Por Joaquim Manuel de Macedo (1878)
O Albino Jordão era, quando o conheci, homem já velho, vestindo sempre jaqueta, e desde muito cego e surdo. Contra a cegueira não tinha recurso, que não fossem a memória surpreendente e o tato explicavelmente aprimorado; contra a surdez, que não era completa ou absoluta, socorria-se de famosa e tradicional buzina, que o fazia ouvir o que os fregueses da loja procuravam.
Albino Jordão tinha dois ajudantes, meninos ou rapazes de quatorze a dezesseis anos, de instrução nula e de pouco zelo: quando eles, porém, não serviam de pronto a algum freguês e demoravam-se, procurando o livro pedido, o cego levantava-se da sua cadeira, punha a buzina ao ouvido, e ciente do que se pedia, ia sempre certeiro e sem nunca enganar-se tomar o livro na estante e o lugar onde estava, ainda mesmo quando lhe era necessário subir por pequena escada portátil para ir buscá-lo.
Eram na verdade admiráveis a memória, o tato e o tino que a cegueira apurava naquele velho cego, mas, para que pudessem tanto, era só e exclusivamente ele o ordenador e colocador dos livros nas estantes da sua loja.
Albino Jordão foi, como livreiro, contemporâneo dos notáveis e célebres livreiros Saturnino, João Pedro da Veiga e Evaristo Ferreira da Veiga, filhos do primeiro; mas em sua loja, que não podia rivalizar com a daqueles, vendia em geral obras já usadas, livros em segunda mão, e portanto baratíssimos, e se por isso deve ser tido em conta do primeiro alfarrabista da cidade do Rio de Janeiro, foi de tanto proveito para o público, e de tão sã consciência na sua indústria, que nunca lhe caberia o nome feio que os estudantes do Imperial Colégio de Pedro II deram ao vil belchior de livros velhos estabelecido na vizinhança daquele colégio da Rua de S. Joaquim, nome um pouco obsceno que a principio se estendeu a todos os chamados hoje alfarrabistas.
A Rua do Ouvidor deve perpetuamente lembrar o seu Albino Jordão, o primeiro livreiro que teve, o precursor, ou antecessor dos Srs. Laemmert, Garnier e ainda outros, o Albino Jordão, enfim, cuja buzina foi tão famosa como a tesoura de Mme Joséphine, e muito mais útil do que ela, se as minhas excelentíssimas leitoras permitem que eu assim o pense.
CAPÍTULO 15
Como em viagem pela Rua do Ouvidor entramos no quarteirão que demora entre as de Gonçalves Dias e da Uruguaiana e não achando aí casas célebres no passado, vejo-me baldo de matéria, e por isso mesmo falo mais do que nunca, ocupando os meus companheiros de viagem com observações sobre os bondes e sobre o famoso e vizinho Alcazar, depois chamado Teatro Lírico Francês, planta daninha que nos veio de França. Como enfim conto curiosa história que é da Rua do Ouvidor, mas que eu não digo nem quando, nem em que loja de modista se passou; dou à história forma de romance, e nela muitas lições morais, e principalmente a última, que é de fazer arrepiar os cabelos.
O quarteirão da Rua do Ouvidor que fica entre as Ruas de Gonçalves Dias e, antiga da Vala, hoje da Uruguaiana, não me lembra casas célebres, nem fatos que não sejam da atualidade.
O futuro continuador das Memórias da Rua do Ouvidor (na hipótese de que ela venha a tê-lo) terá muito que escrever sobre este quarteirão que deixo sem nota, e que desde três lustros tanto lustre tem adquirido, e que de tantas notas pode ser objeto.
Dois fatos marcaram o seu florescimento que é do nosso tempo.
O primeiro foi a vizinhança do Alcazar, depois chamado Teatro Lírico Francês, que se fundou na rua então ainda denominada da Vala, e muito próximo da Rua do Ouvidor.
O segundo foi a instituição dos carros urbanos, a que o povo deu o nome de bondes, porque o seu serviço começou meses depois que o Visconde de Itaboraí, Ministro da Fazenda, realizou em 1868 a operação financeira de emissão de bondes, de que muito se ocupou pró e contra a imprensa.
Às linhas de bondes de Botafogo e das Laranjeiras com seu ponto de partida inicial e de chegada terminal na Rua de Gonçalves Dias quina da do Ouvidor seguiram-se mais tarde as de Vila Isabel com seu ponto de partida e chegada na Rua da Uruguaiana junto da do Ouvidor.
Ora, bastariam os bondes nos dois extremos desse quarteirão estéril no passado para torná-lo florescente e com certeza rico de episódios romanescos que amenizariam muito as memórias do tempo.
Antes, porém, dos bondes, o Alcazar já tinha eletrizado muito este departement da França da Rua do Ouvidor.
As cantarinas do Alcazar, artistas indefectivelmente arteiras, freqüentavam de preferência o quarteirão, onde muitas tinham o seu quartel, ou como andorinhas faziam o seu verão.
Não ponho mais na carta, porque dos princípios tiram-se as conseqüências.
Tenho a cair-me do bico da pena uma enchente de reflexões, mas, para não amolar demais os meus companheiros de viagem, limito-me a escrever breves palavras, que são de irresistível impulso.
Maligna foi sob todos os pontos de vista a influência do Alcazar, venenosa planta francesa que veio medrar e propagar-se tanto na cidade do Rio de Janeiro.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)MACEDO, Joaquim Manuel de. Memórias da Rua do Ouvidor. Rio de Janeiro: [s.n.], 1878. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7544 . Acesso em: 4 jan. 2026.