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#Romances#Literatura Brasileira

A Luneta Mágica

Por Joaquim Manuel de Macedo (1869)

A minha confusão não pode ser maior: os condenados eram inocentes, os condenadores tinham sentenciado com acerto; a contradição tornara-se pois evidente!

Como explicar a contradição?

Uma de duas:

Ou provas fortíssimas, porém de falsidade infelizmente não conhecida, tinham, condenando os réus, justificado os juizes;

Ou a minha luneta mágica mentia, enganava-me com a visão do bem. f: claro que adotei logo a primeira hipótese.

Cumpre-me dizer, que ainda assim refleti um pouco sobre o caso.

Com efeito a mocidade inexperiente é crédula demais, e deixando-se levar pelas aparências, dando fé às palavras de quem jura, sensibilizando-se diante do infortúnio, fácil em tomar o partido de quem chora e sofre, vendo em todos e em tudo o riso e o bem, porque ela é risonha e boa, deixa-se iludir e erra, presumindo ou julgando encontrar a virtude e a inocência, onde mil vezes só existe vício e crime.

Mas estas reflexões não têm cabimento no caso de que me ocupava; porque eu vi, e reconheci perfeitamente pela minha luneta mágica a inocência e a pureza de todos os condenados da Casa de Correção, embora eu visse e reconhecesse também logo depois o direito e a justiça que determinaram suas condenações.

Confesso que esta aparente contradição confundiu-me; já porém a expliquei sem quebra da confiança que deposito na visão do bem que tenho pela minha luneta mágica.

XVI

Um jovem da minha idade, grande coração, e alma cândida, Damião chama-se ele, excelente amigo, com quem me relacionei na casa de Esmeralda, levou-me anteontem por curiosidade minha, e a despeito das suas judiciosas observações, a uma casa, onde jogam o lansquenê três vezes por semana cavalheiros da mais fina educação.

O dono da casa é casado com uma senhora amabilíssima que toca piano como Hertz, e tem uma cunhada na primavera dos anos, que possui surpreendente voz de contralto, canta como a Stoltz, e é faceira, e linda; o seu nome é Hermínia, e não posso esquecê-lo mais; porque ela é a trigésima quarta senhora, por quem me sinto perdido de amor, e que me tributa igual sentimento.

Ninguém me censure por este muçulmanismo de amor platônico: sou escravo da visão do bem e amo sem querer amar.

Aproveitei duas horas deliciosas ouvindo tocar e cantar; todos porém jogavam, Damião mo fez notar, aconselhando-me que saísse ou jogasse.

Compreendi que o dever da cortesia me ordenava entrar no jogo.

Joguei pois e ganhei a principio; mas em breve a fortuna mudou e perdi não só quanto ganhara, como todo dinheiro que na carteira levava.

Consolei-me do prejuízo, observando que o meu amigo Damião fora de todos o que mais lucrara com as minhas perdas, que se elevaram a quinhentos mil-réis.

Quando não tive mais dinheiro para perder, deixei o jogo, e como as senhoras já se haviam recolhido, sai, e saiu comigo um outro jogador infeliz, que deixara aos carteadores do lansquenê o duplo do que me custara a minha curiosidade.

—São gatunos, arranjadores de maço, são refinados ladrões! disse-me ele.

—Para que tal suspeita? respondi; queixemo-nos da fortuna adversa; eu observei e estudei com escrupuloso cuidado todos aqueles jogadores, e posso assegurar que são homens honrados, e que jogaram com exemplar lisura, e nem o meu amigo Damião seria capaz de trazer-me a uma casa que não fosse muito moralizada e honesta.

—Damião?!!! ora é boa! esse é conhecido como trapaceiro e gatuno de profissão. Coraram-me as faces, e irritado perguntei:

—Em tal caso como se explica a sua condescendência, jogando com semelhante homem?

—Tem razão, tornou-me ele; tem mil vezes razão; mas eles sabem atrair e endoidecer os mancebos inexperientes, como nós, com a paixão do jogo que é fatal, e com os belos olhos dessas duas sereias, que uma toca, outra canta, e ambas servem ao vício.

—Que está dizendo? que calúnia!... duas senhoras pudicas, recatadas! . . .

O meu companheiro de infelicidade ao jogo desatou estrepitosa gargalhada, e depois exclamou sem baixar a voz:

—O senhor é ainda mais simples do que eu! Tenha cuidado...

—A esposa, e a cunhada...

—Não há esposa, nem cunhada, fique-o sabendo, e não torne mais a esta casa maldita. Essas duas mulheres são também cartas do jogo aladroado, são damas dos baralhos do lansquenê, e ganham sua quota ou porcentagem do barato que rende o jogo em cada noite, além dos lucros das conquistas que fazem, namorando os tolos como eu.

E assim dizendo, o jogador infeliz retirou-se apressado.

Eu também encaminhei-me para a minha casa, meditando sobre a injustiça dos homens.

Aquele jogador irritado pelos prejuízos que tivera, não hesitara em caluniar os perclaríssimos cavalheiros com quem acabava de jogar, e duas jovens senhoras, tipos de delicadeza, de fina educação, e de virtudes sem mancha, conforme eu a vi, amei, e adorei pela visão do bem.

No jogo alguém havia de perder, e alguém havia de ganhar.

Chamar ladrão e gatuno, a quem ganha no jogo, é desconhecer as condições, a fortuna, as eventualidades do jogo.

Deste modo e com juízos tais não há inocência, nem probidade, que escape aos aleives do jogador infeliz.

(continua...)

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