Por Domingos Olímpio (1903)
Seridó confessou que nutrira sempre instintiva repugnância ao soldado, por seus modos atrevidos com as mulheres, muita falta de respeito, caçoadas inconvenientes; nunca, porém, lhe passara pela cabeça que ele fosse capaz de tão feia ação, como essa de levantar um impute que clamava aos céus e – o que lhe parecia ainda mais grave – reduzir uma rapariga inocente e bestalhona, como Gabrina, para ajudá-lo na obra nefanda de culpar um inocente.
— A pobrezinha fez isso – dizia ela ao delegado, na sala de audiência da câmara municipal, apinhada de curiosos – sem maldade; e (para que hei de estar com histórias mal contadas?) porque andava inclinada para seu Alexandre, depois dos benefícios que dele recebeu. Ponha o caso em si, meu senhor. Vossa senhoria sabe que mulher, quando vira a cabeça, é capaz de tudo. Quem quer bem não toma conselhos; não enxerga desgraças, nem se importa com perigos. Ela tinha no coração aquele amor encoberto e não me disse nada. Esta bichinha que aqui vê, esta não-sei-que-diga disfarçou tão bem que eu, macaca velha, nada maldei. Metia a mão no fogo por ela, creia-me... Aquele malvado homem, percebendo que a pobre estava enciumada, seduziu-a, com promessas de mimos, a tomar uma vingança do moço. Eu sabia que seu Crapiúna gostava de Luzia-Homem, tanto assim que, uma noite, me pediu para ir fazer uma reza, na casa dela para abrandar-lhe o coração. Fui com ele e mais o seu Belota, muito contra a minha vontade; mas (para que hei de negar?) fui e não pudemos fazer nada, porque estiveram acordadas até fora de horas. Saberá vossa senhoria que sou mulher de propósito; mesmo contra mim, falo a verdade. Fui fazer a reza, mas não há mal nisso. É com as minhas orações e mezinhas que arranjo o bocado para a boca, sem ser pesada a ninguém, Deus louvado.
— Que oração forte era essa? - perguntou-lhe o Promotor.
— Se eu disser sem ser rezando, mesmo de verdade e com fé, ela perde a virtude.
— E acredita nela?
— Ah! seu doutô, queria ter de anjos para acompanharem minha alma, as pessoas beneficiadas por ela. Não foi uma nem duas... Muita senhora dona de família e consideração...
Enquanto a Seridó falava, Gabrina, de pé, ao lado dela, cravava os olhos sombrios na fímbria do casaco de cassa, cujas rendas enrolava e destorcia maquinalmente, entre os dedos hirtos. Os músculos do seu rosto, lindamente oval e duma cor lindamente morena, emoldurados em cabelos negros e crespos, não traíam abalos violentos: estavam imóveis, e apenas se percebia pelas narinas dilatadas e palpitantes, a sua respiração entrecortada de suspiros abafados.
Contemplavam todos a mocinha de formas flexíveis e delicadas, apenas livres das linhas incompletas da infância e desdobrando-se em contornos graciosos; e, lastimando achar-se ela complicada no crime, todos a envolviam numa atmosfera de simpatia que os impulsos passionais despertam.
Por fim, perguntou-lhe o Promotor:
— É verdade o que diz esta senhora?
— É, sim senhor – respondeu com voz que mais parecia um sopro.
— Foi Crapiúna quem lhe insinuou esta calúnia?
— Foi, sim senhor...
— Por que não resistiu?
Gabrina ficou calada.
— A senhora amava Alexandre?
Como se o coração, muito tímido, lhe despejasse no seio a repoisada torrente de lágrimas, ela prorrompeu em convulso pranto, escondendo o rosto no seio da Seridó, que a amparou, que a enlaçou nos braços, com maternal carícia.
— Bem, bem – concluiu o Promotor – Não a martirizarei mais. Sossegue...
E, voltando-se ao Delegado, disse-lhe, em voz baixa:
— Realizaram-se as minhas previsões. Temos a eterna história, um drama de amor...
Nesse momento, entrou Alexandre no recinto, fechado por uma balaustrada, e destinado aos jurados. Seu olhar aceso de febre, luzindo na sombra das pálpebras roixeadas, fixou-se piedoso na febril rapariga; e, no rosto macilento, assomou um ligeiro sorriso amargurado.
— Aproxime-se – ordenou o Delegado.
Ele deu alguns passos vacilantes para a frente, perturbado pelas mal contidas exclamações de dó, que chegavam aos seus ouvidos sequiosos, naquele instante, do caricioso eco de vozes amigas. Os que ali estavam eram todos curiosos, enviscados pelo escândalo, ou indiferentes e desocupados, procurando diversão no desenlace do inquérito policial, à exceção de Teresinha, que o contemplava silenciosa, sentada a um canto.
Muitos comentavam os estragos que a infecta enxovia produzira na saúde do moço.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)AZEVEDO, Aluísio Azevedo. O touro negro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7415 . Acesso em: 25 mar. 2026.