Por Franklin Távora (1879)
— Mas, então, disse ele como quem não achava palavras para exprimir com precisão as suas idéias, por que de lá mesmo onde estava, não cortou com decisivo e rude golpe esse amor parasita que me corrói o coração? Por que me escreveu a senhora? Por que teve para mim nessa carta expressões que se parecem com saudáveis confortos e promessas de prazer eterno? Tenho aqui comigo a sua carta. Muitos e ardentes beijos têm meus lábios imprimido nela.
Ângelo tirou do bolso a carta que Maurícia lhe enviara com a tradução do romance de George Sand, e o acompanhamento da poesia dele; e sem poder suster o seu destino, beijou várias vezes o papel.
— Meu Deus! — exclamou Maurícia a modo de assustada. Peço-lhe perdão, mil perdões. Não cuidei que alentaria assim o fogo do seu coração. Deus é testemunha de que, escrevendo-lhe essas letras, a minha intenção foi outra. Julgava todo o seu afeto por mim extinto, inteiramente aniquilado; e tinha razão para pensar assim. Mas, se as minhas palavras foram sementes fatais que vieram viver entre as chamas como as salamandras, não me recuse o seu perdão, porque cometi esse crime sem intenção, antes pensando em praticar ação lícita e boa.
E tomando novamente o braço do bacharel, compeliu-o a andar. Pouco adiante, estavam parados os outros.
— Tenho uma coisa que lhe dizer, D. Maurícia, acudiu Sinhazinha, tanto que pode ser ouvida pela mãe de Virgínia.
E correu para ela, gentilmente. Ângelo, deixando então as duas amigas juntas, foi dar o braço a D. Matilde. Daí, voltaram.
O que Sinhazinha queria dizer à Maurícia é fácil adivinhar. Ela soubera naquele momento da ausência da rival. D. Matilde, que votava grandes simpatias à filha de D. Sofia, revelara-lhe a sua satisfação por ver o filho livre do perigo. É fácil compreender o efeito de tal revelação no espírito, para assim dizermos, no coração da menina. Ela andava triste. Aquelas aventuras tinham-lhe dado muito fel a beber. Durante os dois meses que se seguiram à sua chegada do engenho o seu desgosto, o seu amargor íntimo tinha ido em aumento. Quando Maurícia chegou, mas pode conhecê-la, porque as carnes pareciam ter fugido do corpo dela e a palidez cobrialhe o rosto. Era inda este o seu estado. A notícia dada por D. Matilde mudou subitamente as condições do seu espírito. Ordinariamente, tímida e modesta, Sinhazinha não guardou desta vez coerência com sua índole e seus hábitos. Tomando o braço de Maurícia, não a deixou mais senão em casa de Martins. Tornara-se outra. Estava alegre. Mais de uma vez aproximou-se de Ângelo e dirigiulhe a palavra; o bacharel notou esta diferença, porque nos encontros que tivera com a moça durante as duas noites últimas, vira-a apenas corresponder aos seus cumprimentos e, em vez de aproximar-se, não perder ocasião de se distanciar dele. O prazer de Sinhazinha, porém, durou pouco, porque dentro em breve ela teve a certeza de que Ângelo estava a todo momento a manifestar-lhe esquivança. As impressões de Sinhazinha foram a modo de comunicativas: Maurícia, à proporção que os dias se adiantavam, caía também em funda melancolia. Uma vez, perguntou-lhe Eugênia:
— Que tem você, Maurícia? Todos notam que você anda descontente e preocupada. Parece-me que não há razão para semelhante tédio à vida.
Virgínia, que já tinha chegado, aproximou-se de Maurícia e disse-lhe.
— Ora, mamãe, deixe-se de tristeza. Vamos tocar, ou antes, venha cantar. Venha, mamãe.
Por satisfazer à filha, Maurícia pôs-se ao piano. Quando terminou a harmonia de Schubert, que era a sua predileta, estava banhada de lágrimas.
Interrogada sobre a causa do seu pranto, dissera que não podia ser outra senão a sua pouca sorte. Todos foram levados a achar a razão desse pranto no procedimento de Bezerra. Maurícia não disse sim, nem não, a semelhante respeito. Mas os eu coração e a sua consciência protestaram em silêncio contra o juízo geral.
CAPÍTULO XVIII
O sino da capela deu sinal que ia entrar a festa. As novenas tinham terminado na véspera com grandes elogios às cantoras; mas o concurso de gente que elas haviam atraído não cessara, antes, na última noite, mostrava-se ainda maior. Muito de indústria, o juiz fizera correr fama que os versos seriam cantados pelas primeiras vozes do Recife e que entre estas se faria ouvir pela primeira vez a mais gentil das de que ali se poderiam jactar até então nas festas das igrejas. Alguns jornais publicaram esta notícia, e não foi preciso mais para que da rede de arrabaldes, que cerca a estrada, chegassem milhares de pessoas dentre as quais, se muitas eram arrastadas pela devoção, a maioria não tinha outro fim que o de divertir-se como é de costume.
A popularíssima festa de Nossa Senhora da Saúde que se celebra no Poço da Panela; a de Nossa Senhora dos Prazeres de Guararapes, que se celebra na freguesia do Cabo; a de Nossa Senhora do Monte, em Olinda, tiveram aquele ano digna êmula na da Conceiçãozinha da estrada João de Barros. Nunca festa de arraial foi mais brilhantemente concorrida.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)TÁVORA, Franklin. O Sacrifício. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16632 . Acesso em: 28 fev. 2026.