Letras+ | Letródromo | Letropédia | LiRA | PALCO | UnDF



Compartilhar Reportar
#Romances#Literatura Brasileira

A Mortalha de Alzira

Por Aluísio Azevedo (1891)

Depois aconselhou-a a que procurasse, antes de entrar na prática da piedade, exercer sinceramente a caridade, como um salutar curso preparatório e caminho mais curto e mais seguro para aquela.

— A piedade, dizia ele, é flor mimosa e exigente; só pode ser exercida com bom proveito, quando o coração de quem a pratica se acha em absoluto estado de paz, e quando se sente feliz e satisfeito consigo mesmo. Sem a inteira harmonia de todos os atos e de todas as intenções, ninguém pode, minha irmã, ser piedoso e justo. A piedade é o perfume da moral religiosa, é o lírio branco e místico do amor pelos seus semelhantes. Sede virtuosa convosco mesma e sede boa para todos sem distinção de ninguém, que a piedade derivará dos vossos atos, como a paz deriva da consciência reta e cônscia do cumprimento dos seus deveres. Ah! se não fora esse inquebrantável apoio, como seria eu o mais desgraçado dos homens! E, no entanto... não sou dos mais criminosos...

Ela perguntou por onde devia principiar a exercer a caridade.

— Não poderia ninguém desejar melhor ocasião, nem melhor lugar do que este, respondeu Ângelo. Monteli presentemente é um vale de lágrimas, que clamam socorro. Ide ter com os miseráveis que não têm quem lhes leve aos lábios o crucifixo na hora da morte, ide ter com os órfãos sem regaço que os acolha, e com as donzelas sem defesa e sem forças para guardar a sua virgindade. Socorrei-os a todos, socorrei os desgraçados, indeterminadamente, que, entre os vossos favorecidos, será a vossa própria alma a primeira e mais socorrida pela vossa caridade!

E o presbítero foi em pessoa ensinar-lhe os frios caminhos do desalento e da fome, e conduziu pela mão aquela arrependida ao lugar do sacrifício, da humildade e do verdadeiro amor, isto é, à cabeceira dos que gemiam na miséria e no abandono.

A viúva aprendeu o caminho que lhe ensinara o presbítero. Apaixonou-se pelo bem, dedicou-se de corpo e alma à mais praticante e religiosa caridade e, dentro de muito pouco tempo, oferecia com as suas ações belíssima exemplo de moral e virtude.

E todos começaram a respeitá-la.

Ângelo, encantado com tão completa transformação, dedicava-lhe já uma estima sem limites, e muitas vezes a acompanhava em suas piedosas romarias à casa dos pobres mais remotos.

Mas um dia, dois meses depois que a viúva começara a sua reabilitação, um fato, que precedia de época anterior, veio enchê-la de infinita tristeza e colocá-la no mais vivo embaraço.

Sentia-se grávida.

O último cúmplice de seus passados desvarios sensuais, e a quem ela devia agora aquela dolorosa situação, era um pobre diabo de um boêmio, rico e libertino, que um belo dia lhe fugiu dos braços e nunca mais lhe deu notícias suas.

Ângelo, ao ouvir-lhe a confissão, não teve um gesto de censura, nem de repugnância; era antes a compaixão o que se revelava na sua fisionomia.

— Resigne-se... disse-lhe ele tranqüilamente; e seja boa mãe de seu filho. Não o desampare! Oh! por cousa nenhuma desta vida o desampare! sofra com energia as conseqüências do seu erro, aceite as represálias sociais que daí procedam, como elementos novos de sacrifício, e continue na obra da sua reabilitação.

E não alterou em nada a estima e o respeito que lhe votava; ao contrário, depois que a infeliz sentia crescer o fruto da sua culpa, Ângelo parecia mais compassivo e mais atencioso para com ela. Ia vê-la, dava-lhe notícias dos seus pobres, encarregava-se de a estes levar socorros em seu nome e, quando orava, pedia a Deus que poupasse à mísera os dissabores que ainda lhe reservava.

Foi naquela célebre noite da tempestade, em que Salomé o esperava com impaciência, que a viúva deu à luz o filho.

Ângelo veio então da casa dela, supondo-a livre de perigo; mas agora, justamente nos últimos dias em que o pároco era vítima dos sonhos com Alzira, a parturiente fora acometida de febre e achava-se em risco de vida.

O fato, logo que transpirou, tornou-se escandaloso. Não se falou noutra cousa em Monteli durante esses dias.

A viúva, depois de uma noite de delírio, em que repetia sem cessar o nome do presbítero, faleceu nos braços deste.

Outros padres estavam presentes e cochichavam à socapa, felizes por terem afinal descoberto bom pasto para a sua campanha de difamação. Ângelo, de todo desprevenido contra o mal que pudessem julgar dele, dava ampla expansão às lágrimas que a morta lhe merecia e rezava de joelhos ao lado do cadáver.

Depois do enterro, o presbítero pensou no pequenito, que assim tão tristemente se orfanava logo ao entrar no mundo, e resolveu, visto que a falecida não deixava parentes, carregar com ele para a casa de uma família pobre, que se quisesse encarregar da sua criação.

Imagine-se o que não fizeram os seus adversários com todo este, combustível para a intriga.

Por tal modo tramaram e conspiraram contra Ângelo, que o público começou a prevenir-se contra ele, e afinal, quando depois viam atravessar lentamente pela estrada o seu triste vulto contemplativo e enfermo, segredavam já em voz brejeira:

(continua...)

« Primeiro‹ Anterior...4849505152...Próximo ›Último »
Baixar texto completo (.txt)

← Voltar← AnteriorPróximo →