Por Franklin Távora (1878)
Tanto bastou para excitar o desagrado dos insurgentes, dos quais foram, dentro em pouco, tão positivas e repetidas as hostilidades e arrogancias contra Manoel do Ó, que, ofendido este, ao principio simplesmente no seu melindre de família, e por derradeiro na própria pessoa de um filho, certo dia, de um genro daí a pouco, e de um neto semanas depois, resolveu declarar-se pela causa dos nobres; e uma das tentativas de Maia para fazer junção em Goianinha com o bando do Tunda-Cumbe, a fim de se dirigirem ao Recife, foi frustrada por Manoel com sua companhia de filhos, mais ou menos ligados com ele por laços particulares. Foi tão forte e acertada a oposição, que a força mandada por Maia não pode passar sequer os limites da Paraíba.
Não foi só esta a única tentativa de junção malograda; nenhuma houve de 11 de julho para traz que surtisse efeito. Manoel do Ó achava-se diante de todas com sua gente como barreira intransponível e fatal.
Estas e outras idênticas contrariedades exacerbaram por tal forma o capitão-mór da Paraíba que este assentou de queimar o ultimo cartuxo para as fazer cessar de todo.
- Diga a esse negro Manoel do Ó, assim se exprimia ele uma vez a certo sujeito que tinha relações com o alfaiate, que muito breve lhe hei de provar que O é o mesmo que zero; e a seus filhos José da Luz e Antonio da Luz, diga igualmente que hei de mandar apagar as luzes de sebo de Pedras-de-fogo pelo meu escravo Euzebio, com tiros de bacamarte.
Dito e feito. Em 10 de julho, quando menos se esperava no povoado, rompeu o fogo para as bandas da Baixinha, lugar de Pedras-de-fogo que pertence à Paraíba. Tinham sido dados os tiros pela gente de Luiz Soares contra uns sobrinhos do alfaiate que moravam desse lado.
Manoel do Ó, que não obstante a sua avançada idade tinha ainda grandes espíritos e não perdia de vista os passos de Maia, saiu logo com sua gente; e pois na véspera de noite seu filho Anacleto do Espirito-Santo, que chegara do Limoeiro, aonde tinha ido a destrocar uns cavalos, lhe dissera ter visto aí o Tunda-Cumbe, não pensou em proteger a retaguarda, até porque, sendo muito numeroso o concurso dos agressores, toda a gente viu-se obrigada a empenhar-se em lhe fazer frente.
Este foi o seu mal, porque momentos depois teve a retaguarda atacada por forças não menos numerosas que as de Luiz Soares. Foi o caso que, tendo-se entendido Maia previamente por carta com Antonio Coelho e concertado com ele o ataque ao obstáculo comum, não se fizera esperar do lado de Goiana o reforço do Tunda-Cumbe.
Vendo-se entre dois fogos o povo de Manoel do Ó, não houve esforço que não empregasse para romper qualquer dos lados, nem atos de bravura que não praticasse, a fim de levar a melhor aos agressores. Tudo porém foi debalde. Trinta homens não podiam triunfar de oitocentos.
A cabo de uma hora de peleja que não se pode descrever, Manoel com quase todos seus parentes estavam destroçados e vencidos. Restavam unicamente da família as mulheres, dois filhos e três sobrinhos, que lograram escapar-se quando reconheceram que a sorte das armas lhes era adversa. Estes, para não perderem a vida, ganharam o mato.
Não se podem imaginar as atrocidades que, vendo-se senhores do campo, cometeram na povoação, desamparada no mais aceso da luta, os bandoleiros desenfreados e sedentos.
Refugiaram-se no mato os homens feridos e as mulheres chorosas e consternadas que constituíam os últimos restos da parentela de Manoel do Ó. Aí o seu ódio cresceu e radicou-se profundamente no coração de cada um dos foragidos. Exagerados em seus desejos de desagravar-se, juraram na solidão da selva, testemunha da sua adversidade e depositaria dos seus prantos, que se pudessem voltar com vida a Pedras-de-fogo, como lei de sua honra, não consentiriam jamais que nenhum português se demorasse mais de vinte e quatro horas na povoação fundada pela ilustre vitima cuja memória eles deste modo queriam honrar. Julgavam, jurando preencher esta promessa solene, que cumpriam um preceito de alta justiça. Não era porém outro sentimento o deles, assim prometendo, que o sentimento da vingança pessoal, sempre cego e injusto.
Transmitindo-se de pai a filho, de filho a neto, nem foi esquecida a tradição do morticínio nem ficou sem preenchimento a promessa feita entre prantos e angustias há mais de um século.
Não há no que aí fica relatado, invenção de romancista. Até bem pouco tempo, logo que chegava qualquer filho de Portugal a Pedras-de-fogo, era intimado de ordinário por moradores pertencentes às primeiras famílias, para que dentro de poucas horas se retirasse.
Este exagero passou de todo. A civilização, polindo o brasileiro do interior, deixou-lhe inteiramente livres os movimentos de natural generosidade e brandura, que constituem a parte essencial de seu gênio.
Enquanto estas cenas e outras semelhantes se passavam em diferentes pontos do termo de Goiana, acertadas providencias eram dadas pelo governo da capital a fim de que elas não se reproduzissem.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)TÁVORA, Franklin. O Matuto. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1812 . Acesso em: 28 fev. 2026.