Por José de Alencar (1875)
Era a uma dessas montearias ou vaquejadas que naquela madrugada saía o capitão-mór, e a presença de sua família indicava ainda um traço de semelhança entre os nossos costumes sertanejos daquela época e as tradições da nobreza européia. Como as castelãs de além mar, as nossas gentís fazendeiras tomavam parte nesses jogos fidalgos, e animavam com sua graça o ardor e os brios dos campeões.
Quem observasse naquele instante as damas que faziam esquipar seus ginetes à frente da comitiva, notaria sem dúvida o contraste da afoiteza e galhardia que mostravam em seu gesto, com o recato e meiguice do trato familiar e íntimo. Nas destemidas cavaleiras que afrontavam sorrindo os tropeços do caminho, e saltavam por cima de um tronco derribado ou de barrancos e atoleiros, não reconhecera de-certo D. Genoveva, a modesta e laboriosa caseira, e as duas meninas tão mimosas.
São assim as filhas do sertão: eu ainda as conhecí de tempos bem próximos àqueles; suas tradições recentes ainda embalaram o meu berço. Espôsas carinhosas e submissas, filhas meigas e tímidas, no interior da casa e no seio da família, quando era preciso davam exemplo de uma bravura e arrôjo que subiam ao heroísmo.
A idéia da montaria tinha partido do dono do Bargado, o capitão Marcos fragoso, que por uma carta mui cortês mandara convidar o seu poderoso vizinho e a família.
O primeiro impulso do capitão-mór foi recusar o convite. Com a idéia que êle fazia de sua importância e da posição que tinha naquele sertão sujeito à sua vontade onipotente, aceitando favores de outrem.
A generosidade era um direito seu; êle a dispensava quando lhe aprouvesse, mas não a recebia. Como os antigos reis, êsse potentado não reconhecia igual dentro de seus domínios; todos os moradores, pobres ou ricos, de Quixeramobim, êle os considerava como seus vassalos.
Com muito jeito conseguiu D. Genoveva persuadir o marido da conveniência de fazer uma exceção daquela vez, a fim de que ela e sua filha melhor conhecessem o Marcos Fragoso, antes de ajustar-se o casamento. Campelo consentiu afinal; mas recomendou à mulher que observasse bem os aprestos do convívio, a fim de excedê-los em um festim para o qual se propunha a convidar o vizinho e seus hóspedes.
Do outro lado da várzea, ao entrar no tabuleiro, havia à borda do caminho um casebre de embôço coberto de palha. Ao avistar essa habitação isolada, o capitão-mór que investigava com olhar de dono os lugares por onde ia passando, observou-se atento.
— Agrela! disse estacando o ruço e apontando para o teto da casa.
O ajudante seguindo a direção indicada aproximou-se da cabana e examinou o tôpo da carnaúba que servia de cumieira:
— Cortada de fresco? perguntou Campelo.
— Não há uma semana; respondeu o ajudante.
— Traga já o atrevido à nossa presença, Agrela.
O ajudante imediatamente deu ordem à gente da escolta, e foi descobrir o dono do casebre numa rocinha de mandioca, a poucas braças de distância. O homem vinha assustado.
— Como te chamas? perguntou o fazendeiro.
— José Venâncio, para respeitar e servir ao sr. capitão-mór.
— José Venâncio, quem te deu licença de cortar aquela carnaúba?
— Saberá o sr. capitão-mór que eu não corte nas terras de Oiticica, mas lá na várzea do Milhar.
— A ordem que demos, José Venâncio, é de não cortar carnaúba, em qualquer parte dêste sertão.
— Eu não sabia, sr. capitão-mór; pois não seria capaz de desobedecer a vossa senhoria. Era preciso que estivesse doido.
— Acha que êle não sabia, Agrela? perguntou o Campelo a seu ajudante.
— O José Venâncio veio morar para estas bandas há pouco tempo e tem-se portado bem. Entendeu mal a ordem; mas não obrou com malícia.
— Por esta vez, e atendendo à informação do nosso ajudante, ficas perdoado; mas não caias noutra, José Venâncio.
— Juro, sr. capitão-mór!
— A carnaúba é um presente do céu: é ela que na sêca dá sombra ao gado, e conserva a frescura da terra. Quem corta uma carnaúba ofende Deus, Nosso Senhor; e nós não podemos deixar sem castigo tão feio pecado. Vai em paz, José Venâncio.
O matuto curvou de leve o joelho, fazendo submissa reverência ao capitão-mór, que prosseguiu no meio de sua comitiva.
Durante essa curta demora ocorreu um incidente no grupo das senhoras. D. Flor que havia parado perto de uma touceira de carnaúba, descobriu a umbela de uma trepadeira, aberta naquele instante e aproximou-se para colhê-la; mas não pode alcançar o pâmpano que ficava muito alto e entrelaçado com os talos da palmeira.
— Ajuda-me, Alina!
— Você vai ferir-se, Flor! exclamou a companheira.
— Medrosa! tornou a donzela, cedendo de seu intento.
A orvalhada da noite, de que estavam cobertas as fôlhas, a tinha borrifado. Ficara encantadora assim, com os cabelos salpicados de aljôfares. De longe ainda lançou à flor os olhos cobiçosos, e insensivelmente volveu-os na direção de Arnaldo, com insistência.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)ALENCAR, José de. O Sertanejo. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1848 . Acesso em: 27 jan. 2026.