Por Aluísio Azevedo (1895)
- Impossível é a senhora! gritou ele. Creio que não podia lhe falar com mais franqueza do que falei! Fez mal em ficar!
- Sobe! pediu ela com a voz chorosa.
- Não me aborreça, replicou Teobaldo, afastando-se furioso.
E pensar, considerava o fugitivo pela rua, que não fui ter hoje com Leonília só para gozar uma noite completamente sossegada...
E, depois de alguns passos, enquanto seu pensamento trabalhava, deteve-se no meio da rua, batendo freneticamente com a bengala no chão.
- Mas isto não tem jeito! No fim de contas é uma violência que me incomoda, que me irrita, que me põe neste estado! Quero dormir, quero repousar e nem isso me permitem! Antes ser escravo! antes ser um cão, que esses ao menos descansam!
Então foi que se lembrou da carta encontrada sobre a mesa; aproximou-se de um lampião e abriu-a.
Reconheceu logo pelo sobrescrito que era de Leonília.
Teobaldo - Confesso-te que estou deveras surpresa com o teu procedimento; vejo que me enganei - não és um cavalheiro. Por tua causa enterrei--me neste arrabalde, transformei toda « minha vida e tu, logo nos primeiros dias, foges de mim como se eu fosse a peste em pessoa; ora, hás de...
Teobaldo não leu o resto; amarrotou a folha de papel entre os dedos e lançou-a fora com arremesso.
- Vão todas para o diabo! disse, e foi continuando a caminhar até à porta do hotel Paris. Bateu e pediu um quarto.
Só depois de recolhido se lembrou de que tinha consigo pouco dinheiro e, pois, não devia gastá-lo em coisas supérfluas.
- Amanhã... amanhã darei um jeito a tudo isto!... deliberou entre os lençóis. Vou falar com franqueza ao Coruja e pedir-lhe que me ajude a fugir desta crítica situação em que me acho... Ele é muito capaz de descobrir um meio, e se não descobrir, arranjarei o negócio por minha conta... Aqueles demônios das mulheres...
Adormeceu em meio deste raciocínio e tão profundamente, que só acordou no dia seguinte à uma hora da tarde.
A despeito disso não teve vontade de sair da cama; um entorpecimento doentio parecia chumbá-lo ao colchão; e com os olhos ainda cerrados, deixava que sua consciência funcionasse à vontade, grupando em torno dela um mundo de exprobrações.
Para mais lhe enervar o espírito ali estava aquele insociável aspecto do quarto de hotel, onde se sentiam ainda os rastros da última mulher que o habitara.
Teobaldo, despertando afinal, reparou para tudo isso, minuciosamente, com o doloroso prazer de quem repisa de propósito uma parte do corpo que está dorida e machucada. - A cama era muito larga, com um grande colchão de molas, onde o corpo se abismava; os travesseiros monstruosos e enfeitados de rendas e fitas; e por cima um imenso cortinado de labirinto, enxovalhado de pó. Sobre o mármore do lavatório via-se a bacia de gigantescas proporções, ao lado de uma porção de vasilhas de porcelana; e, em contraste com o resto, um miserável pedaço de sabão de 200 rs., fornecido pelo hotel. A o canto da pedra, esquecida sobre os rebordos do lavatório, havia uma escova de dentes, suja de opiato.
E todo esse aspecto de abandono e desleixo, todo esse falso conforto de quarto sem dono e nunca desocupado, tudo isso ainda mais o entristecia e acabrunhava.
Depois - o fato de não ter mudado de roupa e ver--se obrigado a vestir aquela mesma camisa da véspera também o torturava.
- Maldita Ernestina!
Pagas a dormida e uma xícara de café que lhe deram, não lhe ficava dinheiro suficiente para o almoço; vestiu--se, disposto a sair logo. Mas, enquanto se aprontava, ouviu no quarto imediato uma voz grossa, de homem, que altercava com o criado.
- Esta voz!... pensou o rapaz.
E, tomando de curiosidade, abriu a porta e espiou para o corredor, justamente quando o seu vizinho ia a sair.
- Mas, não me engano! exclamou. É ele! é o marido da tia Gemi! o velho Hipólito!
- Velho, não! respondeu o homem. Velho é trapo!
E a sua testa enrugava-se em orlas regulares, como água onde caísse uma pedra.
E reparando:
- Ora, espera! Você é o Teobaldo!...
- Em carne e osso, meu tio.
- As orlas da testa do velho acentuaram-se mais, numa expressão de contrariedade, que ele não procurava disfarçar; circunstância que alterou no mesmo instante o ar de contentamento que se havia formado no rosto do moço.
- Não sabia que o senhor estava na corte... disse este, para quebrar o silencio.
- Cheguei ontem e tive o caiporismo de meter-me no diabo deste hotel, que afinal me parece o menos próprio para mim! Com a breca, só vejo franceses e pelintras! E, demais, esfolam-me! Pedem-me os olhos da cara por dar cá aquela palha! Você mora aqui?... - Não, senhor; vim apenas dormir esta noite: mas a ninguém lembra morar neste hotel. O senhor deve procurar outro. Como ficou minha tia?
- Bem. Está perfeitamente boa!
- Oh! dir-se-ia que o senhor dá notícias de sua mulher contra a vontade...
- É o meu gênio!
E, sem poder dominar-se:
- Demais, para que precisa você das notícias de sua tia? Parece-me que uma pessoa que, durante dois anos, não se lembrou dos parentes, não há de ter muito interesse por eles...
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)AZEVEDO, Aluísio Azevedo. O coruja. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7406 . Acesso em: 18 mar. 2026.