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#Romances#Literatura Brasileira

O Ermitão de Muquém

Por Bernardo Guimarães (1869)

Dizendo isto Itajiba furioso ia-se precipitar sobre Inimá; este porém com voz calma e firme o atalha:

— Acalma-te, Itajiba: estamos a sós, e sobra-nos o tempo. Entra nesta canoa, e vamos sós e bem longe daqui, seja onde for, tendo unicamente por testemunhas o céu, as florestas e este rio, decidir o nosso pleito.

Onde e como quiseres, contanto que esta noite mesmo decidamos a nossa sorte, diz Gonçalo com impaciência, e salta na canoa, que logo após vai vogando serena pelo Tocantins abaixo.

A noite já ia alta, sem luar, mas límpida e estrelada. Nenhum vento agitava o tope escuro dos arvoredos, que imóveis e silenciosos se miravam no espelho das águas ao longo de uma e outra margem, e o largo veio do rio serpeando majestoso e plácido por entre as selvas refletia no profundo regaço os mil fulgores do firmamento como vasta charpa azul matizada de luzentes pedrarias. Com o profundo silêncio e a paz solene e inalterável daquelas solidões formavam vivo contraste as cruéis e violentas tempestades que agitavam a alma dos dois miserandos rivais. Sombrios e taciturnos, sentados em face um do outro, Inimá à popa , e Itajiba à proa, abandonaram à mercê da torrente a canoa, que por largo tempo foi boiando sem remos serena e silenciosamente até sumir-se a grande distância das habitações dos índios. Ambos tinham tocado ao supremo grau do infortúnio; para ambos a existência se tinha tornado um flagelo contínuo, um tormento insuportável, e só viviam de ódio e desesperação. A ambos torturava igual ânsia de ao mesmo tempo esmagar o seu rival e de expirar a seus golpes: quereriam morrer estrafegando-se mutuamente em um abraço de panteras. Já largo tempo tinham vogado quedos e taciturnos à mercê das águas quando Inimá rompe o silêncio.

— Itajiba, a noite avança e se o sol ainda nos encontrar ambos vivos sobre a terra e em face um do outro, de pejo e horror pode voltar-nos o rosto e recuar a esconder-se de novo no seio do oriente. Cumpre que um de nós não veja mais a face do sol.

— Eu me coloquei à tua disposição, volve-lhe Itajiba levantando-se e empunhando as suas armas. Onde queres combater? Aqui mesmo dentro desta canoa, ou em terra?

— Onde quiseres.

— Pois bem; seja aqui mesmo: esta noite deve ser eterna para nós ambos. Inimá, tu me odeias, e tens razão, porque com minhas mãos arranquei sem piedade pela raiz todo esse teu futuro de glória e de amor com que desde a infância te embalavas. Eu te odeio, Inimá, e também com razão, porque de um só golpe vibrado nas trevas me precipitaste do fastígio do poder e da felicidade no abismo do opróbrio e da desesperação. A existência deve ser para nós ambos um odioso peso; devemos um ao outro nosso sangue: fácil e suave nos é agora pagar essa dívida sagrada. Combatamos pois aqui mesmo; porém de tal sorte, que nenhum de nós escape.

— Mas isso, Itajiba, não será talvez possível: de que modo o conseguiremos?

— Nada mais simples. Tu embeberás no teu arco a tua melhor flecha, e eu farei o mesmo; curvá-lo-ás com vigor e apontarás ao meu coração, eu farei outro tanto e apontarei ao teu; darei com o pé dois sinais; ao terceiro dispararemos a um tempo. Por este modo será impossível que ambos não sucumbamos, e eu morrerei satisfeito por ter-te arrancado a vida, e te perdoarei a morte que me dás pela vida odiosa de que me livras.

— Bem que eu quisera antes de expirar morder-te a carne e beber-te o sangue, aceito, Itajiba, aceito o combate tal qual propões.

Gonçalo propusera aquele estranho gênero de duelo, porque ansioso de pôr termo a uma existência que se lhe tornaria insuportável daquele dia em diante, receava que, como sempre lhe tinha sucedido, ainda desta vez a sorte o favorecesse dando-lhe uma completa vitória e prolongando-lhe uma vida que detestava.

Devia ser pavoroso de ver-se aquele estranho combate travado sobre as águas a horas mortas da noite em meio das solidões, tendo por arena uma estreita canoa, e por testemunhas as estrelas, que lhes prestavam escassa luz, e o rio, que lhes devia servir de sepultura. Quem por acaso visse da margem aqueles dois vultos sinistros a vinte passos apenas um do outro em temerosa atitude, com os membros esticados a encurvarem com furor o arco prestes e disparar, e projetando sombras colossais sobre o esteiro límpido das ondas, recuaria de horror cuidando ter visto os espectros da noite a combaterem por cima das águas.

Antes de pôr-se em atitude de combate, Gonçalo, que nos trances arriscados de sua vida nunca se esquecia de sua celeste protetora, beijou com fervorosa devoção a imagem da Santa Virgem, e disposto a morrer encomendou sua alma a Deus. Desta vez porém não se lembrou de tocar no talismã do cinturão, ou de propósito não o quis fazer, pois que deveras desejava morrer.

(continua...)

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