Por Joaquim Manuel de Macedo (1878)
Em compensação Mme Joséphine foi grande coisa, e no seu tempo não houve modista que retalhasse mais fazendas e ganhasse mais dinheiro; e ela era mais do que intérprete fiel das modas de Paris, era a própria moda.
Raramente e só obrigada determinava ou ajustava o preço do vestido que devia fazer; com o seu português afrancesado costumava dizer: "Sou artista e ainda tenho de imaginar a minha obra: como hei de marcar o preço do vestido que vai sair das inspirações que eu tiver?..."
Não se resistia à modista que considerava o vestido que cortava e enfeitava como poema ou painel da sua tesoura.
A Rua do Ouvidor não pode esquecer e deve honrar a memória de Mme Joséphine, que foi matriarca das modistas francesas.
Se a Rua do Ouvidor quiser algum dia ter as suas armas, não pode adotar melhor emblema do que a Tesoura; mas precisamente a Tesoura de Mme Joséphine.
Rica e saudosa da França, a famosa modista depois de longos anos de trabalho e de economias deixou o Rio de Janeiro, e lá na pátria tomou o nome do marido, ficando por sua vez eclipsada, e perdendo a sua autonomia. Asseveram-me que em Paris Mme Joséphine acabou pobre e muito triste por história de eclipse.
Pouco adiante da casa n.º 89 temos que demorar-nos de novo, considerando a de n.º 95, placa, que é atualmente Depósito de Máquinas Americanas de Costura.
Por mais interessante que sejam as tais máquinas, a casa n.º 95 só me fará recordar a Loja de Flores de Mme Finot, uma outra das glórias passadas da Rua do Ouvidor.
Mme Finot (que por sinal era finíssima) floresceu (e não havia de florescer, sendo florista) ainda além do ano de 1850, tendo sido contemporânea, e no seu gênero igualadora da fama de Mme Joséphine.
Mme Finot, a sacerdotisa do seu templo de flora, fabricava e vendia flores, ramalhetes, capelas e outros tecidos e obras de flores artificiais; mas, servindo a encomendas feitas, compunha lindos e elegantes ramos de flores naturais, incumbindo-se de comprá-las quando isso lhe pediam e ganhando na incômoda comissão modestíssimo lucro de duzentos ou trezentos por cento.
Se ela era finíssima!
Em honra dos objetivos ninguém discutia o preço das flores naturais.
Entre os seus numerosos fregueses Mme Finot contava indefectivelmente no mês de dezembro com todos os jovens doutorandos da escola de Medicina, para os quais preparava muitas dezenas de ramos de 100 e 200 cravos naturais ornados de canotilhos, pois que então era de costume no ato solene do recebimento do grau oferecerem os novos doutores ramos de cravos aos lentes de sua predileção.
Este costume acabou, ou porque Mme Finot entendeu que eram de prata de lei os seus canotilhos, e rubis os cravos que enramava, ou porque alguns lentes da escola menos simpáticos acharam espinhos na festa de flores.
Em 1844, e ainda em 1845, Mme Finot não achou flores que lhe bastassem nos jardins da cidade, e fez de sua loja ativíssima casa de moeda, emitindo cravos, rosas, violetas, cravinas, etc.
Em 1843, estreara-se na cidade do Rio de Janeiro uma pobre companhia de ópera italiana, e nela a jovem cantarina, a Candiani, a quem faltava muito a arte, mas que positivamente possuía a voz mais doce e comovente que se tem ouvido no nosso teatro de canto.
A Candiani, que tinha açúcar nos gorgomilos, fez furor.
No ano seguinte, 1844, improvisaram em rival impossível da Candiani outra cantarina de nome Delmastro; rompeu a luta apaixonada entre Candianistas, quase todos, e Delmastristas em minoria furente.
Um dilúvio de flores em cada noite de ópera italiana marcava os triunfos da Candiani.
Mme Finot prelibava sempre o odorífico preço de cada um daqueles dilúvios.
O delírio era tanto que até deu-se a um jasmim proveniente da província do Pará, e então novíssimo na cidade do Rio de Janeiro, o nome de Candiani. Foi lembrança de estudantes, em gratidão aos quais a cantarina em uma das noites de ópera mostrou-se ao público entusiasmado com o jasmim no peito: façam idéia do palmejar e dos aplausos frenéticos que então houve!...
E quem mais Candianista se exaltava era Mme Finot, que, quase posso jurá-lo, nunca tinha ouvido, nem jamais ouviu cantar a Candiani.
Não sei, não posso dizer se foi quando começavam a chegar de França as flores artificiais do célebre Constantino que principiaram a murchar as da loja de Mme Finot, que foi aos poucos descendo do seu elevado e famoso pedestal.
Antes, porém, da época ou data da sua decadência, Mme Finot viu a sua loja amorosamente aristocratizada.
Avivarei recordação do que se passou em... não quero marcar o ano, foi depois de 1840; mas, lembrando fraqueza humana, não levarei minha indiscrição até o ponto de declinar grande nome histórico.
Dizem-me que Mme Finot fora bonita; mas no tempo em que pude e posso dar testemunho do que ela me pareceu devo crer que ela pertencia ao belo sexo, somente pelo fato de pertencer ao sexo feminino.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)MACEDO, Joaquim Manuel de. Memórias da Rua do Ouvidor. Rio de Janeiro: [s.n.], 1878. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7544 . Acesso em: 4 jan. 2026.