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#Romances#Literatura Brasileira

O Moço Loiro

Por Joaquim Manuel de Macedo (1845)

Mas Honorina não queria nem podia dormir: primeiramente as últimas palavras do patrão não tinham totalmente dissipado todos os seus receios; quem sabe por que desejava ele que ela dormisse?... o pensamento de que aquele homem poderia ser um malfeitor... um ladrão talvez, apareceu em seu espírito; mas, temendo desafiar outra vez sua cólera, se patenteasse a desconfiança que sentia, acordando seu pai, ela fingiu adormecer; porém o jovem marinheiro continuava a mostrar-se sossegado e já respeitoso; e quando falava aos remeiros, sua voz parecia abrandar-se de modo que semelhava menos uma ordem, que uma súplica. E, pois, as idéias desfavoráveis, que sobre ele tinham aparecido no ânimo de Honorina, começaram a esvair-se pouco a pouco.

Depois, pode uma jovem senhora voltar de um agradável sarau sem pagar o tributo das lembranças?...

Perguntai a toda essa bela turba de moças e mancebos o que se passa durante o resto da noite que se queimou na pira dos prazeres de um sarau, e a uma voz vos responderão: “ah! recorda-se, se se vela!... sonha-se... quando se consegue dormir”.

Recorda-se, sim, todos aqueles eloqüentes obséquios, aquelas palavras de sentido obscuro para todos e bem claro para só ela que as ouviu, e que as recorda!... recorda-se, sim, o mancebo daquela interessante senhora... toda graças... toda espírito, que lhe arrastava o coração e os olhos, quando valsava; que lhe prendia a alma inteira nos ouvidos quando lhe falava... recorda-se com saudade... mais do que com saudade de um simples, pode ser... de um doce talvez... murmurado com os lábios quase cerrados, e que ainda assim soa tão ternamente no coração; um doce talvez!... palavra mágica! primeiro elo dos amantes! fonte das primeiras esperanças! talvez... expressão sublime... tão sublime no princípio de um amor nascente, como só o é no fim dele o eu vos amo! da mulher que se adora; recorda-se mesmo com interesse de um duvidoso, quem sabe?... de um triste, não sei; apesar de toda a sua bárbara frialdade!...

E sonha-se também, oh! sonha-se muito! e ainda com o mesmo pobre mancebo, que a seguiu inutilmente toda a noite... sonha-se com o seu olhar de fogo que, embebido nos olhos dela, pareceu querer penetrar até sua alma para lá plantar o sentimento que dardejava!... sonha-se com o sorriso angélico da encantadora moça, que lhe deu uma inocente flor... sonha-se com aquele suspiro que se apanhou descuidado... com aquele pé, em que se tocou por acaso... com aquele colo de alabastro, onde dois tesouros se deixavam adivinhar tão belos!...

— Leva remos!... disse o jovem patrão; porque chegavam à praia.

O batel arrastou seu bojo sobre a areia, e, quando a prancha caiu, o marinheiro despertou a Hugo de Mendonça e a Honorina com a menor rudeza que pôde.

— Chegamos, disse ele.

— Bem... bem... obrigado... saltemos, Honorina.

Honorina ergueu-se e procurava as luvas, que havia posto sobre o banco.

— Eis aqui uma, senhora, o vento a ia lançando ao mar, enquanto a senhora dormia... foi por isso que parou em minhas mãos.

— Obrigada, respondeu a moça, a outra tenho cá eu.

Mas, no momento de calçá-las, Honorina olhou com surpresa para o jovem marinheiro, que ao pé dela se mostrava triste e submisso.

Hugo e Honorina desembarcaram; e o patrão, que recebeu o seu dinheiro, os viu partir.

Que a luva estava nas mãos do marinheiro, Honorina o sabia quando parecia procurá-la no banco; porque ela, fingindo dormir, velara durante toda a viagem e vira tudo quanto se tinha passado no batel.

Primeiro, ela notou que o batel um instante se desgovernara... ou talvez seguia rumo diverso do que devera seguir, e o jovem patrão, que tão sabido se jactara de pilotagem, chamou a um dos remeiros e por algum tempo lhe entregou o leme.

Depois ela sentiu que, quando o batel se achou defronte da barra, o vento refrescou, e foi então que, uma de suas luvas, levantada por ele, teria com efeito caído no mar, se o jovem marinheiro a não tivesse tomado.

Enfim, ela reparou também que ele em lugar de tornar a pôr a luva onde estava, beijou-a muitas vezes... deu-lhe mil voltas, e por último guardou-a junto do coração.

Receosa ainda do que vira, supondo aquele homem tão rude... tão mal-educado, ousado demais por interessar-se tanto por um simples objeto, que lhe pertencia, e não querendo por isso deixá-lo em suas mãos, Honorina fingiu procurar a luva, que lhe faltava no banco, onde a tinha posto.

Quando a recebeu das mãos do marinheiro... ela a achou quente ainda do calor daquele peito grosseiro; apesar disso, querendo calçá-la, fez um movimento de surpresa, porque dentro da luva estava alguma coisa demais... guardou silêncio então, por temer que seu pai pudesse ter uma disputa com um homem tão selvagem; e, fingindo nada haver percebido, partiu com as mãos nuas.

Depois ela poderia falar, e dizer a seu pai quanto se passara; mas Honorina pensou que iria afligir o seu bom velho; além de que não deixava de sentir alguma curiosidade de saber o que continha a luva.

(continua...)

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