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#Romances#Literatura Brasileira

O Garimpeiro

Por Bernardo Guimarães (1872)

- Desconfio que estão me preparando para ir mais depressa. Nestes dias, vendo que estava mesmo às portas da morte, disse a elas que tinha que fazer certas declarações e pedi-lhes que me chamassem um homem para escrever o que eu queria e algumas pessoas para testemunhas. . . Tempo perdido! . . . nunca mais acharam o tal homem. Por fim pedi que me chamassem um padre: o mesmo; nunca acharam padre para me confessar. Eu ia morrer sem confissão nas garras daquelas duas bruxas, Deus me perdoe! que estavam aflitas por me verem morto para me roubarem e deitarem meu corpo aos urubus. . . Mas nesta hora não devo lembrar-me das ofensas, senão para perdoar. Deus louvado! Vmcê. apareceu, e eu lhes perdôo de todo o coração.

- Ah! em que mãos estavas, meu pobre Simão! . . . mas a lavra, Simão? ainda não me disseste onde está a lavra? . . .

- Ah! . . . sim. . . a lavra é. . . ai! meu Deus! . . .

Deu um grito, estrebuchou, seus olhos se estalaram, escapou-lhe do peito um soluço rouquenho, e ficou imóvel.

- Simão! Simão! gritou Elias agitando-lhe o braço. Vendo porém que não dava indício algum de vida:

-morto! morto! exclamou com angústia, morto e levando consigo para a sepultura o segredo de minha felicidade!

Elias, tendo- o já por morto, já se dispunha a retirar-se e a ir dar ordens para o enterro de seu velho camarada, quando um fraco gemido veio anunciar-lhe que ele ainda não estava morto. O moribundo tinha feito apenas o primeiro termo, que durou cerca de dez minutos. Elias foi examina-lo, e viu que respirava, e começava a mover os olhos.

- Patrão? patrão! . . . que é dele? foram as primeiras palavras que proferiu com voz quase imperceptível. Ah! está aí! .

. . quase que não enxergo nada. . . A lavra é lá. . . rio abaixo. . . quase uma légua abaixo de Joaquim Antônio. . .

passando três córregos, o terceiro do lado de cá do rio. . . Há lá uma cruz de cedro que eu mesmo finquei. . . e cinco pedras grandes em cruz. . . e. . .

Não pôde dizer mais. . . Estas últimas palavras mesmo eram ditas com voz tão sumida, que Elias precisava quase encostar o ouvido à boca do moribundo para poder ouvi-las. De novo estalou os olhos, inteiriçou-se na cama, e exalou um suspiro convulsivo: era o derradeiro.

Elias cerrou-lhe os olhos, e, ajoelhando-se ao pé do mísero leito com piedoso recolhimento, rezou pela alma do finado. Depois deu ao céu fervorosas graças pelo inestimável e quase miraculoso benefício que acabava de fazer-lhe por intermédio de um velho e miserável camarada.

Fechou cuidadosamente as portas e janelas da casa, montou a cavalo e partiu a galope para o Comércio da Cachoeira a dar ordens para que se fizesse um enterro decente a seu fiel e infeliz camarada.

XVII – A GRINALDA E O TÚMULO

Desde pela manhã Lúcia esperava com a mais ansiosa impaciência a vinda de seu amante. Achava-se cada vez mais enleada em cruéis apuros, e todos os dias seu pai a apertava vivamente para que se decidisse a aceitar por marido o negociante que havia solicitado sua mão.

Bem via ela que o horizonte de novo se anuviava e que outra vez o céu ia lhe impor o cruel dever de imolar, desta vez irremissivelmente, o seu amor à felicidade de sua família. Mas desta vez sua alma, ou porque já estivesse cansada de tantos embates e prostrada pelo desalento, ou porque seu amor mais avivado pela presença de Elias e fortalecido pela esperança dominasse despoticamente em seu coração, já não sentia aquela coragem que a tinha sustentado a primeira vez em sua nobre dedicação.

-mas, refletia ela consigo, eu então era só. Não tinha notícias de Elias, que andava por longes terras; não podia saber se ainda amava-me e nem mesmo se era vivo ou morto; podia dispor livremente de meu destino. Mas, agora que ele se acha perto de mim, que sei que vive e vive só para amar-me, e tanto direito tem adquirido ao meu amor, posso eu, sem consulta-lo, sem dizer-lhe uma palavra, sacrificar o meu futuro, que é também o dele, a um pesar eterno? . . . oh! não! certo que não! . . . eu atraiçoaria o amor que me consagra e a confiança que em mim tem, e mereceria bem que de novo me desprezasse e amaldiçoasse.

Tranqüilizada um pouco por este subterfúgio que lhe sugeria a sua consciência de amante, Lúcia se escusava para com seu pai com algumas evasivas, procurando ganhar tempo até que tivesse ocasião de achar-se com Elias para de acordo com ele resolver o terrível dilema em que estava empenhado o futuro de ambos.

Mas o sol já descaía muito de meio- dia e Elias não se apresentava. A posição de Lúcia tornava-se cada vez mais triste e aflita e recresciam as instâncias, rogos e ameaças de seu pai, que nesse dia assentara de levar ao último extremo a resignada paciência e submissão de sua filha.

(continua...)

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