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#Romances#Literatura Brasileira

O Livro de uma Sogra

Por Aluísio Azevedo (1895)

Convém notar que Leandro, depois que aceitara, resmungando, a minha ditadura de sogra intransigente, começou a ter impertinências e rabugices de uma verdadeira criança. Ia ao ponto de fazer manha, para que a mulher o consolasse com carinhos e se fizesse zangada, de mentira, contra mim, fingindo-se revoltada e afetando indignação nas suas palavras, como a ama que, para engodar o bebê, diz injúrias à cadeira em que ele por acaso deu uma pancada com o corpo.

Nestas coisas de dentro de casa, no segredo do cofre doméstico, o marido quase sempre é muito mais pueril e piegas que a mulher. Esta só aparenta infantilidade na rua ou na exibição social, para se fazer inocente e cândida, porque assim dela exige o público; e aquele, para o efeito contrário, é aí que sustenta, ou simplesmente afeta, a rija linha do seu sexo forte. Da porta da rua para fora, ela é criança e ele é gente grande; mas, da porta da rua para dentro, é o homem quem dá a nota infantil, ao passo que a mulher em geral é quem garante a tranqüila seriedade do lar, com a sua moral e o seu bom senso prático, com a sua perspicácia e com a sua constância, resignação e força de paciência.

Receosa de que semelhantes pieguices em meu genro viessem a deprimir sobremaneira a ilusão do amor que minha filha consagrava, tratei em tempo de providenciar neste sentido, mas dei logo pouco depois pelo meu erro, percebendo que as mesmas pequenas separações por mim impostas aos dois, como preservativo contra o tédio, longe de extinguirem as infantilidades de Leandro, ainda mais lhes davam vida. E acabei por convencer-me de que o fato era natural e próprio do caráter mesmo do amor, e que por conseguinte nunca poderia ser ele desagradável à mulher amada.

Parece, à primeira vista, que o homem, quando se faz piegas e submisso ao lado de uma mulher, deve tornar-se ridículo aos olhos dela e pois incompatível com o seu amor; assim não acontece, porém, desde que tal pieguice e tal humilhação sejam praticadas só e exclusivamente com essa mulher e rigorosamente escondidas a todos os mais. E se esse homem, assim pueril e mimalho para com essa mulher amada, for opostamente para os outros, como muita vez sucede, um caráter enérgico e um espírito respeitável, então a coisa é completa no interesse do amor de ambos.

Está bem claro que tudo isso só se pode bem verificar quando o casal goza a felicidade de ter parentes mais velhos que o dominem, e contra os quais possa o esposo e a esposa queixarem-se entre si. Esta é uma das vantagens de ter sogra; enquanto o genro briga com a sobra não briga com a mulher; antes pelo contrário mais se chega para esta; e os frescos e surdos laços da conspiração que os reúne e religa, conseguem em muitos e muitos casos o que os afrouxados laços do instinto sexual já não podiam obter entre eles.

Bem diferente, pois, é no homem o seu modo de amar comparado com o modo de amar da mulher, como bem diferente são as manifestações do amor de cada um.

O homem tem o jogo franco no amor; a mulher tem o jogo encoberto. O homem, desde que ame deveras, não pode guardar segredos para a mulher amada; tem, por uma lei congênita à sua própria ternura, de abrir defronte dela o seu coração, de par em par, como uma carteira, que ele todavia para outros trouxesse avaramente oculta e bem fechada; tem de expor-lhe a alma toda nua, e nu todo o seu mais recôndito pensamento. Não lhe esconderá nada do que se passa dentro dele, cavando e desencerrando até às mais íntimas e fundas circunstâncias, ainda mesmo aquelas que possam ser deprimentes do seu caráter, nocivas ao seu amor, e até mesmo desagradáveis e humilhantes para a mulher que as ouve.

O homem, que ama sinceramente, começa logo por contar à sua amada todas as particularidades de sua vida, chegando sempre a ser ridículo pela insistência em despejar aos pés dela todo o seco e frio bagaço do seu passado. Não se esquece do menor episódio; diz-lhe tudo, tudo, tudo! E a mulher suporta isto a sorrir, e recolhe o inútil despejo com sua condescendência de que o homem não seria capaz para com ela.

Ao passo que a mulher, por maior amor que consagre a um homem, nunca lhe mostra a alma por inteiro, nunca lhe franqueia totalmente o coração e nunca lhe confia de todo, nas suas confidências mais íntimas, o resíduo do seu passado. A mulher é amiga apaixonada do mistério, apesar de ser a eterna inimiga do segredo.

A mulher ama sempre de emboscada, armando laços e esparrelas; quer apanhar de surpresa o homem amado, sem que ele dê pela armadilha e possa a tempo defender-se. E daí o ela conhecer sempre tão profundamente o homem que ama e com quem vive; fato de grande desvantagem para ele, porque não há homem, por superior, capaz de resistir sem ridículo a semelhante análise; o que ainda constituí, a meu ver, mais um escolho para a convivência matrimonial.

(continua...)

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