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#Romances#Literatura Brasileira

O Moço Loiro

Por Joaquim Manuel de Macedo (1845)

— Raquel... Raquel... vê como chega tanta gente... tu és louca, Raquel!...

— Sim... disse o moço; é a multidão que chega... a multidão que me pesa. Devo sair, minhas senhoras; agradeço a obsequiosa atenção com que fui ouvido: o sofrimento a merecia!... O moço, como para não ser conhecido, escondeu parte do rosto com o lenço e desapareceu no meio da multidão; Honorina e Raquel não o viram mais durante o resto do sarau. Aquele mancebo, cujo nome as duas moças ignoravam, mas que tinha uma figura nobre e simpática, e uma voz tão doce como comovida, deixou no espírito de ambas uma sensação serena e agradável.

O sarau terminou às duas horas da manhã.

XV

O bateleiro

Pouco antes das três horas da madrugada Hugo de Mendonça e sua bela filha desembarcavam de um carro no cais da Rua Fresca. A velha Ema não tinha podido consentir que a sua Honorina dormisse aquela só noite na corte; e como havia sua condescendência chegado ao ponto de revelar, embora a custo, que a menina se expusesse aos horríveis perigos de um sarau, força foi fazer-lhe a vontade também, voltando para junto dela logo depois de terminado aquele. Apenas chegados ao cais, um moço alto e asselvajado se chegou a Hugo. Apesar de ser noite, conhecia-se ao primeiro olhar que era homem de mar: calçava grossos sapatos, não trazia meias, suas calças eram de ganga azul, e já ruças de tão usadas que estavam, e, enfim, vestia um quimão de baeta preta. Tendo seu chapéu em uma mão e o cigarro na outra, ele falou a Hugo de Mendonça com essa voz áspera e grossa tão comum nos patrões de nossos barcos.

— Meu amo; meu pai, que tinha ficado de esperar por V. S.ª, lá se foi meter na cama com o maldito achaque de erisipela, que o persegue há vinte anos, de sorte que estou eu aqui, em lugar dele, às ordens de meu amo.

— Ser levado a Niterói pelo senhor ou por ele, disse Hugo, contanto que vamos lá ter com prontidão e salvamento é para mim indiferente.

— Lá isso não tem dúvida, meu amo; eu conheço a baía do Rio de Janeiro como as palmas de minhas mãos.

— Pois então, ao largo!...

O batel soltou-se e navegou para a jovem capital da província do Rio de Janeiro.

Honorina tinha encarado o patrão e examinava seus rudes trajos, sua cor vermelha e tostada e dois olhos vivos, e na verdade belos, cujas vistas, sem expressão sim, mas certamente brilhante, eram por desleixo do marinheiro meias nubladas pela enorme massa de longos e maleducados cabelos pretos, que lhe caíam toscamente sobre os olhos.

O exame da moça pareceu incomodar ao rude patrão, que começou por coçar com força as bastas e crescidas barbas, que lhe escondiam três partes do rosto (único ponto de contato, ou antes de semelhança que, no opinião de Honorina, se dava entre ele e alguns dos jovens da moda, com quem acabava de estar no sarau); mas como visse que nem assim a jovem arrancava os olhos de sobre ele:

— Juro, disse, que estou incomodando a senhora com o fumo do cigarro...

— Não, não, respondeu a moça, pode fumar: é verdade que me dou mal com o cheiro do fumo; mas agora o vento, que sopra, o leva para longe de nós.

— Como estava olhando para mim há muito tempo, eu pensei que era por isso... e, pelo sim pelo não, cigarro na água.

E atirou com o cigarro no mar. Os pretos que remavam começaram a conversar em seu selvagem idioma, e riam-se maliciosamente.

— Ó lá... bradou o patrão com voz estrepitosa, seja como for, quem manda aqui agora, sou eu... leva de risadas!

Sua voz áspera e rude tinha tomado um tom bravio; seu rosto exprimia algum sentimento mais forte do que o que nasce de uma contrariedade: em seus traços quase que transpirava a cólera.

Honorina teve receio desse homem, e arrependeu-se de haver olhado para ele.

— Perdoe-me, disse ela com voz trêmula, perdoe-me! quando eu olhava para o senhor, não o queria ofender!...

E olhou, como que implorando proteção para seu pai, que havia insensivelmente adormecido. Ela teve o pensamento de despertá-lo; porém sua mão, que para isso ia tocar nele, caiu-lhe de novo no colo, ao escutar outra vez a voz do marinheiro.

O receio... talvez o susto da bela passageira não tinha escapado aos olhos vivos e ardentes do jovem marítimo; seu rosto grosseiro se ameigou um pouco, como o leão que se curva apiedado diante da fraqueza e da inocência; ele abaixou, e fez mesmo por adoçar um tanto sua voz agreste e disse:

— Fui eu que ofendi a senhora com esta minha fala bruta; assustei-a; a senhora olhava para meu rosto e viu a cara de um bicho... depois ouviu minha voz, como o uivo de uma fera, e teve medo!... perdoe-me!... perdoe-me!... tirando disto, eu não sou mau.

— Senhor... eu não estou ofendida...

— Descanse... olhe seu pai como dorme; porque me parece que este homem é pai da senhora... durma também...

A moça obedeceu maquinalmente ao conselho do marinheiro; encostou o lindo braço todo nu na borda do batel, e, pousando sobre ele a cabeça, fechou os olhos.

(continua...)

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