Por Aluísio Azevedo (1884)
— Recheado saiu ele, mas foi de dívidas!... — E então?...
O Barroso Ia responder, mas Interrompeu-se:
— Olhe! Aí chegam eles! São os mesmos — é a Filomena e o pancada do marido!
— Ora, para que havia de dar aquele maluco!... exclamou Guterres, considerando o casal que o outro lhe mostrava.
— E como vêm tão esquisitos! Parecem dois estrangeiros! Ora o Borges!
Filomena, com efeito, vinha tão a européia pelo braço do marido, que não parecia a mesma.
E como estava formosa! como estava cada vez mais linda!
A quantidade de curiosos que os cercavam era tão grande, que os dois mal podiam caminhar.
Nunca o entusiasmo brutal do povo chegou àquele auge. As ruas, por onde seguia a desejada bailarina, ficavam completamente cheias. As janelas transbordavam. De todos os lados, choviam versos; duas sociedades filarmônicas acudiram com a pancadaria de sua música. Um verdadeiro delírio!
Começaram a surgir as ovações.
Do dia seguinte à chegada em diante, Filomena Borges transformou-se no alvo de mil protestos de amor, de presentes e oferecimentos, propostas de todos os sentidos. Os apaixonados calam-lhe em redor aos bandos, como pássaros prostrados pelo calor.
E a sedutora, sem desenganar a nenhum deles, nem lhes dar mais nada além de vagas esperanças, governava com o macio e delicioso cabresto de seus sorrisos e de seus olhares de ternura, toda aquela imensa matilha de namorados.
Na primeira noite em que ela se mostrou no Pedro II, o teatro foi pequeno para a concorrência que havia. As senhas atingiram o valor de jóias. Viam-se casacas nas torrinhas. E todos aplaudiam, todos se entusiasmavam, não pela arte, nem pelo talento de Filomena, mas pelo gracioso de seus gestos, pela originalidade de sua beleza, pelo satanismo de sua faceirice, que iam maravilhosamente com os requebros dos tangos e das modinhas.
— Não há francesa! Não há nada que se compare a isto!... dizia-se.
Um mandarim, que por esse tempo estava no Rio de Janeiro, encarregado de uma comissão diplomática, mandou-lhe no dia seguinte ao primeiro espetáculo, por quatro dos seus criados de rabicho, uma bela urna de sândalo, incrustada de ouro e repleta de coisas preciosas, entre as quais havia um bilhete de papel de arroz, escrito a pincel, que no melhor francês, punha à disposição de Filomena os sete aposentos que ocupava o chim no Hotel dos Estrangeiros.
Logo em seguida, um lord viajante, cuja fragata havia três semanas estava ancorada no porto do Rio de Janeiro, apresentou-se-lhe em casa, oferecendo-lhe um dote de meio milhão de libras esterlinas, se ela quisesse abandonar o marido e acompanhar o sedutor à Inglaterra, onde casariam sob a religião protestante.
E, como esses, outros, e mais outros oferecimentos vinham amontoar-se-lhe defronte dos olhos; e— ela sempre meiga, sempre amável, nunca dizia que "não" e também nunca dizia que "sim", justamente como em pequena lhe ensinara a velha D. Clementina.
O Borges, coitado! é que já não podia agüentar com aquele demônio de vida.
Quando não era o teatro, eram as visitas, os jornalistas, as repetidas festas — um jamais acabar de maçadas! é certo que já não pisava no palco, mas em compensação as suas lides de empresário, de caixa e de gerente, absorviam-lhe todos os instantes. Tinha de atender para a direita e para a esquerda, pagar contas, contratar empregados, administrar o serviço do teatro, escriturar a receita dos espetáculos — um inferno de preocupações.
E quando afinal, pela manhã, ganhava a cama, moído e prostrado, lá estava a mulher para perguntar-lhe pela "idéia", para perguntar-lhe como iam "as suas ambições políticas". Se o Borges havia já deliberado alguma coisa a esse respeito; se aprontara o seu primeiro artigo para a imprensa. — que fizera, afinal, depois que estavam na corte.
— Matar-me! É o que tenho feito! respondia o infeliz, gemendo no seu cansaço. — Esta vida dá-me cabo da pele! Não sirvo para isto!... Como queres tu que eu pense, que eu escreva, se não tenho um momento de repouso, se todas as minhas horas são poucas para o tal teatro?!
— Entretanto, é mister que te resolvas a principiar!... Não podes de forma alguma permanecer no estado em que te achas!...
— Sim, sim, resmungava o Borges, entre bocejos. — Hei de dar um jeito...
— Tenho uma idéia! exclamou a mulher de uma dessas vezes — tenho uma excelente idéia! — Está a chegar o verão; iremos passá-lo em Petrópolis e, durante esse tempo de completo repouso, tu farás o que já combinamos. Hein? que tal te parece?
— Bom, parece-me bom, respondeu o infeliz, mais animado com a idéia daquele descanso. — Irei para Petrópolis, irei de muito boa vontade, mas hás de afiançar primeiro que não voltaremos antes do inverno e que durante todo esse tempo nem sequer pensaremos em teatro!
— Podes ficar descansado! prometeu a mulher.
O Guterres, apesar daquela conversa com o Barroso, foi um dos primeiros que, à chegada do Borges, o procurou.
Apresentou-se muito comovido, disposto a perdoar generosamente as afrontas — que recebera do amigo.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)AZEVEDO, Aluísio. Filomena Borges. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16530 . Acesso em: 15 mar. 2026.