Por José de Alencar (1875)
- Como são interessantes estas folhas! Disse Aurélia que buscava um pretexto para expandir a irritação íntima. Quando me lembro de abri-las, o que faço raras vezes porque não tenho braços que cheguem para essa difícil empresa, sucede-me sempre julgar que estou lendo um jornal do ano anterior.
- A culpa não é do jornal, mas da cidade em que se publica, e da qual deve ser, como disse há pouco, o livro diário, ou a história da véspera.
- Perdão, não me lembrava que também foi jornalista.
Como Aurélia se calasse, e as folhas não fornecessem mais assunto à conversação, Seixas aproveitou a censura freqüentemente dirigida à imprensa periódica em nosso país, para fazer sobre o tema algumas variações, com que enchesse o tempo.
Está entendido que tratou a questão sob um ponto de vista ameno, que pudesse conciliar a atenção de uma senhora; Aurélia escutou-o alguns momentos com atenção; mas observando que o marido falava com o tom monótono e a pausa calculada de quem desempenha uma tarefa, e longe de dar franca expansão ao pensamento, ao contrário solicita o espírito rebelde, a moça interrompeu essa dissertação erguendo-se do sofá.
Deu algumas voltas pela saleta; percorreu com os olhos o aposento, reparando no papel, nos móveis e adereços, como se nunca os tivesse examinado, ou indagasse se nada faltava. Passou depois a observar atentamente as figurinhas de porcelana e outras quinquilharias que havia sobre os consolos, tirando-as de seu lugar e mudando-lhes a posição.
Daí encaminhou-se ao piano, que é para as senhoras como o charuto para os homens, um amigo de todas as horas, um companheiro dócil, e um confidente sempre atento. Ao abrir o instrumento, lembrou-se que não era próprio a uma noiva da véspera entregar-se a esse passatempo quando vizinhos e criados, todos deviam supô-la àquela hora engolfada na felicidade de amar e ser amada.
Ah! Ela não conhecia essa aurora mística do amor conjugal, que se lhe transformara em vigília de angústia e desespero. Mas adivinhava qual devia ser a transfusão mútua de duas almas, e compreendia que , ávidas uma da outra, não se podiam alhear em estranho passatempo.
Abandonando o piano, disfarçou em percorrer os livros de música, arrumados sobre o móvel apropriado, uma espécie de estante baixa de prateleiras verticais. Aí esteve a folhear apenas, solfejando a meia voz os trechos favoritos, e quiçá buscando um que respondesse aos recônditos pensamentos, ou antes que traduzisse o indefinível sentimento de sua alma naquele instante.
Parece que achou afinal essa nota simpática, pois sua voz desprendia-se num alegro de bravura, quando lembrou-se que não estava só. Volveu um olhar para o sofá, onde havia deixado o marido, que porventura a estaria observando, surpreso de sua mímica.
Seixas, ao apartar-se a moça, tomara de cima da mesa um álbum de fotografias, e entretinha-se em ver as figuras.
- Está vendo celebridades? Perguntou a moça, que viera de novo sentar-se ao sofá.
Fernando que compreendeu que a pergunta não era senão malha para travar conversa, e dispôs-se a satisfazer o desejo da mulher.
- É verdade, celebridades européias, pois ainda não as temos brasileiras; isto é, em fotografia, que no mais sobram. Admira que nesta terra tão propensa à especulação e ao charlatanismo, ainda ninguém se lembrasse de arranjar uns álbuns de celebridades nacionais. Pois se havia de ganhar muito dinheiro; não só na venda de álbuns, mas sobretudo na admissão dos pretendentes à lista das celebridades.
- Diga antes o rol.
- É com efeito mais expressivo.
- O que isto prova, observou Aurélia, é que a literatura tem feito maiores progressos em nosso país do que a arte; pois se não me engano já há por aí, dentro e fora do país empresas montadas para exploração da biografia.
- Tem razão.
- Escapou de casar-se com uma contemporânea ilustre, acrescentou Aurélia grifando as últimas palavras com o mais fino sorriso.
- Ah! Não sabia! Lamento profundamente não ter de acumular essas tantas honras que recebi.
- Pois estive ameaçada de andar por aí em não sei que revista ou gazeta, na qualidade de brasileira notável. Creio eu que o meu título à celebridade era a herança de meu avô. Foi-me preciso tomar umas dez assinaturas para defender-me da glória que esses senhores pretendiam infligir-me.
Nesta conversa e na revista dos retratos consumiram os dois muito tempo.
A pêndula acabava de soar uma hora. O criado abriu com estrépido a porta da sala de jantar, como para advertir de sua entrada; e disse aportuguesando o termo inglês luncheon segundo o costume geral:
- O lanche está pronto.
- Vamos? Perguntou a moça erguendo-se.
Seixas fechou o álbum e acompanhou a mulher.
O criado que vira os dois noivos inclinados sobre o álbum, sorriu com ar brejeiro. Fernando percebeu o sorriso e corou.
III
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)ALENCAR, José de. Senhora. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1847 . Acesso em: 27 jan. 2026.