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#Romances#Literatura Brasileira

O Guarani

Por José de Alencar (1857)

Nunca se lembrara que esta afeição pudesse passar daquilo que era, e produzir outras emoções que não fossem o rubor e o sorriso; o exclusivismo do amor, a ambição de tornar seu e unicamente seu o objeto da paixão, acabava de ser-lhe revelado por sua prima. 

Ficou por muito tempo pensativa; consultou o seu coração e conheceu que não amava assim; nunca a afeição que tinha a Álvaro podia obrigá-la a odiar sua prima, a quem queria como irmã. 

Cecília não compreendia essa lata do amor com os outros sentimentos do coração, luta terrível em que quase sempre a paixão vitoriosa subjuga o dever, e a razão. Na sua ingênua simplicidade acreditava que podia ligar perfeitamente a veneração que tinha por seu pai, o respeito que votava à sua mãe, o afeto que sentia por Álvaro, o amor fraternal que consagrava a seu irmão e a Isabel, e a amizade que tinha a Peri. 

Estes sentimentos eram toda a sua vida; no meio deles sentia-se feliz; nada lhe faltava: também nada mais ambicionava. Enquanto pudesse beijar a mão de seu pai e de sua mãe, receber uma carícia de seu irmão e de sua prima, sorrir a seu cavalheiro e brincar com o seu escravo, a existência para ela seria de flores. 

Assustou-se pois com a necessidade de quebrar um dos fios de ouro que teciam os seus dias inocentes e felizes; sofreu com a idéia de ver em luta duas das afeições calmas e serenas de sua vida. 

Teria menos um encanto na sua vida, menos uma imagem nos seus sonhos, menos uma flor na sua alma; porém não faria a ninguém desgraçado, e sobretudo à sua prima Isabel, que às vezes se mostrava tão melancólica. 

Restavam-lhe suas outras afeições; com elas pensava Cecília que a existência ainda podia sorrir-lhe; não devia tornar-se egoísta. 

Para assim pensar era preciso ser uma menina pura e isenta como ela; era preciso ter o coração como recente botão, que ainda não começou a desatar-se com o primeiro raio do sol. 

Estes pensamentos adejavam ainda na mente de Cecília enquanto ela olhava pensativa o fosso, onde tinha caldo o objeto que viera modificar a sua existência. 

— Se eu pudesse obter essa prenda? dizia consigo. Mostraria a Isabel como eu a amo e quanto a desejo feliz. 

Vendo sua senhora olhar tristemente o fundo do precipício, Peri compreendeu parte do que passava no seu espírito; sem poder adivinhar como Cecília soubera que o objeto tinha caldo ali, percebeu que a moça sentia por isso um pesar. 

Nem tanto bastava para que o índio fizesse tudo a fim de trazer a alegria ao rostinho de Cecília; além de que já tinha prometido a Álvaro endireitar isto, como ele dizia na sua linguagem simples. 

Chegou-se ao fosso. 

Uma cortina de musgos e trepadeiras lastrando pelas bordas do profundo precipício cobria as fendas da pedra; por cima era um tapete de verde risonho sobre o qual adejavam as borboletas de cores vivas; embaixo uma cava cheia de limo onde a luz não penetrava. 

Às vezes ouviam-se partir do fundo do balseiro os silvos das serpentes, os pios tristes de algum pássaro, que magnetizado ia entregar-se à morte; ou o tanger de um pequeno chocalho sobre a pedra. 

Quando o sol estava a pino, como então, via-se entre a relva, sobre o cálice das campânulas roxas, os olhos verdes de alguma serpente, ou uma linda fita de escamas pretas e vermelhas enlaçando a haste de um arbusto. 

Peri pouco se importava com estes habitantes do fosso e com o acolhimento que lhe fariam na sua morada; o que o inquietava era o receio de que não tivesse luz bastante no fundo para descobrir o objeto que ia procurar. 

Cortou o galho de uma árvore, que pela sua propriedade, os colonizadores chamaram candeia; tirou o fogo, e começou a descer com o facho aceso. Foi só nessa ocasião que Cecília embebida nos seus pensamentos, viu defronte de sua janela o índio a descer pela encosta. 

A menina assustou-se; porque a presença de Peri lembrou-lhe de repente o que se passara pela manhã; era mais uma afeição perdida. 

Dois laços quebrados ao mesmo tempo, dois hábitos rompidos um sobre o outro, era muito; duas lágrimas correram pelas suas faces, como se cada uma fosse vertida pelas cordas do coração que acabavam de ser vibradas. 

— Peri! 

O índio levantou os olhos para ela. 

— Tu choras, senhora? disse ele estremecendo. 

A menina sorriu-lhe; mas com um sorriso tão triste que partia a alma. 

— Não chora, senhora, disse o índio suplicante; Peri vai te dar o que desejas. 

— O que eu desejo? 

— Sim; Peri sabe. 

A moça abanou a cabeça. 

— Está ali; e apontou para o fundo do precipício. 

— Quem te disse? perguntou a menina admirada. 

— Os olhos de Peri. 

— Tu viste? 

— Sim. 

O índio continuou a descer. 

— Que vais fazer? exclamou Cecília assustada. 

— Buscar o que é teu. 

— Meu!... murmurou melancolicamente. 

— Ele te deu.

— Ele quem?

— Álvaro. 

A moça corou; mas o susto reprimiu o pejo; abaixando os olhos sobre o precipício, tinha visto um réptil deslizando pela folhagem e ouvido o murmúrio confuso e sinistro que vinha do fundo do abismo. 

— Peri, disse empalidecendo, não desças; volta! 

— Não; Peri não volta sem trazer o que te fez chorar. 

(continua...)

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