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#Romances#Literatura Brasileira

O Mulato

Por Aluísio Azevedo (1881)

Minava um apetite surdo pelo jantar: alguns estômagos resmungavam indiscretamente. Contudo, todos os olhares e todas as atenções convergiam, na aparência, para o sertanejo, que a certa distância, de pé, isolado, a cabeça erguida com desembaraço mal-educado, o chapéu de couro atirado para a cerviz e preso ao pescoço por uma correia, a camisa de algodão cru por fora das calcas de zuarte, arregaçadas no joelho, o pé descalço, curto e espalmado, pé de andarilho, o peito liso e cor de cedro à mostra, braço nu e sem cabelos vibrava entusiasmado as cordas metálicas de uma viola ordinária, acompanhando, com um repinicado muito original, os versos que improvisava e outros que trazia de cor:

“Lá vai a garça voando

Para as bandas do sertão!

Leva Maria no bico,

Teresa no coração!”

Ao terminar de cada estrofe, rebentava um coro de risadas, durante o qual se ouvia o sapatear surdo do sertanejo, socando a terra, a dançar.

“Não tenho medo da onça,

Que todos têm medo dela!..

Não tenho medo de ti,

Que fará de Micaela!”

E o matuto, depois do sapateado, dirigiu-se a Ana Rosa:

“Me diga, minha senhora:

(Quem pergunta quer saber...)

Se eu sair daqui agora,

Onde vou amanhecer? “

— Este foi de sentimento!... considerou Etelvina com um gesto aprovativo.

— Gostei, gostei... confirmava o Freitas, protetoramente.

E o sertanejo ferrou o olhar em Ana Rosa:

“Sinhá dona, se eu pedisse...

Responda, mas não se ria...

Uma flor do seu cabelo...

Sinhá dona que diria?…”

— Bravo!

— Sim senhor!

Houve um sussurro alegre

— D. Anica, de a flor!...

Ana Rosa hesitava.

— Então, menina... repreendeu Manuel em voz baixa.

Ana Rosa tirou um bogari da cabeça e passou-o ao trovador, que versejou logo:

“O minha senhora dona,

Deus lhe pague eu agradeço;

Seus quindingues são dos ricos

Eu sou pobre e não mereço!... “

E, colocando a flor atrás da orelha, continuou, depois de olhar intencionalmente para Raimundo:

“Ó nhá dona feiticeira!

Me cativa seu favor

Mas não vá meter ciúmes

Agora pro moa e a flor!...”

Em seguida, desprendeu o chapéu e estendeu-o a um por um.

Consultaram-se as algibeiras do colete, pingaram os vinténs e as pratinhas de tostão. O menestrel, com a cabeça erguida em ar de exigência, dizia:

“Vamos, vamos, pingue o cobre,

Qu 'eu não gosto de maçada!

Dos homens aceito a paga,

Das mocas não quero nada!”

E, quando se chegou a Manuel:

“Manuelzinho cravo roxo,

Me desculpe a impertinência;

Se puder dar eu aceito,

Se não puder — paciência!...”

Entre gargalhadas, enchiam-lhe o chapéu de moedas. Ao chegar a vez do Faísca, este. em vez de dinheiro, lançou-lhe a ponta do cigarro; o matuto, como de costume, cavaqueou com a pilhéria e gritou zangado:

“Seu lanceiro da Bahia,

Casaquinha do Pará

A gente recebe o coice,

Conforme a besta que o dá!”

A hilaridade aumentou e o Faísca enfureceu-se, chegando a ameaçar o caboclo, que lhe soma em ar de mofa.

— Eu ainda atiro com alguma coisa à cara daquele diabo! resmungou o estudante, lívido.

— Deixe-se disso! . aconselharam-lhe, você já sabe que esta gente é assim, para que se mete?...

— Tome lá! disse Manuel ao sertanejo beba e vá embora!

E passou-lhe um copo de vinho, que ele emborcou, trovando, depois de estalar a língua:

“O vinho é sangue de Cristo,

É alma de Satanás.

É sangue quando ele é pouco,

É alma quando é demais!”

E, fazendo um grande cumprimento com o chapéu:

“Meus senhores e nhás donas,

Vou-me embora de partida

Deus lhes de muita fortuna

E muitos anos de vida!”

E virou de costas e retirou-se, a dançar, cantando uma passagem do bumba-meu-boi:

“Isto não, isto não pode sê.

Isto não, isto não pode sê

A filha de meu amo casar com você! ..

O caboclo me prendeu

Meu amor!

Foi tão cheia da razão, Coração!

Que acabo... “

E perdeu-se nas fundas sombras do mangueiral a voz do sertanejo e o som da viola.

Iam-lhe discutir o talento poético e a graça, quando de ama, Manuel, Maria Bárbara e Amância, todos três a um tempo, chamaram para a mesa, com autoridade benfazeja.

Houve um sussurro de prazer.

— Olha, filha, que já tinha o estômago a dar horas!... cochichou D. Maria do Carmo, ao passar por Ana Rosa.

Subiram todos para a varanda e foram tomando vivamente os seus lugares à mesa, entre uma confusão de vozes, a discutirem mil assuntos.

— Homem! exclamou Sebastião Campos, parece que tomaram alma nova só com o cheiro!...

O Freitas amolava Raimundo sobre poesia popular; falou, com assombro, de Juvenal Galeno.

— Muito original! muito original!

— Do Ceará. não?

— Todo inteiro! Ah, o senhor não imagina o que é aquela provinciazinha para as trovas populares!

E, antes que Raimundo desse alguma providência contra a maçada já o Freitas lhe recitava junto ao ouvido:

“Quando passares na nua,

Escarra, cospe no chão!

Qu'estou cosendo à candeia

Não sei se passas ou não!”

— Pois não há como uma festa no sido! dizia Sebastião por outro lado. Isto de pândegas, ou bem que é pândega ou bem que não é!

O Freitas insista:

“Sinhá, me de qualquer coisa,

Inda que só uma banana,

Que a barriga é bicho burro

Com qualquer coisa s engana!”

Raimundo já não o ouvia: prestava atenção a uma conversa entre Bibina, Lindoca e Eufrásia.

(continua...)

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