Por Domingos Olímpio (1903)
Traído pela inesperada revelação e irritado pelos contínuos gestos afirmativos de Teresinha, Crapiúna, a custo, sofreava os estos da cólera, que lhe queimava o coração.
Eu sei lá dessa história de bolsas... – respondeu, aparentando serenidade – É verdade que cheguei no fim do divertimento; tive uma turra com o Zoião, uma bobagem... Mas...
Carneviva levou o apito à boca, e tirou dele três trilos agudos e violentos. Apareceram imediatamente, quatro soldados.
— Bem. Vamos pôr isso em pratos limpos. Ah! Eu bem suspeitava que havia falcatrua... Todos os dias uma queixa. Furtinho para aqui, gatunagem para acolá... Cambada que é a vergonha da farda!... Corja de ordinários...
Depois, pondo à cinta uma garrucha, ordenou aos soldados:
—Vamos! Acompanhem-me com estes dois homens: desarmem a esses coisas ruins.
À aproximação dos camaradas, Crapiúna recuou, e levou imediatamente a mão ao sabre: mas, o sargento lho arrebatou com um movimento rápido, com um movimento enérgico.
— Olha lá!... Não se engrace comigo, seu Crapiúna... Observou ele – Vamos e muito direitinho... Comigo não se brinca, vocês sabem...
Partiram em escolta, acompanhados por magotes de pessoas, no trajeto pela rua. Chegando ao quarto de Teresinha, Carneviva ordenou que se afastassem, e entrou com os soldados ficando à porta uma sentinela. Nessa ocasião, chegou o subdelegado, atraído pelo ajuntamento e informado da ocorrência, passou a dar a busca.
A bolsa foi retirada debaixo do caixão e aberta. Havia nela dinheiro, jóias e alguns fragmentos de papel-escrito, versos de canções populares e o rascunho de uma carta a Luzia.
O subdelegado inquiriu, então, Crapiúna: - De quem é esta bolsa?
— Não sei – respondeu o soldado, impávido de furor. - Pergunte a essa mulher que é a dona da casa...
Os camaradas presentes afirmaram que a bolsa era muito conhecida; pertencia a Crapiúna.
— Bem – concluiu a autoridade – Vou levar o fato ao conhecimento do delegado, a quem está entregue o inquérito, para lavrar o auto. O senhor sargento terá a bondade de mandar recolher os homens incomunicáveis, e comparecer com as testemunhas na delegacia.
Luzia e a mãe ouviram a narrativa, num enlevo de alegria, num enlevo de pasmo, com as almas nos olhos, como se lhes revelassem casos fabulosos, casos sobre-humanos. Era possível que Teresinha houvesse realizado tão assombrosa façanha?
— Vocês não imaginam – continuou ela – como tinha povo na rua. Parecia procissão, quando levaram os soldados para o xadrez. E a cara do Crapiúna?... Ficou verde, amarelo, encarnado como lama pimenta; botava-me uns olhos ensangüentados que me varavam... Eu, que vi o bicho bem seguro, ferrei também os olhos nele como quem diz – arre diabo!... Quando passou por mim, resmungou: "Deixa estar sua aquela, que me pagará... Diz à tua pareceira Luzia-Homem, que não hei de ficar toda a vida preso..." Senti um frio no coração, quando o malvado disse isto.
— E agora – perguntou Luzia – vão soltar já Alexandre?
— Sei lá... Disseram-me que comparecesse amanhã na delegacia para a trapalhada de depoimentos e não sei que mais.
— Ah! Teresinha – gritou Luzia, com um abraço veemente, radiante – Você é um anjo, um anjo!
— Que anjo, que nada!... Sabe o que sou? Mulher e bem mulher, de cabelo na venta. Ninguém mais faz, que não pague com língua de palmo. Chegou o meu dia... com dois proveitos num saco: Crapiúna preso e Alexandre limpo de pena e culpa... Foi uma sorte! Viva o glorioso Santo Antônio! Ah!... se eu tivesse foguetes! Xii... tô... tó!... Viva Santo Antônio!... Vivo... Vivo!...
E, lestes, escarnicando do celerado, saciada de vingança, fazendo piruetas que lhe agitavam os seios, contorciam os quadris e enrolavam, em espirais, as saias em torno do corpo esbelto, desnudando as pernas ágeis, toda ela palpitando, toda ela a se mexer em requebros sensuais de dança, com sapateados frenéticos, e vastas chibanças de triunfo, e rindo e cantando, numa alegria louca, a sua figurinha escanzelada de retorta providencial se destacava, evidente, no fundo iluminado pelo rubro disco da luz cheia, a surgir, lentamente, em magnífica ascensão.
CAPÍTULO XXI
Propagou-se, rapidamente, a notícia da prisão de Crapiúna, como verdadeiro autor do roubo do armazém da Comissão de socorros. Não havia dúvida. Um conjunto de provas esmagadoras: a bolsa reconhecida por todos os camaradas; as declarações de Belota que, insistindo em ignorar o fato, confessava causar-lhe admiração o dispor ele de tanto dinheiro para perder ao jogo grandes somas e fazer prodigalidades com raparigas e pagodes; o depoimento de Teresinha, confirmado, de uma irrefutabilidade minuciosa; o rascunho da carta ameaçadora, entregue por Luzia ao delegado, no dia da prisão de Alexandre, e os testemunhos de Chica Seridó e Gabrina, encerraram o soldado numa culpa evidente, indiscutível.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)AZEVEDO, Aluísio Azevedo. O touro negro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7415 . Acesso em: 25 mar. 2026.