Por Inglês de Sousa (1891)
O vigário foi ajoelhar-se sobre os degraus do altar de Nossa Senhora, com o coração confrangido, sentindo-se penetrado por um remorso vago. Naquela manhã não dissera missa, e havia muito que se limitava à missa das nove horas, aos domingos, a única que atraía alguns ouvintes. Começou a rezar, mas a impressão de desânimo e abandono que o apanhara ao penetrar naquele templo mesquinho e sujo, o distraía, impedindo-o de concentrar o espírito na tarefa banal da prece decorada. Quando erguera os olhos para a imagem da padroeira, notara que o dourado malfeito começava a quebrar-se em diversos pontos, deixando a nu o pau de que se fizera a santa. Mais uma despesa ainda, pensara, avaliando o trabalho da nova encarnação, e desta vez não tinha o dinheiro do padrinho. A pintura do altarmor estava estragada pelas moscas, a toalha de renda roída de ratos, o missal parecia um alfarrábio comido de traças, a prata dos castiçais fora-se devorada pelo uso ou pelo tempo. Quanto seria preciso para renovar tudo isso, para dar alguma decência à igreja? Era um nunca acabar. Fizera muitos esforços, renovara os paramentos, algumas alfaias e vasos sagrados, gastara nisso todo o seu dinheiro e o que lhe dera a pia generosidade do padrinho... de que servira? Seriam precisos ainda alguns contos de réis para que a Matriz de Silves oferecesse a aparência duma casa de Deus, dum edifício em que se praticava o culto divino. Fora talvez melhor levantar um novo templo, uma Matriz nova! Seria um edifício sólido, capaz de resistir ao tempo, e não a miserável barraca de tabatinga e pau-a-pique condecorada com o nome de Matriz de Silves. Teria a forma dum templo grego ou seria a miniatura duma basílica medieval, dessas soberbas construções de pedra, cuja contemplação arrebata a alma às alturas infinitas, mergulhando-a num sonho povoado de visões antecipadas das sublimidades do Empíreo. Poderia ainda buscar no movimento de renovação artística do século XV, o modelo inexpressivo e frio com que a decadência da fé religiosa parodiava a severa correção da forma grecoromana, no desespero de reproduzir o ideal do paganismo morto. Qualquer que fosse o estilo da futura igreja, colunatas gregas, relembrando a harmonia e a graça do politeísmo generoso e fecundo; ogivas góticas exprimindo as ansiedades da alma humana, sedenta dum ideal novo; flechas e agulhas agudíssimas, perfurando o céu para abrir uma entrada à fé do catolicismo ardente; ou zimbórios e abóbadas romanas, aliados às linhas puras, à fria elegância e à pobre correção dos artistas da Renascença, privados do sentimento religioso que inspira e realiza as grandes criações; tudo serviria contanto que o templo fosse grandioso e belo, provocasse a admiração dos passageiros, atestasse o alto conceito do ministro que o servia, os seus esforços, a sua vitória, e a sua poderosa iniciativa. Que importava que essa igreja magnífica fosse edificada à margem dum obscuro lago, num sertão quase desconhecido, num centro quase selvagem, se a beleza e a harmonia das formas atraíssem as vistas curiosas do estrangeiro, a crítica dos artistas e o julgamento dos competentes, vindos em chusma das outras províncias, dos países de além-mar, para admirar a obra gigantesca que a energia e o talento de padre Antônio de Morais alevantara do chão. E como se o pensamento de semelhante glória o dementasse, o padre, de joelhos sobre o primeiro degrau do altar-mor, com a cabeça erguida e os olhos fixos no teto carunchoso da igrejinha, julgava-se já dentro do novo templo. O telhado pouco a pouco ia-se elevando a grande altura, arredondando-se em abóbada imensa que avolumava o eco das vozes harmoniosas de órgãos e de cantores. A nave alargava-se sobre um pavimento de mármore preto, ornado de cruzes e de flores simbólicas, que os fiéis pisavam, como os santos passeiam o tapete florido do céu estendido sobre miríades de estrelas. Como plantas vigorosas, alimentadas pelo sol dos trópicos, os pés direitos, transformados em colunas agrupadas, atiravam-se para o alto a sustentar o peso formidável das arcadas em místico trifólio. Os retábulos toscos abriam-se em nichos povoados de estátuas imponentes, simbolizando na sua bem-aventurança celestial todas as crenças e todos os conhecimentos humanos. Os quadros parietais coloriam-se, cercavam-se de molduras ornamentadas com uma graça delicada, apresentavam cenas da Paixão e da vida dos santos em que a verdade artística combinava com os sentimentos inspiradores.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)AZEVEDO, Aluísio Azevedo. O missionário. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16663 . Acesso em: 27 mar. 2026.