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#Romances#Literatura Brasileira

A Condessa Vésper

Por Aluísio Azevedo (1897)

Às sete horas da noite veio o jantar que Melo encomendara a um hotel, e os dois rapazes, à luz do gás, comeram e beberam intimamente, como se foram velhos camaradas.

Gabriel tornava­se expansivo, palrava com entusiasmo da sua amante; mas pedia reserva ao outro. Era necessário que não se falasse nisso por aí!...

Melo prometia e mostrava­se interessado, como se se tratasse da sua própria felicidade.

Ah! ele haveria de aparecer... Não! que umas certas pândegas queria ele mesmo organizar!

E, todo cheio de intenções, de projetos, de planos de prazer, falava de cousas ruidosas, alegres, retumbantes de riso e champanha. Lembrava no gênero ceias esplêndidas, de grandes orgias, de cuja iniciativa lhe cabia a glória, e citava, com assombro, nomes de famosas mulheres e libertinos célebres do Rio de Janeiro.

Três dias depois, dirigia Gabriel à Ambrosina um bilhete, declarando:

"Está tudo pronto; só falta a tua presença".

E por galanteria, escreveu embaixo: — "Amo­te! Vem!"

XXI

ESPÓLIO DO COMENDADOR

Genoveva, no outro dia, deu por falta da filha.

Ambrosina deixara sobre a cama um cartão seu com as seguintes palavras:

"Se me desejar ver, pode procurar­me nas Laranjeiras, rua tal, n. tal". Dizia o número da casa e o nome da rua.

A pobre mãe esteve por perder a cabeça. Pois seria concebível que Ambrosina lhe fugisse, daquela forma, de casa?!...

Vestiu­se, saiu, tomou um tilburi, e deu ao cocheiro o número indicado.

Veio abrir uma francesa:

— Voulez­vous parler à madame? perguntou esta, Genoveva abaixou os olhos e disse:

— Quero falar à minha filha...

A francesa retirou­se, e voltou logo para abrir a sala.

A viúva do comendador sentiu­se constrangida em meio da opulência arrebicada e impudica daquela instalação; tapetes, móveis, quadros, tinha tudo um certo caráter leviano, certo ar de vida de atriz moça e bonita, que tresandava a escândalo.

Daí a pouco apareceu Ambrosina. Vinha um tanto abatida, porém de bom humor.

— Então o que quer dizer tudo isto?! perguntou­lhe a mãe.

— O que vê!...

— Mas com quem moras aqui?

— Com Gabriel.

— Teu amante!...

— Sim, porque não pode ser meu marido.

— E por que então não te casaste com ele?

— Sei cá! porque me casei com outro! Sabia lá que ali estava um doido furioso?...

— E este rapaz tenciona acompanhar­te sempre?

— Ainda não pensei nisso.

— E se ele te abandonar?

— Que abandone!

— E sabes tu o que isso será?

— Perfeitamente, e não falemos mais em tal. A "senhora ponha­se à vontade; dê­me a sua capa e o seu chapéu. Fica conosco para o almoço, não?

— Não! não posso ficar; não desejo encarar com o teu amante...

— Ainda está dormindo.

Gabriel, com efeito, dormia, fatigado pela felicidade da noite. Fora uma singular noite de núpcias. Ambrosina era virgem, mas sabia já, por instinto, por índole, por inata perversão, todos os segredos do amor sensual. Entregou­se com arte, com talento. Ele, porém, amou­a com toda a dignidade de um noivo; amou­a convictamente, sentindo orgulho em possuí­la, cercando­a de ternuras respeitosas e de solicitudes de amigo.

Supunha­se o infeliz deveras amado e sentia­se pronto a depor nas mãos da amante todas as suas esperanças e todo o seu futuro.

— O Leonardo, calculava ele, mais cedo ou mais tarde, desaparece, e eu caso­me com Ambrosina. Ela será minha esposa, minha família, a mãe de meus filhos!

Foi com estas palavras, repetidas pela filha, que Genoveva serenou um pouco e prometeu, ao retirarse, freqüentar a casa de Gabriel.

Entretanto, a pobre mulher, tempo depois, curtia o tédio do seu isolamento a aviar uma costura que tinha em mão, quando a campainha do jardim deu sinal.

Foi ela mesma abrir. Era o Alfredo, o empregado público demitido.

Estava outro o diabo do homem. Desde que Gabriel o socorrera, e o sr. Windsor, a pedido do comendador, o empregara no seu escritório comercial, voltaram­lhe os antigos hábitos de ordem e de asseio. Já não era o mesmo Marmelada; vinha escanhoado, com a camisa irrepreensível, bota engraxada e a sobrecasaca limpa.

Genoveva recebeu­o com uma amabilidade triste e compungida. Depois das extremas palavras do comendador a respeito do pobre viúvo de Ana, ela o tratava com atenção quase religiosa, como quem cumpre um dever sagrado. Tinha­lhe estima e respeito, gostava de vê­lo com aquele ar austero e metódico, a falar pausadamente sobre assuntos sancionados pela moral pública.

— Sente­se para cá, senhor Alfredo. Aí corre muito vento; pode fazer­lhe mal... Dê­me o seu chapéu. Eu vou trazer­lhe uma xícara de café.

Alfredo agradecia, limpando com o lenço o suor da testa. Desculpava­se por estar dando incômodo, e queixava­se do calor.

— Ah! não se pode respirar! confirmava Genoveva, assentando­se defronte da visita.

E tomando uma posição mais descansada:

— Ora, até que finalmente o senhor Alfredo se lembrou de aparecer aos amigos!...

Ele estava sempre ocupado! O serviço do senhor Windsor não lhe deixava pôr pé em ramo verde; mas agora tratava­se de um negócio um tanto melindroso... Sim! a cousa era delicada! era!

Genoveva assustava­se.

(continua...)

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