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#Romances#Literatura Brasileira

O Coruja

Por Aluísio Azevedo (1895)

- Que! Pois seria crível? Ora, para que lhe havia de dar! exclamava a rir. Paixão aguda, com caráter pernicioso! Podre Leonília.

- Pobre, mas é de mim! emendou Teobaldo, muito preocupado.

- De ti? Tu o que és é um grande felizardo! disse o outro. As mulheres procuram-te e são capazes de ir ao inferno para te descobrirem!

- Não esta má fortuna! Dava-a de boa vontade a quem a quisesse!

- Deixa-te disso...

- Juro-te, meu amigo, que estou deveras aborrecido com tudo isto e que de bom grado abandonaria o Rio de Janeiro, se me achasse em condições de fazer uma viagem.

Depois de alguns outros copos, os dois rapazes ficaram mais expansivos. Aguiar confessou então, que a causa do seu mal-estar não era a tal noite mal passada, nem tampouco a suposta enxaqueca, mas o diabinho de uma prima que ele tinha, um diabinho de quinze anos, que ele adorava, sem conseguir arrancar-lhe um ar de sua graça.

- Não te corresponde?

- Qual! parece até embirrar comigo. Talvez me confunda com os tipos que a cobiçam por causa do dote...

- Ah! é rica!

- Tem cento e tantos contos... Ah! mas tu sabes perfeitamente que eu, só por parte de minha mãe, possuo mais do que isso, sem contar com a morte de meu avô.

Teobaldo soltou um suspiro.

- Já vês... disse o outro, que não é pelo dote!

- Está claro!

- Pois, apesar disso, não consigo agradá-la. Tenho empregado todos os meios; não penso rim outra coisa; persigo-a por toda a parte, e a malvadinha cada vez mais cruel! - Decerto; toda mulher foge enquanto a perseguem. Deixa-a. de mão; finge indiferença, e verás que ela se chega.

- Homem. e dizes bem. vou fazer-me indiferente.

Mas acrescentou logo depois:

- Qual! É impossível! Não tenho forcas para isso!... Será bastante vê-la, encontrá-la na rua, vara que eu perca de todo a cabeça e não saiba mais regular os meus atos. Fico louco!

- Oh! mas então a coisa é séria!

- Que queres tu? Adoro-a!

- Ela é bonita?

- Encantadora! Queres ver o retrato?

E, tirando do bolso uma fotografia.

- Olha.

- É linda. com efeito. Pois. filho, se estás tão apaixonado, é insistir, porque a água mole em pedra dura...

- Sim. mas já me vão faltando as esperanças de conseguir qualquer coisa... ri. sabes? Ela depois de amanhã faz anos; hesito ainda no presente que lhe devo dar...

- Não lhe dês nada.

- Impossível. Há uma festa em casa da família. O pai, o comendador Rodrigues que protege as minhas pretensões sobre a filha. convidou-me.

- Ah! O pai protege-te?

- Pai, parentes, amigos, todos me protegem, menos ela.

- É o diabo! Estás mal!

- Contudo, ainda não desanimei de todo e vou experimentar uma idéia, que tive agora, uma idéia para o dia de seus anos.

- Qual é?

- Uma idéia magnifica; só tu, porém, me podes ajudar.- Eu? De que modo?

- Vou levar-lhe de presente uma poesia... Que achas?

É um presente econômico.

- Mas eu não sei fazer versos; tu és quem os há de arranjar.

- Não seja essa a dificuldade. Podes contar com eles.

- Não. Há de ser já; ao contrário sei que não os pilho.

- Agora?

- Sim. Olha; ali tens uma mesa com papel e tinta; toma a fotografia para te inspirares, e mãos à obra!

- Ora, filho, mas isto é uma espiga.

- Anda! Escreve!

Teobaldo ainda recalcitrou, mas o outro insistiu por tal forma, que ele afinal não teve remédio senão fazer-lhe a vontade.

E, colocando o retrato defronte de si, compôs ao correr da pena meia dúzia de estrofes líricas, repassadas de arrebatamento amoroso; depois limou-as pelo melhor que pode e leu-as ao amigo.

- Que tal achas?

- Soberbo! com isto creio que avanço uma légua nas minhas pretensões.

E guardando os versos na algibeira:

- É verdade! Tu bem podias vir comigo à festa; é domingo. Hás de gostar.

- Pode ser... respondeu o outro

- Não; quero que venha com certeza; desejo apresentar-te a meu tio.

Teobaldo, havia muitos meses, não tinha ocasião de visitar famílias o que com a sua educação, fazia-lhe certa falta; não lhe foi por conseguinte de mau efeito o convite do amigo, e, logo que este pôs à disposição dele algum dinheiro, ficou entre os dois combinado que jantariam juntos no domingo em casa do Aguiar e seguiriam depois para o baile do comendador Rodrigues.

Depois foram daí ao teatro e à volta deste cearam no Mangini em companhia de uma francesa que se lhe agregara durante o espetáculo.

Eram duas horas da madrugada quando Teobaldo, um pouco eletrizado pelos seus vinhos italianos, recolhia-se afinal a casa, pé ante pé, para não acordar o Coruja. Mas, ao entrar no quarto, ficou surpreendido; alguém ressonava na sua cama.

Acendeu a vela; era Ernestina, que dormia o sono solto.

- Ora esta! pensou ele, tomando uma carta que acabava de descobrir sobre a mesa, e,ato contínuo, soprou o vela e tornou a sair, muito enfiado.

- Diabo! exclamou, fechando sobre si a porta da rua. Pois nem com a minha pobre cama posso contar?

Neste instante, Ernestina, que havia acordado, aparecia à janela, estremunhada e aflita.

- Que! pois não ficas em casa?! perguntou ela.

- Decerto! respondeu de baixo o moço com raiva.

- És um homem impossível!

E ouviram-se soluços.

(continua...)

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