Por Aluísio Azevedo (1884)
O 9 é que ele não se lembrava a quem pertencia...Ah! era do tal Melinho, “ a pérola”, como o qualificava João Coqueiro constantemente.
E o de Lúcia! da misteriosa Lúcia!
Ela estava ali!...fazendo o quê?...pensando nele talvez...talvez dormindo...talvez até nem dela fossem o bilhetinho amoroso e os dois ramilhetes!...Quem sabia lá!...
E esta dúvida o apoquentava.
— Ora adeus! disse. — A ocasião havia de chegar!...
Veio-lhe, porém uma tentação aguda de subir ao n.° 8.
— Que mal podia vir daí?...O marido com certeza estava dormindo!...Que poderia acontecer?...
Levantou-se resolvido; mas as vidraças do quarto do tal médico, que só aparecia de quando em quando, acabavam de se iluminar.
— Olá!... considerou Amâncio, detendo-se. Ë o n. °11!
Por detrás dos vidros havia cortinas de cassa; nada se podia ver para dentro, apenas duas sombras difusas projetavam-se na cambraia, ora aumentando, ora diminuindo. Amâncio deixou-se ficar onde estava , mordido já de curiosidade.
Daí a uns dez minutos, pela escadinha do fundo, desciam cautelosamente, um sujeito alto, todo de escuro, e mais uma mulher gorda, de enorme chapéu, cujas abas lhe caíam sobre os olhos, ensombrando-lhe o rosto.
Vinha um atrás do outro, porque a escada era estreita. Atravessaram a chácara, falando em voz baixa, e entraram no corredor. Amâncio acompanhou-os, de longe, e tripetrepe.
A porta da rua estava aberta, como de costume; um carro esperava pelos dois lá fora; o cocheiro dormia na boléia. O sujeito do n.° 11 deu a mão à mulher das grandes abas, ajudou-a a entrar na carruagem e, seguida, entrou também. O cocheiro fechou sobre eles a portinhola, sem lhes dar palavra, depois saltou para o se posto e tocou os animais.
— E que tal?...interrogou Amâncio de si para si, quando os viu partir.
Lembrou-se então do que lhe dissera o velhaco do Coqueiro por ocasião de mostrar-lhe a casa: “Quanto a certas visitas...isso tem paciência... lá fora o que quiseres, mas, daquela porta para dentro...”
— Hipócritas! pluralizou o estudante.
E encaminhou-se para o segundo andar.
* * *
Subiu pela escadinha do fundo, não a do médico, mas pela outra do lado oposto; porque havia duas.
O primeiro andar continuava em completo silêncio; no segundo apenas se ouvia, de espaço a espaço, um tossir seco e agoniado, que vinha naturalmente do n.° 7 onde morava o tal moço doente. O pobre-diabo piorava à falta absoluta de meios.
Amâncio entrou às apalpadelas no corredor que dividia os oito quartos. O luar filtrava-se a custo pelas venezianas e pelas vidraças da janela e sarapintava o chão de pequeninos pontos brancos.
O n. ° 5, onde residia o Paula Mendes com a mulher, era o único que tinha luz; uma forte claridade rebentava por cima da porta fechada e ia projetar-se na parede do n.°10 que lhe ficava fronteiro. Mas ainda assim o corredor estava bem escuro.
Amâncio parou defronte do n.° 8. — Era ali!
Encostou o ouvido à fechadura; nem sinal de vida - Lúcia com certeza dormia profundamente.
— Dormia! Pensou o estudante. — Dormia, sem preocupações nem cuidados; ao passo que ele, por não encontrar descanso, errava pelos corredores desertos, como uma alma penada!. — Para que então se lembrara aquela mulher de ir mexer com ele?!... Se a sua intenção era dormir, para que o foi provocar? Para que lhe foi bulir com o sangue? Oh! Aquele silêncio do n.° 8 o irritava! Aquela indiferença afigurava-se-lhe uma afronta ao seu amor-próprio, um atentado contra o seu orgulho
E, quanto mais se convencia da impossibilidade de falar essa noite a Lúcia, mais e mais os seus sentidos se assanhavam! Afinal, já não fazia grande questão de ser com ela própria; aceitaria qualquer outra que o arrancasse daquela ansiedade em que se via entalado, como se estivesse dentro de uma armadura em brasa.
— Que inferno! Dizia ele consigo, rangendo os dentes. — Que inferno!
E, sem ânimo de ir embora, permanecia encostado à porta do n.° 8, deixando –se comer aos bocadinhos pela febre do seu desejo; ao passo que o corpo inteiro arfava com o resfolegar aflitivo dos pulmões.
— Todavia, pensou ele - quantas mulheres não o desejariam Ter junto de si naquele momento?...Donzelas até, quantas, naquele instante, não se estorceriam no leito e não morderiam os travesseiros, desvairadas pela isolação?
E saborosas lembranças de amores extintos, que o tempo e a ausência tornavam, mais perfeitos e mais desejáveis, acudiam-lhe simultaneamente ao espírito, para lhe aumentar as torturas da carne. As suas amantes do passado eram agora ainda mais atraentes e formosas; em todas elas não havia um lábio sem sorriso, um olhar sem fogo; era tudo opulento de graças e de meiguices, era tudo encantador e completo
Pôs-se a arranhar devagarinho a porta, dizendo quase em segredo o nome de Lúcia. Nada, porém respondia; o mesmo silêncio compacto enchia as trevas do corredor.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)AZEVEDO, Aluísio. Casa de pensão. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16529 . Acesso em: 10 mar. 2026.