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#Romances#Literatura Brasileira

O Matuto

Por Franklin Távora (1878)

Achavam-se entre os da Paraíba, não só Joaquim de Almeida, espirito por assim escrevermos, inspirador do capitão-mór João da Maia, mas também Pedro de Melo, um dos instrumentos da revolta sustentados pelo Almeida. Tendo esta por base, para tornar uniforme o movimento, dar Goiana como unida à Paraíba, veio desta Pedro de Melo eleito capitão-mór daquela. Feita a junção em Pedras-de-fogo, tomam posse com ele em Goiana os oficiais da nova câmara, distribuem-se lugares aos mais esforçados cabos da rebelião, constitui-se enfim o governo da vila independente do de Pernambuco. Pedro de Melo entra no exercício do seu lugar com toda a solenidade do estilo. Sai da igreja do Carmo para a casa da câmara debaixo do palio, acompanhado dos camaristas, tão legítimos como ele, e dos frades carmelitas, executores das ordens dos da recoleta do Recife. A vila, achando-se desguarnecida de força militar, visto que a que havia tinha ido atacar o rancho do Sipó, no pressuposto de surpreender aí o Tunda-Cumbe, viu-se obrigada a aceitar este desatino quase a portas fechadas. E o intruso e ilegítimo governo se consolidaria talvez, sustentado por Maia, se logo depois da sua posse, em 14 de julho, não tivesse chegado a guarnição incumbida da diligencia e ao mesmo tempo as forças legais mandadas de Olinda para impedir que seguissem os revoltosos e dissolver o governo intruso. Estas forças vinham comandadas pelo ajudante Bernardo de Alemão e Mendonça, o qual se unira com o capitão Bento Bezerra de Menezes, que comandava a companhia de Araripe, e com o ajudante Felipe Bandeira de Melo e os que com ele estavam na ilha de Itamaracá. Posto que não eram numerosos, tendo feito junção com a guarnição da vila, puderam por em violento e vergonhoso regresso todos os revoltosos Paraibanos.

No intuito de deixarem inteiramente serenados os espíritos dos pacíficos habitantes e restabelecida a ordem em Goiana, fixaram-se essas forças no engenho do capitão Bento Correa de Lima, que ficava à vista da vila, e onde estiveram por muitos dias.

O Tunda-Cumbe, sagaz e prevenido, tinha-se retirado com os seus ao valhacouto do Sipó, logo depois de constituído o governo que teve tão efêmera existência, o que não concorreu pouco para o aumento dos créditos da sua manha e penetração.

XVIII

Antes de chegar à Goiana, praticou em Pedras-de-fogo o bando que viera da Paraíba, capitaneado por Luiz Soares, uma infame tragédia.

Essa povoação, da qual, por efeito de nossa viciosa divisão territorial, uma parte pertence à província da Paraíba, e a outra parte a Pernambuco, já naquele tempo representava certo espírito de resistência ao elemento estrangeiro, que depois da referida tragédia se acentuou e manteve até bem pouco tempo, segundo direi.

A principal família de Pedras-de-fogo em 1711 não se caracterizava por clara linhagem nem por haveres, mas pelo numero de seus membros, pelo espirito de trabalho de cada um, pela harmonia que os trazia unidos uns aos outros, e pela valentia que de qualquer deles fazia um leão.

Manoel do O’, sujeito tirante a pardo, natural de Nossa-Senhora-do-ó fora ainda muito novo estabelecer-se com sua tenda de alfaiate em Pedras-de-fogo.

Esse lugar, que ainda hoje não é notável senão por sua grande feira de gados, a qual aí se faz semanalmente, por então começava apenas a povoar-se. poder-se-ia compor de quinze a vinte casinhas, em sua maior parte cobertas de palha.

O alfaiate casou-se com a filha de um mulato por nome José da Luz, que tinha na Rua-da-feira a casa de morada e defronte desta a tenda de ourives. A união foi fecunda, cada ano nascia a Manoel do Ó um filho; de tal sorte foram as coisas, que em 1710 a sua descendência se compunha de dez filhos e vinte e dois netos. Alguns destes já taludos.

Não havia nenhum que não tivesse seu meio de vida. Alguns não o tinham muito decente e legitimo; não há família numerosa em que se não aponte qualquer lepra. Em sua maioria, porém, eram os descendentes varões de Manoel do Ó de regular procedimento e muito benquistos no lugar.

Posto que, como meio de levantar a gentalha a seu favor, os mascates fizeram publicar que a sua causa era a da liberdade e da igualdade do povo contra a tirania constituída e os privilégios antigos da nobreza, meio a que deveram a maior parte dos auxílios dos naturais da terra, Manoel do Ó, que não era tolo, convidado por Maia a aderir aos motins, escusou-se, dizendo que nada tinha nem com os nobres, nem com os mascates, visto que era ele, como todos os seus, mecânico, plebeu e homem de cor.

(continua...)

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