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#Ensaios#Literatura Brasileira

Memórias da Rua do Ouvidor

Por Joaquim Manuel de Macedo (1878)

Em compensação, porém, ela, ou por cálculo ou por inocente escolha, reunia e expunha em sua loja uma plêiade de raparigas floristas, a nenhuma das quais faltava o viço da mocidade, e a uma ou outra acrescia o dom de mais ou menos boniteza.

De uma dessas meninas se apaixonou em retour de lajeunesse um velho septuagenário, notabilidade política da mais elevada posição social, titular... etc... sábio e poeta inspirado de antiga reputação.

Dia por dia lá se encaminhava a passos lentos e quase rastejantes o ilustre velho para a loja de Mme Finot e ali ficava duas ou três horas ao lado da menina que o encantara, lendo-lhe às vezes ternos cantos poéticos que o pobre amor anacrônico lhe inspirava.

No fim das duas ou três horas de lirismo o septuagenário apaixonado, combinando o próprio gosto com o preço da tolerância da dona da loja, comprava bonitas e caras flores que deixava nas mãos e ao colo da menina florista, e saia para curtir saudades até o dia seguinte.

E logo que ele saia, Mme Finot sem riso nem careta, perfeita filósofa positiva, guardava na gaveta o produto das flores vendidas ao grande titular, enquanto as raparigas em zombarias mal-abafadas metiam à bulha a menina adorada, a quem aliás invejavam aquele amor que, embora limitado ao gozo de poesias e de flores, era em todo caso preferência e distinção.

Durou alguns meses este amor platônico e lamentável de velho: veio pôr-lhe termo a morte deste.

Asseguravam alguns íntimos amigos do notável personagem que os cantos e liras com que ele exaltava a sua ternura e a beleza da menina florista eram repassados de doce melancolia, magistrais sob o ponto de vista da arte, e surpreendentes na idade do poeta pela viveza da imaginação.

Ao pressentir, porém, a morte, o sábio arrependeu-se da mísera fraqueza e queimou seus terníssimos versos, extinguiu os testemunhos líricos do amor de septuagenário por menina.

Depois desta indiscreta revelação de caso que muitos observaram, como eu, mas que por ventura já esquecido estava, não devo ocupar-me mais de Mme Finot, e portanto - disse. E peço aos meus leitores três Ave-Marias para que Deus nos livre e guarde da fraqueza humana igual à daquele varão ilustre estadista, sábio e poeta, que ao aproximar-se dos oitenta anos se apaixonou por menina florista de menos de vinte primaveras.

Neste quarteirão da Rua do Ouvidor as celebridades se acotovelavam ao lado esquerdo.

Segue-se à casa n.º 95 a de 97; à de Mme Finot a florista, a casa onde explorou boa mina de ouro, vendendo fundas, M. Vannet, um dos mais antigos franceses da Rua do Ouvidor.

"Ouro é o que ouro vale."

Ao velho Vannet serviram as fundas para fundar tão boa fortuna, que sem outra fonte de recursos, e sem esgotar o capital adquirido, ele fez construir a casa de três pavimentos na mesma rua, esquina da de Gonçalves Dias, e .hoje também célebre, porque nos pavimentos superiores se acha estabelecido o Hotel Fréres Provençaux, cuja nomeada é contemporânea e, portanto, não pode entrar nestas Memórias.

A casa n.º 97 ainda conserva em tradicional tabuleta o antigo letreiro: Fábrica de Fundas do Vannet; mas eu aposto que o seu atual proprietário e fabricante não será capaz de exclusivamente com o produto da venda de fundas levantar casarão igual àquele que ficou mencionado.

Por quê?...

Quem puder explique ou resolva este problema econômico e medicinal ou cirúrgico. Eu que não sou economista, nem médico prático, apenas chego a compreender a causa pelo modo seguinte:

No tempo do velho Vannet todos os homens que, por qualquer causa, se sentiam com o que vulgarmente se chama quebradura ficavam realmente quebrados e recorriam ao prudente socorro das fundas; hoje em dia, porém, as fundas se tomaram muito menos necessárias, porque observa-se que alguns quebrados apresentam o curioso fenômeno de se acharem mais inteiros, e se podem quebrar duas vezes, isto é, à direita e à esquerda, avulta ainda mais a saúde perfeita, de modo que as fundas de Vannet não têm mais a extensa procura do outro tempo.

Esta explicação pode afigurar-se demasiado metafísica, mas eu asseguro que, pelo contrário, ela é filha legítima da escola realista.

Aquela casa n.º 113, ainda do lado esquerdo, acanhada, estreita, mas de três pavimentos, cujo letreiro chamador de fregueses anuncia o Café de Londres, e excelente Restaurant, foi levantada no lugar onde se mostrava a antiga e pequena casa térrea de duas portas, que ainda em 1838 era loja de livros do Albino Jordão.

Lembro-me sempre dele! lembro-me da sua modesta loja de livros novos e velhos, de obras encadernadas ou em brochura, que se vendiam ali a barato preço. Em meu tempo de estudante fui freguês do Albino Jordão e entre outras obras comprei-lhe as Memórias Históricas de Pizarro e as Memórias para Servir à História do Reino do Brasil, do Padre Luís Gonçalves dos Santos, por alcunha o - Perereca -, as quais de tanto socorro me têm sido em estudos, como este que estou fazendo.

(continua...)

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