Por José de Alencar (1872)
Depois de fazer ao Faustino e a Monjolo as últimas recomendações, voltava ele acompanhado pelo Pinta, quando inesperadamente saiu-lhe ao encontro, de dentro do mato, Jão Fera.
O Barroso vacilou na sela; e o Gonçalo Suçuarana ficou ainda mais rajado, com a palidez que lhe afulou o semblante. Todavia não fizera o Bugre o menor gesto de ameaça; apenas lhes tomara a frente, postando-se no meio do caminho.
- É hoje véspera de São João. Seu dinheiro aqui está; não lhe devo mais nada. Estas palavras foram ditas pelo capanga na sua voz arrastada e mansa, estendendo ao Barroso um maço de notas, que ele recebeu maquinalmente com a mão bamba.
- Agora passe bem. Havemos de encontrar-nos! continuou o Bugre, cujo olhar despediu uma chispa.
E desapareceu.
VII
Fascinação
Quando Berta abriu a porta da alcova em busca do chapéu, Linda veio ter com ela:
- Onde vai?
- Ali, já volto, respondeu Berta iludindo a pergunta, e sôfrega por evitar conversa naquele instante.
- Guarde seu segredo! tornou Linda ressentida do modo frio por que lhe respondera.
Conhecendo que se agastara a amiga, cingiu-lhe Berta a cintura com um braço, e impediu assim que ela se afastasse.
- Olhem a curiosa! Zangou-se porque não lhe disse onde vou? Ah! Quer saber?
Pois eu lhe conto; depois não fique aí vermelhinha como uma pitanga. Escute!
Aproximando a boca ao ouvido de Linda segredou-lhe com malícia:
- Vou à casa, buscar Miguel para que ele venha decidir a nossa aposta, e dizer se eu menti afirmando que ele morre por certa pessoinha muito nossa conhecida. À proporção que falava a travessa da Berta, abrasava-se a concha nacarada da orelhinha de Linda, enquanto os longos cílios velando os brandos olhos, ensombravam docemente a sua face enrubescida.
Quando pronunciava baixinho as últimas palavras, viu Berta uma formosa cabeça magana e brejeira, que se insinuava arteiramente entre seus lábios e o ouvido da companheira, soltando estas palavras com um tom de motejadora confidência:
- Eu também entro no segredo!
Era o Afonso.
- Ai! exclamou Berta, sentindo nos lábios o roçar do buço macio que pungia a face do mancebo.
- Que abelhudo você é, mano! acudiu Linda, um tanto contrariada por não ouvir o resto do que tanto lhe interessava.
- Não disfarce, menina, você mesma é que me disse que Inhá estava me chamando para dar-me um bei...
- Um beliscão! atalhou Berta cravando-lhe no braço a unha rosada, mas rija como a garra da araponga.
E abrindo rapidamente a porta, ganhou a alcova, com o sentido de fechar-se por dentro e evitar assim a desforra que o Afonso não deixaria de tomar e que ela bem suspeitava qual fosse.
Mas transtornou-lhe todo o plano o maganão, metendo de pronto o joelho à porta, antes que a chave desse volta. Começou então uma luta, que devia terminar pela derrota de Berta, apesar do petulante arrojo da menina, habituada aos folguedos de rapazes, e da galanteria com que Afonso moderava o seu impulso, a fim de não molestar a sua gentil competidora, e também para não lograr tão fácil a vitória.
Mas teve Berta um aliado, com o qual não contara o moço. Linda acudiu à amiga, como a formiguinha que mordeu o calcanhar do caçador para salvar a rola.
Achegando-se ao irmão sorrateiramente, fez-lhe cócegas.
Afonso era árdego; estremeceu, rindo como um perdido, e apartando os cotovelos, para se desvencilhar da irmã, sem abandonar o posto.
- Assim, Linda! gritava Berta.
- Espera, sonsinha, que tu me pagas! dizia o Afonso no meio das risadas.
- Deixe a outra! acudia Linda.
Apertado entre dois fogos, voltou-se rapidamente Afonso, para fazer face à irmã, enquanto com as costas empurrava a aba da porta. Vivo e pronto como foi esse movimento não evitou que Berta com extrema agilidade, aproveitando-se da breve intermitência em que a fechadura aderiu ao batente, desse volta à chave.
Ficou de todo o ponto azoado o Afonso; e Linda, vendo-lhe a cara desconsolada, soltou uma risada gostosa.
Nisso repercutiu um grito; era de terror ou talvez de aflição; e vinha de dentro da alcova.
- O que foi, Berta? exclamou Afonso.
- Inhá, Inhá, é você! balbuciava Linda sufocada pelo susto e abalando a porta.
- Abra depressa! instava o moço cheio de inquietação.
Não tiveram resposta estas perguntas ansiadas e instantes. Reinava dentro grande silêncio, apenas cortado por um tinido vibrante, que arrepiava como o áspero trincar da lima no ferro.
- É graça; ela quer nos assustar! dizia Afonso disfarçando para consolar a irmã, porém angustiado por um terrível pressentimento.
Ao mesmo tempo, curvado, espiando pelo espelho da fechadura, investigava o interior quanto lhe permitia a estreita abertura por onde passava o olhar. A luz que entrava pelas janelas abertas esclarecia o aposento; assim via o rapaz distintamente o centro da parede fronteira, onde estava colocado o toucador da irmã. Com muito esforço, inclinando-se o mais possível à direita, percebia a orla do cortinado desfraldado pela cabeceira da cama.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)ALENCAR, José de. Til. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1850
. Acesso em: 28 jan. 2026.