Por Aluísio Azevedo (1882)
Gregório pediu, embalde, ainda mais alguns esclarecimentos da sua procedência, e desde então principiou a sentir uma vaga tristeza, produzida pela falta de alguma coisa que ele não conseguia determinar bem o que fosse. Era um desejar indeciso e duvidoso, do qual não conhecia a origem; uma espécie de saudade, sem motivo e por isso mesmo mais dolorosa. Sentia estranhas nostalgias de um mundo desconhecido, que seu coração sonhava e antevia por entre outras mentiras.
E foi neste melancólico pungir de mágoas indefinidas, que ele assistiu à morte de sua mãe adotiva. Sobreveio-lhe uma enorme crise nervosa, chorou extraordinariamente; chorou com a sofreguidão de quem precisa desabafar tristezas acumuladas no peito há muito tempo, e até chegara a gozar certo prazer voluptuoso com lhe correrem aquelas lágrimas dos olhos. Entretanto alguma coisa lhe dizia de dentro que toda essa dor e todo esse pranto não eram formados só pelo muito amor que ele tivesse a D. Florentina. Ele a estremecera muito, não havia dúvida, mas podia perfeitamente se conformar com a idéia da sua morte. O que o fazia sofrer tanto, o que o punha nervoso e triste daquele modo, era outra coisa, era a falta prematura da sua verdadeira mãe.
Foi com o espírito enfermado por estas apreensões que Gregório, uma tarde, em que estava assentado debaixo dos bambus da Avenida Estréia, viu subir vagarosamente a velha escadaria de pedra rajada que conduzia à casa do Papá Falcounet, uma senhora ainda moça, extremamente pálida e cheia de lânguidas tristezas.
Ia pelo braço de um velho, maior de sessenta anos, que parecia preocupado exclusivamente com ela. O velho desfazia-se em solicitudes e carinhos; a moça sorria às vezes para ele, apenas por condescender.
Era uma mulher de trinta anos talvez; esbelta, não muito magra, fisionomia insinuante; olhos volutuosos, úmidos, de um brilho singular, cabelos negros, brilhantes e volumosos, dentes claros, boca bem talhada, mas ligeiramente constrangida por um desdenhoso gesto de indiferença. Ao vê-la de relance, toda envolvida no seu longo paletó de casimira alvacenta, sem jóias no pescoço e nas orelhas, com o rosto nublado na penumbra do seu largo chapéu de palha, com o seu triste caminhar de convalescente, o seu descair de cabeça, as suas mãos cor-deneve, como que esquecidas e sem movimento, sentia-se a gente atrair para ela por uma plácida simpatia compassiva. A expressão resignada de seus olhos, aliás talhados para os segredos da ternura, o melancólico sorrir dos seus lábios, que entretanto pareciam feitos somente para executar a música ideal dos beijos, o seu ar abatido e fraco, a sua respiração quebrada, a sua voz suplicante e humilde; tudo que respirava dela penetrava os sentidos com a volutuosa impressão que nos produzem os perfumes da igreja, os sons plangentes do órgão, e os místicos arroubos religiosos.
A tarde ia já descaindo no crepúsculo. O sol havia mergulhado na fímbria vulcânica do horizonte, mas toda a natureza ainda palpitava sob a sensação dos seus últimos beijos fecundos e ardentes. As aves recolhiam-se ao mistério dos seus ninhos, e do fundo sombrio dos arvoredos exalava-se o estridular monótono das cigarras, sobressaindo dentre os primeiros rumores da noite como um interminável gemido solto no espaço.
É essa a hora das profundas concentrações, dos êxtases volutuosos. Tudo parece que tem uma saudade a carpir; de cada moita de roseiras, de cada grupo de bambus, partem ternos suspiros e queixumes dolorosos. A natureza como que chora a partida do seu fogoso amante, que desapareceu nas dobras luminosas do ocidente. Tudo é viuvez! tudo é saudade!
E nessa hora, transitória, e dúbia, que nos é dado surpreender a natureza nos segredos do seu amor; é entre o último sorriso do sol e a primeira lágrima da noite, que podemos penetrar no fundo do coração de nossa mãe comum! Ela como que abre para chorar à vontade, e sente-se então o orvalho do seu pranto, e ouvemse os seus gemidos abafados.
Gregório deixava-se arrebatar por estes devaneios, quando contemplou o vulto melancólico, que subia lentamente a escadaria de pedra pelo braço do velho; e desde então aquela triste figura de mulher não lhe saiu mais da memória.
CAPÍTULO XVI
OLÍMPIA
Uma semana depois, Gregório havia já travado relações com os dois novos hóspedes e possuía alguns esclarecimentos a respeito deles, se bem que o velho, isto é, o comendador Ferreira, por índole natural se mostrasse com todos muito reservado.
A senhora que o acompanhava era sua filha; chamava-se Olímpia e vivia, havia já quatro anos, separada do marido, aquele mesmo sujeito, caixa da casa Paulo Cordeiro, que vimos queixar-se na secretaria de polícia, ao delegado Benevides, do roubo que acabava de sofrer o referido estabelecimento. Foi esse sujeito quem chamou sobre Gregório a atenção das autoridades policiais.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)AZEVEDO, Aluísio. Girândola de amores. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16531 . Acesso em: 15 mar. 2026.