Por Inglês de Sousa (1891)
A capela-mor crescia sob os arcobotantes góticos, bela, ornada de mármores rendilhados, suave, elegante e esvelta, realizando o ideal dum estilo novo em que o bom gosto florentino corrigisse as demasias apaixonadas da arte da Idade Média, aliasse, no supremo esforço do sentimento artístico, a fé, a ânsia, o misticismo romântico das catedrais levantadas por gerações de obreiros desconhecidos, à fina e correta elegância dos Médici; em que a mão poderosa de Miguel Ângelo e a maestria de Bramante retocassem os excessos de fantasia, os exageros de imaginação dos grandes construtores medievais. Uma combinação nova, uma arquitetura que exprimisse a perfeita relação entre o culto e o ser supremo, uma arte que fosse humana e divina, participando das duas naturezas de Cristo, Deus pela origem e pela onipotência, homem pelo sofrimento e pelo amor. E ele, sacerdote dum tal culto, ministro dum tal Deus, deslumbrado pelas inúmeras luzes dos grandes candelabros de prata e ouro que lhe pareciam iluminar as naves solenes, sufocado pelo incenso queimado aos pés do altar em turíbulos cinzelados por Benevenuto Celími, vendo a seus pés a multidão enorme, rica, elegante, ávida da palavra sagrada, a admirar o luxo caro da sobrepeliz de rendas finas, da capamagna bordada a ouro, das vestes pontificais que ostentava garbosamente, coberto de púrpura, ouvia o canto divinal 'dos anjos do paraíso na fresca voz dos sopranos, acompanhada pela melodia grave do órgão. Uma sensação profunda de gozo espiritual perturbava-lhe o cérebro, arrancava-o à terra, levava-o pelas alturas, dando-lhe a prelibação da suprema felicidade, fruída ao som do hino imenso e festival com que tronos e dominações, arcanjos e serafins celebram a glória do Deus uno e trino na serena claridade dos céus.
O sol, subindo para o zênite, penetrou com mais força pelos óculos do oitão, e um raio ardente veio beliscar a nuca do padre ajoelhado, chamando-o à realidade das coisas. Achou-se de súbito na pobre Matriz de Silves, ajoelhado ante o altar de louro repintado, tendo à sua frente a imagem gasta da santa padroeira, da mãe de Deus que o olhava tristemente, humildemente quase, sem energia para esmagar a cabeça da serpente. Correu os olhos pela igreja toda, com pasmo, como se acordasse dum sonho delicioso e se encontrasse de repente na enfadonha realidade da vida. A cobertura do telhado ali estava, velha e remendada, as paredes caiadas, lisas, duma simplicidade sem graça, os quadros com figuras grotescas de santos e de almas penadas. Sonhara, sim, um sonho louco, de fantasia doente, para todo o sempre irrealizável. Como pudera conceber em Silves a edificação dum templo que fosse um monumento da fé católica e uma prova de poderoso gênio artístico? Jamais, naquele meio atrasado e já corrupto, naquela povoação dominada pela vulgaridade chata dum beatério sem sinceridade e sem elevação, jamais daquelas almas frias de tapuios indolentes, de provincianos vadios, poderia esperar um esforço convicto, um tentame qualquer que exprimisse força e vida, digna submissão à tirania imponente do belo, adoração entusiástica da grandeza imperecível de Deus.
Que sonho aquele! Que idéia disparatada e tola lhe ocupa por alguns momentos, como se um sopro de loucura lhe passado pela fronte no isolamento daquela triste Matriz Não. Era preciso banir para sempre essas fantasias que lhe tiravam a calma e aumentavam-lhe o desânimo do presente, fazei um gozo impossível, sem relação. alguma com a situação que o prendia à tarefa inglória e debilitante livremente escolhida. E devia resignar-se a isso? E agora, além de sentirse devorado por glória e de renome, reconhecia, com horror, que a pobreza, a rusticidade da sua igreja enchiam-no de repugnância, contrariavam a tal ponto os seus hábitos de elegância, os seus gostos de luxo, o seu ideal artístico, que era como uma repulsão material que sentia por aquela mesquinha casa de oração, por aquele altar despido de ornatos, por aquelas imagens grotescas de santos martirizados pela imperícia do escultor. Mas a consciência dessa fraqueza, ante a evidente tentação demônio da vaidade, aterrava-o. Sentia-se violentamente arrastado para o pecado da soberba, e em vão queria lutar com as tendências do espírito, procurando recuperar a humildade do coração, que lhe ditara outrora a renúncia dos benefícios prometidos pela proteção do senhor bispo, pela estima dos mestres do Seminário. Em vão a procurava readquirir, essa bendita humildade, sobre o pavimento de velhos tijolos remendados, ao som do chiar sarcástico dos morcegos, em face daqueles miseráveis objetos do culto dum povo, que a fé já não alimentava. Teve de sair da igreja, sair da vila, procurar a fresca das matas, achar-se em pleno ar, no meio da vegetação luxuriante das margens do Sacará para recobrar a tranqüilidade de que precisava o ânimo atribulado.
Vagou muito tempo por entre árvores, seguindo a esmo as picadas dos lenhadores, sentindo-se bem, haurindo a brisa embalsamada da floresta.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)AZEVEDO, Aluísio Azevedo. O missionário. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16663 . Acesso em: 27 mar. 2026.