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#Romances#Literatura Brasileira

Filomena Borges

Por Aluísio Azevedo (1884)

— Sim, visto que nas artes ou nas ciências já não poderás fazer nada. Agora é escolher uma causa política e caminhar desassombradamente!

— Uma causa?!

— Sim, uma idéia, um princípio patriótico, qualquer coisa que esteja articulada aos atuais interesses do Brasil! Descoberta a tua idéia, não tens mais que defende-la; então escreverás, escreverás sem cessar; publicarás tudo que te vier à cabeça a respeito de tua causa; darás por paus e por pedras; falarás de tudo e de todos, até que sejas um homem perfeitamente conhecido, e o imperador te chame para junto de seu trono. Uma vez ao lado de meu padrinho, só não obterás o que não quiseres. Entendes tu?

Borges apertou os beiços. E, sacudindo a cabeça:

— É difícil!

— Que difícil o que! retrucou a mulher. — Difícil era conquistar o meu coração e a minha confiança, e conquistaste-os! Não queiras parar em meio do caminho; conquista também o meu entusiasmo e a minha admiração. Faze-te grande! Faze-te célebre! coloca-te ao meu lado! Sobe à minha altura! acompanhame no vôo!

— Veremos, veremos... prometeu o marido vagamente. — Hei de fazer a diligência!

Se fosse coisa que estivesse em suas mãos, a mulher nem precisava pôr tanto na carta! Mas que diabo! Aquela história de descobrir uma causa para defender; o fato de ter de publicar artigos sobre artigos; falar de tudo e de todos; isso é que lhe fazia confusão e dava-lhe volta ao miolo; mas, enfim, estava disposto a empregar a diligência. — Já agora, seria o que Deus quisesse!...

E nessa disposição acompanhou de novo a mulher para o Rio de Janeiro.

CAPÍTULO XVIII

CELEBRIDADES

Filomena não se enganara quanto à previsão do entusiasmo que havia de causar no Rio de Janeiro. Bastou constar que vinha aí a famosa cancionista, tão apreciada de Paris, para que toda a cidade se mostrasse tomada de uma loucura instantânea.

E desde então até a sua chegada foi ela a ordem do dia; não se falava noutra coisa. Esperavam-se contando os minutos; um sussurro uníssono de elogios evolva-se da opinião pública, sem que ninguém pudesse explicar a causa de semelhante alacridade.

Afinal, chegou.

Que frenesi! Todos queriam ser o primeiro a vê-la. O cais Pharoux parecia diminuir sob a multidão que o coalhava. Viam-se enormes grupos, esparsos, por aqui e por ali, galgando a muralha, invadindo as lanchas e os escaleres. Nas ruas faziam-se comentários a respeito da baronesa de Itassu; os jornais pregavam na parede notícias a respeito dela; vendia-se o seu retrato em todas as proporções; inventavam-se biografias.

Uns afirmavam que Filomena Borges era um modelo de virtudes; outros que era uma grande velhaca. Este jurava que a vira já muito por baixo, num hotel; aquele dizia que ela fora sempre riquíssima, e que só trabalhava em público por amor à arte. Aqui afiançavam havê-la visto, em tal época dançar uma habanera em casa de tal figurão; logo, ali, negavam: — Que não! que essa Filomena era outra, falecida havia já coisa de cinco anos, e que esta, a nova, a do teatro, não tinha absolutamente nada de comum com a outra, com a tal Filomena, cujos bailes, por tão luxuosos e originais, ainda se conservavam na memória de toda a gente!

E as discussões reproduziam-se, cada qual mais disparatada.

Entretanto, no meio desse burburinho que se fazia no cais, dois homens, depois de se abalroarem, soltaram exclamações de reconhecimento.

— Olá! Você também por aqui, Sr. Barroso?... — É verdade. Como vai o amigo Guterres?

Guterres ia bem, muito agradecido, mas sempre apoquentado. O outro, ao contrário, dizia-se feliz. Graças a Deus continuava às mil maravilhas com a sua cara mulherzinha e com o seu pequerrucho. Ah! a mulher e o filho eram a sua preocupação, eram o seu enlevo!

— O senhor é quem goza esta vida! considerou o outro.

— É. Deus louvado não tenho de que me queixar!... sustentou o Barroso. Sou feliz, não nego! Coube-me por sorte uma esposa que é um anjo, um verdadeiro anjo de bondade! Também, meu amigo, olhe que lhe pago na mesma moeda... tratoa como vosmecê não imagina!

— Mas faço uma idéia! faço uma idéia!... respondeu o Guterres, cheio de acordo.

E mudando de tom e chegando-se mais perto do outro:

— Ora, diga-me cá uma coisa, seu Barroso; tire-me de uma dúvida: — Quem vem a ser esta Filomena Borges?... Dir-se-ia a mulher do João Touro!...

— Pelo menos, o nome é o mesmo e foi justamente essa dúvida o que me trouxe por cá!

— O nome e o título! acudiu o outro, que ela se anuncia como baronesa de Itassu. Afianço-lhe, porque vi!

— Então não é outra com certeza! disse o Barroso — e se duvido, quero que me rachem de meio a meio!

— Ora o diabo!

— Nem era de esperar outra coisa de semelhante doida! Uma sujeita toda cheia de caprichos e de fantasias!

— Mas, tornou o Guterres, como consente aquele homem que a mulher levante um espalhafato desta ordem?... Isto até faz desconfiar!

— Pois então você não sabe que o Borges sempre foi um barão pela mulher?... Ela faz dele o que bem entende!

— Sim, mas segundo me consta, o João Touro não saiu lá muito recheado aqui do Rio!... considerou o Guterres.

(continua...)

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