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#Romances#Literatura Brasileira

Casa de Pensão

Por Aluísio Azevedo (1884)

A casa de pensão era a Sexta que Lúcia percorria com o suposto marido. Apresentavam-se sempre como casados; ele muito tranqüilo de sua vida, feliz; ela inquieta, sôfrega pelo tal sujeito, que com tanto empenho procurava.

Quando constou a Lúcia que Amâncio era rico e atoleimado, uma nova esperança radiou-lhe no coração.

— É agora!... disse.

E preparou-se para o combate.

* * *

Foi por isso que o estudante recebeu , no dia seguinte ao baile do Melo, aquele ramilhete, tão falsamente atribuído a Hortênsia., e porque, uma semana depois, outro ramo, bastante parecido com o primeiro, se achava às onze horas da noite no do rapaz, sobre a cômoda.

— Olé!, disse ele.

E, satisfeito com a intriga, principiou a fazer conjeturas.

— De quem viriam aquelas flores!...Ah! exclamou, descobrindo um bilhetinho, escondido entre duas rosas.

E leu:

“Não saibam nunca espíritos indiferentes, nem mesmo tu, adorado fantasista, quem te envia essas pobres flores. Não o procures descobrir; deixa que o meu segredo viceje e cresça na tepidez do mistério, ‘semelhança das plantas melancólicas que reverdecem nas sombras ignoradas dos rochedos. Eu te amo!”

— Seria de Amélia, seria de Lúcia, ou seria de Hortênsia? De Nini é que não poderia ser, porque a desgraçada, com certeza, não sabia escrever coisas daquela ordem!

Não dormiu essa noite; as palavras do ramilhete voejavam-lhe dentro da cabeça, como um bando de mariposas.

— De quem seria?...De Amélia não, não era de supor; pois que a bonita menina, longe de o provocar, fugia sempre que ele tentava se abrir com ela em questões de amor; de Hortênsia também não, não era natural que fosse, porque, em tal caso, Mme. Brizard, ou qualquer outra pessoa de casa, teria visto o portador. Além disso, a mulher do Campos não seria capaz daquilo; estava caidinha — é certo! Mas não levaria a leviandade ao ponto de lhe escrever e enviar semelhante declaração. O que, porém, não sofria dúvida é que os ramos tinham a mesma procedência.

E Lúcia?...É verdade! E Lúcia? Com certeza não era de outra! Sim! Tudo estava a dizer que o tal bilhetinho saíra de suas mãos!...aquelas frases poéticas, aquele mistério, aquela franqueza de confessar o seu amor em duas palavras...Não tinha que ver! Era da mulher do Pereira!

E um palpite brutal, inadiável, substituiu logo a calma simpatia que lhe inspirara Lúcia.

Desde que se capacitou de que eram dela os ramilhetes, desejou-a com urgência; queria que ela surgisse ali, naquele mesmo instante, na silenciosa escuridão daquele quarto.

E voltava-se de um para outro lado da cama, sem conseguir pegar no sono.

Esperar até o dia seguinte o momento de estar com ela afigurava-se-lhe um sacrifício enorme, quase invencível. Como podia lá descansar, dormir, com semelhante preocupação a remexer-se-lhe por dentro, como um feto doido que lhe mordesse as entranhas?

Definitivamente não conseguia adormecer. Levantou-se, acendeu um cigarro, abriu a janela, e pôs-se a olhar para a lua que estava boa essa noite. Vieram-lhe logo as conjeturas sobre o como seria a situação, no caso que Lúcia aparecesse ali,

naquele instante ”Que sucederia?...Que fariam eles?...” Duas horas bateram na sala de jantar.

— Diabo! Resmungou Amâncio, sentindo arrepios por todo o corpo. — Desta forma perco a noite inteira, e amanhã estou impossibilitado de ir à academia!...

A idéia do estudo apresentava-se-lhe sempre com um sabor muito amargo de sacrifício. Lembrou-se, todavia, de aproveitar a insônia para correr uma vista de olhos pela lição; acendeu a vela, corajosamente, assentou-se à mesinha que havia no quarto e abriu um compêndio. Mas não conseguia prestar atenção à leitura; percorreu distraído duas ou três páginas e ficou a olhar a chama trêmula da vela, cada vez mais abstrato e mais febril.

Sentiu vontade de beber. — Se não estava enganado — a garrafa de conhaque ficara sobre o aparador, na varanda.

Ergueu-se, enfiou o sobretudo e saiu da alcova.

O sangue não lhe queria ficar quieto. A continuar daquele modo, o remédio que tinha era pôr-se ao fresco e vagar pelas ruas, até encontrar sossego.

O conhaque não estava no aparador. Amâncio, contrariado, desceu à chácara, e foi assentar-se a um banco de pedra. — Naquele momento comeria alguma coisa, se houvesse, pensou ele, resolvido a organizar no dia seguinte um bufete no seu próprio quarto.

A lua escondia-se agora entre nuvens; as árvores rumorejavam; tudo parecia concentrado e adormecido.

Debaixo viam-se as janelas dos quatro cômodos do segundo andar, que davam para a chácara. Lá estava o n.° 8, o 9 o 10 e o 11. Começou a pensar nos hóspedes daqueles quartos: o 11 era do tal Correia o médico que só aparecia ali de quando em quando, “para fazer uns trabalhos que os filhos não lhe permitiam em casa da família”; o 10 era do gentleman — Bom maçante! Amâncio lembrou-se de que lhe prometera acompanhá-lo uma qualquer noite ao Passeio Público. — Havia de ir, disseram-lhe que às vezes se encontravam aí bem boas coisas!...

(continua...)

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