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#Romances#Literatura Brasileira

Os Dois Amores

Por Joaquim Manuel de Macedo (1848)

– Porque suspeita que a pequena o ama, e não quer ter um rival tão perto dela.

– E a viúva?

– Negou-se a cumprir a exigência.

– E ele?...

– Declarou-lhe formalmente que se ela não a cumprisse, perdê-la-ia no conceito público.

– E finalmente...

– Separaram-se sem haver decidido coisa alguma.

– E o que concluis tu do que se passou?...

– Que dentro em pouco as portas do “Céu cor-de-rosa” serão fechadas ao moço pobre.

– E nada mais?...

– Concluo também que o outro sabe pelo menos metade do que nós sabemos.

– Ainda bem que ele sabe só metade; creio que não gostará quando vier a saber o resto.

– João, para mim é claro que a – décima segunda – existe em poder dele.

– É realmente a melhor maneira de explicar aquela misteriosa influência. – E tu, nada absolutamente tens conseguido?

– Nada.

– É pena; porque enfim, pode ser que essa arma com que ele joga, acabe por fazer muito mal ao nosso plano.

– Que queres?... tenho trabalhado muito; mas sempre em vão. Já corri e examinei um por um, todos os papéis da casa.

– E nada?...

– E nada; falta-me só a carteira velha do defunto.

– Quem guarda as chaves?..

– Ele, que de ninguém as confia.

– Diabo! é nessa: tem um segredo no fundo da primeira gaveta do lado esquerdo.

– Lembro-me bem.

– E então que fazes?...

– Que faço! o que tu farias: espero.

– Esperar é quase sempre o maior de todos os castigos.

– E que remédio, Rodrigues? a carteira está em seu quarto de dormir, e ele quando sai leva sempre a chave; parece que esconde ali um grande tesouro.

– Não se engana; mas hás de roubá-lo.

– Esperemos.

– Calaram-se por alguns momentos os dois velhos. Estiveram ambos pensando, e depois disse Rodrigues:

– Ora dize, João, não parecemos dois decididos inimigos do tal sujeito?

– Às vezes quer me parecer que sim: pelo menos praticamos como tais.

– Não... não... isso não: ouve; se fosse preciso, eu dera o resto de minha vida para fazê-lo verdadeiramente feliz.

– Às vezes quase que não merece nada. Foi, e será sempre desenfreado extravagante.

– O seu fundo porém é bom. Sucede de ordinário assim com todos os extravagantes.

– Pode ser que tenhas razão.

– Ultimamente não se tem portado tão loucamente, como dantes.

– Descansa para recomeçar.

– Basta. É tempo de nos irmos.

– Quando nos veremos outra vez?

– Amanhã não pode ser: há reunião extraordinária no “Céu cor-de-rosa”; faz anos a “Bela Órfã”.

– Seja depois de amanhã.

– Pois bem: depois de amanhã; adeus.

Separaram-se os dois velhos. João sumiu-se voltando o canto da rua da Ajuda. Rodrigues atravessou os mesmos largos e ruas por onde tinha vindo, e entrou no alpendre do “Céu cor-de-rosa”.

Jacó, desesperado e furioso por não ter podido conseguir apanhar uma única frase da longa conversação dos dois velhos, voltou para sua casa em um verdadeiro estado da ebulição.

– Então, exclamou Helena apenas o viu entrar; que foi fazer o coruja?...

– Encontrar-se na portaria do convento da Ajuda com outro coruja, como ele, e com quem falou mais de uma hora. – Sobre quê, meu caro Jacó?...

– São dois monstros, dois sicários, dois demônios...

– Então...

– Eu não pude ouvir nada; falaram em segredo; respondeu Jacó desatando profundíssimo suspiro.

Oh! malvados!... exclamou Helena.

E naquela noite os vizinhos de Jacó e de Helena foram mais que nunca vítimas da mordacidade, das calúnias desse par sem igual.

CAPÍTULO XVIII

A NOITE DE ANOS

ERA A NOITE dos anos da “Bela Órfã”; noite de festa no “Céu cor-de-rosa”, e que deveria ser de inocentes gozos para os numerosos convidados, que enchiam aquela feliz habitação.

Além da casa, que estava toda brilhante de luzes, o jardim tão querido de Celina achava-se também iluminado, e patente àqueles que quisessem aí passear.

Não havia certamente no “Céu cor-de-rosa” o luxo deslumbrante das festas dos milionários, que gastam; em compensação, porém, o bom gosto transpirava em tudo.

Mariana ostentava sua beleza tão especial, tão deslumbradora, tão perigosa.

Celina, que era como a princesa da festa, levava, sem querer, sem pensar, vantagem sobre a bela tia.

Uma simplicidade feiticeira presidira, como sempre, o seu toucador. Seus longos cabelos estavam atados com graça indizível, mas tão pouco trabalho pedia aquele penteado, que adivinhava-se para logo que era o resultado da destreza de suas mãozinhas; agradava ainda mais por isso. Um pouco para o lado esquerdo de sua cabeça, aparecia um botãozinho de rosa, como surgindo dentre as tranças de madeixas.

Seu vestido era o único que lhe convinha.

Uma virgem pede um vestido branco. A cor branca exprime a alvura de sua alma, a inocência de seu coração. Qualquer outro vestido assenta mal numa virgem.

Além disto, uns sapatinhos de cetim, e mais nada. Para que quer enfeites a formosa donzela?... para que, se a natureza se incumbe de enfeitá-la com os mais interessantes adornos?...

Tudo na “Bela Órfã” respirava encanto, graça, candura e inocência: era um anjo.

Não há sacrilégio nesta comparação.

Quando a mulher reúne às graças físicas, virtudes cristãs, pureza e bondade, pode por um homem ser comparada a uma santa ou a um anjo.

(continua...)

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