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#Romances#Literatura Brasileira

A Mortalha de Alzira

Por Aluísio Azevedo (1891)

— Anda apaixonado!... Não se consola da morte da viúva!...

Ângelo seguia em silencio, indiferentemente, sem distinguir o murmúrio da calúnia que lhe esvoaçava em torno dos pés.

Mas os seus contrários rosnavam, ameaçando-o:

— Ah! Finges pouco caso?... Pois deixa estar que te mostraremos quem pode mais: tu ou nós!

Era bem singular esta luta de alguns padres, apercebidos com todas as armas da intriga, contra aquele pobre cura indiferente à maldade humana, caminhando abstrato pelo seu destino, com a alma inconscientemente caída por terra, e os olhos da razão postos no céu.

E, não obstante, os padres lá iam para a frente, ganhando terreno contra Ângelo e agitando de Monteli até Paris os seus estandartes de difamação. Quanto aos romeiros, quanto aos que vinham à casa do presbítero arrastados pela fé no milagre, a esses o sincero pároco falava francamente e dizia-lhes que—Milagres, só Deus os podia realizar, porque a tanto chegava o seu infinito poder; mas que ninguém devia levar tão longe a vaidade, que se julgasse digno de provocá-los ou merecê-los, sem incorrer em desagrado aos olhos do Senhor, que só amava aos simples e despretensiosos.

Que voltassem para os seus lares! exortava-lhes Ângelo, que voltassem para os seus lares!... Os homens para o trabalho que dá o pão de cada dia, e as mulheres para junto dos seus filhos e dos seus deveres de esposa.

— Ah! dizia abertamente, sem armar ao menor efeito. Ah! meus irmãos! quando o lar é abençoado e honesto, não precisa que venham buscar Deus aqui tão longe; Deus irá lá ter espontaneamente e far-se-á lembrado a cada instante. Sejam bons e leais, e Deus será convosco! Não o ofendam, pretendendo que eu faça o que só ele tem o direito de fazer!

Este modo de proceder era a pior arma que Ângelo podia vibrar contra os seus adversários, porque neutralizava o pábulo da maledicência; mas os molinistas, assim que deram com isso, mudaram de tática e começaram a persegui-lo por outra face.

Um dia o presbítero ficou muito surpreendido, quando na rua gritaram atrás dele:

— Ó louco! Ó louco!

E, desde então, convenceu-se de que não era amado, nem respeitado, por uma parte da população de Monteli.

De outra vez, depois de ouvir aquelas mesmas palavras, recebeu nas costas uma pedrada.

Voltou-se, abaixou-se e apanhou a pedra.

A certa distancia havia um grupo de rapazes e raparigas, foi até lá e perguntou se era algum deles, que tinha arremessado a pedra. Ninguém respondeu.

— Meus filhos, disse Ângelo então; aos loucos não devemos apedrejar, que são eles capazes de cair em raiva. Alguns tenho eu visto aí pela aldeia, a quem até dão pão e dão leite...

E passando a mão na cabeça de um dos pequenos, perguntou-lhe, sem cólera:

— Por que me atiraste tu a pedra?

— Era para aquele cachorro! ... disse o rapazito, apontando um cão.

— Mentes, meu filho; mas ainda que dissesses a verdade, serias pecador, porque é pecado apedrejar aos cães... Perdôo-te por esta vez e aconselho-te a que não cometas igual delito.

Afastou-se, e quando tinha feito algum caminho, ouviu de novo atrás de si:

— Ó louco!

Talvez tenham razão!... disse Ele, consigo, sacudindo os ombros.

E, com efeito, para quem só julgasse pelas aparências, Ângelo figurava um louco. Na terrível palidez do seu rosto, brilhavam-lhe os olhos sinistramente com desvairada expressão; seus lábios, que nunca sorriam, denunciavam fria e profunda angústia, que se não traduzia por palavras; um mistério de sofrimentos havia nas rugas precoces da sua fronte mais branca que o mármore das sepulturas, e os seus gestos eram lentos e como que mal governados, e o seu andar vacilante e frouxo, como o de quem caminha lentamente para a morte. Todo ele era apenas uma estranha sombra que atravessava pela terra, sem se comunicar com ela.

Estava cada vez mais fraco e mais abatido.

E não podia ser senão assim, porque Ângelo sofria muito e não tinha um momento de repouso. Durante o dia era dos seus misteres religiosos e dos seus deveres de piedade, e à noite, quando se recolhia à cama, em vez de descanso, tinha para o martirizar o tormento do sonho.

À noite, ele pertencia a Alzira. A cortesã vinha buscá-lo ao leito, e carregava-lhe o espírito com ela até a manhã seguinte.

E o mais curioso era que, naquelas duas existências, tão opostas e até tão inimigas, o cavalheiro amante da condessa Alzira conhecia o cura de Monteli e ria-se intimamente das ingenuidades dele ao passo que Ângelo, em mente, detestava o outro e não lhe perdoava as libertinagens e os crimes.

Com o correr dos sonhos, formou-se uma secreta rivalidade entre o padre casto e o licencioso boêmio. Odiavam-se. Cada qual desejava a extinção do rival.

O presbítero, entretanto, a ninguém confiara até aí o segredo das escapulas do seu espírito, e principiava a habituar-se àquele duplo viver de sacerdote virtuoso e de folião profano.

Alzira vinha invariavelmente buscá-lo, mal fechava ele os olhos, e levava-o de cada vez a um novo lugar de prazeres.

(continua...)

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