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#Romances#Literatura Brasileira

A Condessa Vésper

Por Aluísio Azevedo (1897)

— Que notícias me dá a senhora de sua filha e do Gabriel?...

— Uma desgraça, senhor Alfredo! uma verdadeira desgraça! Parece que temos má estrela; nunca vi assim uma enfiada de caiporismos! O senhor já sabe que o Gabriel me carregou com a pequena?...

Desconfiava disso, minha senhora.

— Pois é exato...

E Genoveva contou minuciosamente o ocorrido.

— O que lhe posso afiançar, disse Alfredo, é que aquilo é um rapaz de conta, peso e medida. Creia, D. Genoveva, que, se ele não se casa com a senhora sua filha, é porque a senhora sua filha é casada...

— Não é dele que tenho receio, senhor Alfredo, é dela! é daquela cabecinha de vento, que não pensa no dia de amanhã. Ah! quando me lembro que posso ficar totalmente desamparada, sinto vontade de morrer!...

E Genoveva tinha lágrimas a espiar­lhe pelo canto dos olhos.

— Sossegue, minha senhora, não há de ser assim. Deus não permitirá semelhante cousa!...

— Ora, o quê! disse a viúva com desconsolo. Agora tudo são rosas para ela; mas, em breve, as cousas mudarão... Como sabe o senhor, com a morte do meu defunto comendador, ficamos sem nada; só nos deixaram por muito favor, esta casinha, estes trastes e uma escrava, tão velha, que bem pouco terá de vida. Comíamos com a mesada que o curador nos entregava por parte de meu genro. Ora, depois que Ambrosina se meteu com o Gabriel, foi­se a mesada, e eu... veja o senhor isto!... eu sujeitar­me a receber uma pensão correspondente das mãos do amante de minha filha!

E Genoveva concluiu, muito comovida:

— É duro! é duro, senhor Alfredo, para quem estava habituada a passar de certo modo e a não conhecer necessidades!

— Mas o que quer a senhora? disse o viúvo, em tom de condolência. O que ninguém pode negar é que houve em tudo isso uma grande dose de fatalidade. Quem poderia esperar que o Leonardo enlouquecesse, e desse modo inutilizasse a pobre menina para outro casamento?... Ela, é moça, bonita, instruída; pelo jeito gostava do Gabriel, que, de sua parte, é rico e um rapaz às direitas; encostou­se a ele. Se as nossas leis fossem outras, os dois se casariam; mas as nossas leis não consentem... Queixe­se de nossas leis, Sra. D. Genoveva!

— Eu me queixo é da sorte, senhor Alfredo. Olhe que sempre somos muito caiporas!.

— De hora em hora, Deus melhora! sentenciou gravemente o viúvo. Não desespere, D. Genoveva, não desespere! Quem mais do que eu teve motivos para perder o ânimo?...

E Alfredo levantou­se. Eram horas de se ir chegando...

— Então o quê, já vai? Que pressa!...

— Estou já informado a respeito do Gabriel...

— Mas, era só isso o que o senhor queria saber? Não disse também que tinha uma comissão delicada?...

— Ah! sim, mas fica tudo resolvido com o que a senhora me declarou.

— Meu Deus! quanta reserva!... Por que não se abre por uma vez, senhor Alfredo?... O senhor assusta­me!

— Bem, nesse caso, vou falar­lhe com franqueza.

E Alfredo tornou a sentar­se.

— Desde que me acho empregado na casa do senhor Windsor, confidenciou ele, tive a fortuna de merecer, tanto deste como de sua família, toda a confiança e até estima. Ora, eu, que sempre fui reconhecido aos meus benfeitores, tornei­me para aquela gente um amigo dedicado e sincero. Por outro lado, devo grandes obrigações ao Gabriel, que foi quem me tirou da miséria e do abandono em que vivia. Pois bem, depois daqueles tristes acontecimentos na noite do fatal matrimônio da senhora sua filha, Gabriel teve ocasião de conhecer a D. Eugênia, filha mais velha de meu patrão, e desde logo nasceu entre os dois moços uma forte simpatia, que em breve se transformava em amor. Creio que chegaram a falar em casamento... Tudo isto, como vê a senhora, é muito natural e nenhuma conseqüência má teria, se não fosse o Gabriel haver passado a freqüentar regularmente a casa do patrão, avivando desse modo, no coração de D. Euzênia, as esperanças que ele próprio lá plantara...

— E daí?...

— Daí, é que a pobre menina se habituou a vê­lo, a falar­lhe, naturalmente tiveram de parte a parte os seus sonhos de felicidade; mas de repente, Gabriel desaparece, D. Eugênia, a principio apenas ressentida, foi pouco a pouco se entregando a uma tristeza profunda e doentia, até que ultimamente lhe sobreveio tosse acompanhada de febre, e ela, coitadinha! não come, dorme muito mal e há dois dias, enfim, que está para decidir!...

Genoveva olhava­o com um ar aflito.

(continua...)

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