)

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