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#Romances#Literatura Brasileira

O Livro de uma Sogra

Por Aluísio Azevedo (1895)

Entretanto, o homem nunca chega a conhecer de todo a mulher que lhe pertence, por mais que ela o ame. Assim sucede que muita vez, na intimidade de um casal já de muitos anos constituído, lá uma bela ocasião o esposo fica admirado de ouvir falar à mulher de um fato, já velho na vida dela, e no entanto perfeitamente desconhecido para ele.

— Como, diz o homem, pois isso aconteceu?... Não sabia! ignorava-o até agora! Tu nunca mo disseste!...

— E por que havia de ter dito?... argumenta a mulher. Nunca tive ocasião de falar-te em semelhante coisa... Nunca me perguntaste nada a esse respeito...

E aqui está justamente a grande diferença no modo de amar dos dois sexos. O homem diz — espontaneamente, e a mulher confessa — interrogada.

Algumas há, casadas, que põem melindroso empenho em nunca mentir ao marido, e, sem jamais mentir com efeito, escondem-lhe tudo o que lhes convém ocultar, e às vezes coisas que são a desonra dele. Mas não mentiram.

O homem em conclusão, dada mesmo a melhor hipótese da sua altivez e energia de caráter, pode ser banal e piegas no seu amor. E meu genro era assim, com a circunstância, porém, de que a sua puerilidade era toda cariciadora e amorosa para minha filha e era para mim só feita de impertinências e rabugens de criança malcriada. Como, não obstante, eu sabia pesar e dar o verdadeiro valor a tudo isso, não o responsabilizava por tais misérias, e íamos vivendo. De resto, como eu só o amava pelo efeito reflexivo do muito que eu queria a Palmira, achava-o ridículo, sem contudo sentir por ele ódio, nem desprezo, como nos sucede comumente acharmos ridículas, nos outros, muitas coisas que são naturais e que observamos em nós mesmos e em nós mesmos lhes reconhecemos a utilidade.

Todavia, a sua partida comoveu-me bastante. Fomos levá-lo a bordo. O Dr. César não pôde ir conosco, porque tinha em casa a irmã muito mal com uma pneumonia aguda.

Era em abril, num belo dia de sol. Palmira estava encantadora; fiz-lhe pôr, intencionalmente, um vestido preto enfeitado de rendas valencianas, porque assim convinha à sua palidez, que se agravara naquela última quinzena; o chapéu, muito simples e também preto, guardava-lhe apenas uma parte da cabeça, envolvido, com o rosto, num vaporoso véu cor-de-rosa, que à luz da manhã fazia realçar o tom magoado da sua formosura.

Na lancha, assentada ao lado do marido, com o busto destacando nitidamente do fundo brilhante e verde do mar, parecia-me mais bonita do que nunca. Durante a ida, Leandro conservou por toda a viagem uma das mãos dela entre as suas, lançando sobre mim, de vez em quando, olhares de feroz ressentimento. Eu fingia não perceber o seu ódio, e era toda ouvidos para o que os dois conversavam em voz baixa, esquecidos um no outro, num alheio egoísmo de amantes sobressaltados.

Percebi que minha filha lhe murmurava dos ciúmes que ia sentir por ele durante a ausência e ouvi distintamente a resposta de meu genro:

— Se tu soubesse como levo este coração despedaçado, não me falarias nisso... Maldita a hora em que empenhei minha palavra!...

E, depois de desferir contra mim mais um olhar colérico, tirou o lenço da algibeira, para esconder o rosto, resmungando com azedume alguma coisa, no que senti ferir-me ainda a ponta de uma desconhecida injúria.

Ora, coitado! pensei, julga-me mal e me não perdoa o mal que me julga... Mais tarde me fará justiça!...

E larguei tudo isso de mão, para só pensar no valor daquele vivo e palpitante ciúme de minha Palmira, tão amada e tão desejada pelo esposo...

Ah! esse espetáculo fazia lembrar-me de que eu, infeliz que fui! nunca tivera tido ciúmes de meu marido!

Há muita gente que diz do ciúme o que os franceses ainda não se lembraram de dizer contra os alemães, e eu mesma estou de acordo em que, na maior parte dos casos, ele nada mais seja do que uma grosseira manifestação do despeito e da vaidade. Mas, quando em vez de vir do orgulho ou do amor-próprio, ele vem objetivamente do nosso terno e vivedouro entusiasmo por certo e determinado ente querido, é uma das mais legítimas expansões do amor. Todo o indivíduo que ama de qualquer modo, cerca de zelos vivos a pessoa amada.

Entre marido e mulher, como o casamento não é natural nem lógico, o ciúme complica-se e torna-se ridículo. Ao marido não assiste sequer o direito de mostrar ciúmes pela esposa, porque, das duas uma: — ou ele tem razão para revelá-los, ou não tem. Se tem razão não deve contentar-se com expô-los, deve por dignidade romper imediatamente os laços que a ela o prendem; e, se não tem razão, para que pois ofender e ferir em cheio na honra uma mulher inocente?

(continua...)

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