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#Tratados#Literatura Brasileira

Tratado descritivo do Brasil em 1587

Por Gabriel Soares de Sousa (1587)

A vista desta cidade é mui aprazível ao longe, por estarem as casas com os quintais cheios de árvores, a saber: de palmeiras, que aparecem por cima dos telhados; e de laranjeiras, que todo o ano estão carregadas de laranjas, cuja vista de longe é mui alegre, especialmente do mar, por a cidade se estender muito ao longo dele, neste alto. Não tem a cidade nenhum padrasto, de onde a possam ofender, se a cercarem como ela merece, o que se pode fazer com lhe ficar dentro uma ribeira de água, que nasce junto dela, que a vai cercando toda, a qual se não bebe agora, por estar o nascimento dela pisado dos bois, que vão beber, e porcos; mas, limpa, é muito boa água, da qual se não aproveitam os moradores por haver outras muitas fontes de que bebe cada um, segundo a afeição que lhe tomam, e a de que lhe fica mais perto se ajuda por serem todas de boa água.

A terra que esta cidade tem, uma e duas léguas à roda, está quase toda ocupada com roças, que são como os casais de Portugal, onde se lavram muitos mantimentos, frutas e hortaliças, de onde se remedeia toda a gente da cidade que o não tem de sua lavra, a cuja praça se vai vender, do que está sempre mui provida, e o mais do tempo o está do pão, que se faz das farinhas que levam do reino a vender ordinariamente à Bahia, onde também levam muitos vinhos da ilha da Madeira, das Canárias, onde são mais brandos, e de melhor cheiro, e cor e suave sabor, que nas mesmas ilhas de onde os levam; os quais se vendem em lojas abertas, e outros mantimentos de Espanha, e todas as drogas, sedas e panos de toda a sorte, e as mais mercadorias acostumadas.

C A P Í T U L O XIII

Em que se declara o como se tratam os moradores da cidade do Salvador, e algumas qualidades suas.

Na cidade do Salvador e seu termo há muitos moradores ricos de fazendas de raiz, peças de prata e ouro, jaezes de cavalos e alfaias de casa, entanto que há muitos homens que têm dois e três mil cruzados em jóias de ouro e prata lavrada. Há na Bahia mais de cem moradores que têm cada ano de mil cruzados até cinco mil de renda, e outros que têm mais, cujas fazendas valem vinte mil até cincoenta e sessenta mil cruzados, e davan-tagens, os quais tratam suas pessoas mui honradamente, com muitos cavalos, criados e escravos, e com vestidos demasiados, especialmente as mulheres, porque não vestem senão sedas, por a terra não ser fria, no que fazem grandes despesas, mormente entre a gente de menor condição; porque qualquer peão anda com calções e gibão de cetim ou damasco, e trazem as mulheres com vasquinhas e gibões do mesmo, os quais, como têm qualquer possibilidade, têm suas casas mui bem concertadas e na sua mesa serviço de prata, e trazem suas mulheres mui bem ataviadas de jóias de ouro.

Tem esta cidade catorze peças de artilharia grossa, e quarenta, pouco mais ou menos, de artilharia miúda; a artilharia grossa está assentada nas estâncias atrás declaradas, e em outra que está na ponta do Padrão para defender a entrada da barra aos navios dos corsários, se a cometerem, donde não lhe podem fazer mais dano que afastá-los da carreira, para que não possam tomar o porto do primeiro bordo, porque é a barra muito grande e podem afastar as naus que quiserem, sem lhes a artilharia fazer nojo.

C A P Í T U L O XIV

Que trata de como se pode defender a Bahia com mais facilidade.

(continua...)

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