Por Lima Barreto (1922)
O violeiro virou-se para ele, olhou-o firme com seu olhar fosco e falou-lhe com energia e fogo nos olhos:
— Cala-te, miserável! Queres pôr tudo a perder...
Conquanto temesse as fúrias do seu companheiro e cúmplice, não lhe passava o terror de ser descoberto pela polícia. Deu em beber; Cassi vigiava-o com medo que ele "desse com a língua nos dentes". Não o deixava só, quando estava em "rodas".
Nos botequins, não entrava um freguês, que Arnaldo não examinasse meticulosamente, cautelosamente, com o rabo dos olhos. Às vezes, não se continha e apontava:
— Cassi, aquele é agente do décimo oitavo...
O modinheiro, em voz baixa, mas com autoridade, repreendia-o:
— Estás doido! Queres nos pôr no "x", pelo resto da vida.
No começo, Cassi teve medo que a embriaguez o fizesse denunciá-los; mas, bem cedo, percebeu que a sua bebedeira tomava uma feição choramingas, efusiva, dava para abraçar todos e, com voz de mágoa íntima, repetia de onde em onde, sem nada entender do que se dizia ao redor: "Eu não sou mau..." "Eu sou um bom rapaz..." "Nunca fiz mal a ninguém", etc.
Então, Zezé Mateus, também já muito bêbedo, derreado completamente na cadeira, com os olhos divergentes e vidrados, babando-se todo e gaguejando, retrucava: "Meu querido Arn... ar... ar... Arnaldo, você é uma... pomba sem... sem fel". Em seguida, depois de limpar a baba com o lenço: "Quem foi que... que disse que... você é... é mau?" E acrescentava: "Traga... Traga este su... su... sujeito aqui que... que eu parto a cara dele".
Arnaldo, por aí, levantava-se comovido e abraçava Zezé Mateus, que se mantinha na cadeira, e, com dificuldade, erguia os braços, a fim de cingir o camarada.
Repetiam daí a pouco a cena, com pequenas variantes, debaixo dos motejos forçados de Cassi, a quem tais espetáculos não deixavam de fazer mal. Os outros companheiros riam-se a bom rir, sem nada suspeitar.
Entretanto, o violeiro não se fiava muito que Arnaldo sempre procedesse assim. A embriaguez — ele sabia — é caprichosa, ora dá para isto, ora dá para aquilo, podia aparecer qualquer coisa a respeito do crime e era preciso que ele, Cassi, tomasse as suas precauções. A entrevista com Clara estava marcada para o fim da semana. Tinha de ir; tinha que dar fim "naquilo", que tanto trabalho lhe dera e estava dando. Antes de tudo, porém, era preciso estar preparado para o que desse e viesse. Não contava mais com a proteção; Barcelos não valia nada e só prestava pequenos serviços em vésperas de eleição. Quando elas estavam distantes, fiava com má cara um cálice de cachaça... Era preciso ter tudo pronto para fugir do Rio de Janeiro, ao primeiro sinal de alarme, tanto mais que sabia, por indiscrições de Meneses, que as ouvira na venda do "Seu" Nascimento, que o marido de Nair — aquela moça que ele desencaminhara e a mãe, por isso, se suicidara — estava disposto a persegui-lo, como já o perseguia, com os famosos cadernos, mas mais eficazmente, desde que se metesse em "alguma". Considerou bem que as coisas agora seriam mais difíceis; e as pedras que semeara no caminho, começavam a erguer-se para lapidá-lo.
Tomou a extrema resolução de vender os galos de briga. O dinheiro que apurasse, depositaria na Caixa Econômica, para tê-lo sempre à mão, quando fosse necessário fugir. A mãe, vendo carroças chegarem à porta e as gaiolas e capoeiras saírem, a fim de tomarem lugar nos transportes, foi indagar-lhe o que havia:
— Nada, mamãe. Vou para fora, trabalhar...
— Para onde, Cassi?
— Vou para Mato Grosso, empregar-me na construção de uma estrada de ferro.
— Como trabalhador de picareta, meu filho?
— Não, mamãe, vou ser chefe de turma e praticar nos instrumentos, até conseguir ser seccionista.
Dona Salustiana assim mesmo não ficou contente. Ela conhecia a ignorância do filho, a sua inferioridade mental e a sua incapacidade para aplicar-se a alguma coisa que demandasse o menor esforço intelectual; viu bem, portanto, que, numa construção de estrada de ferro, ele só podia ser simples trabalhador braçal, pegar na foice e roçar, no machado e derrubar, na picareta e cavar, mais nada! Voltou chorando para onde estavam as filhas:
— Você não sabe, Catarina? Você não sabe, Irene, de uma coisa? Ai! Meu Deus!
— Que é, mamãe? — perguntou Catarina.
— Que há, mamãe? — indagou Irene.
— Minhas filhas, vocês não sabem que desgraça para a família, Cassi...
— Que houve? — assustou-se Catarina.
— Cassi está doido e quer nos envergonhar a todos nós, o meu avô que foi cônsul da Inglaterra... Ah! Se ele ressuscitasse — que vexame não passaria!
— Que é que Cassi vai fazer? — fez Irene com calma.
— Vai ser trabalhador de enxada, numa estrada de ferro de Mato Grosso.
Irene, que era severa e nunca perdoaria ao irmão as maliciosas perguntas que as colegas da escola lhe faziam, vexando-a bastante, quando acontecia aparecer o nome dele nos jornais, nas suas habituais cavalarias — observou:
— Que tem isso, mamãe! Ele tem saúde, ao invés de andar por ai a fazer das suas, a nos envergonhar por toda a parte, é melhor que ele trabalhe para ver se toma caminho.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)BARRETO, Lima. Clara dos Anjos. Brasília, DF: Ministério da Educação, Domínio Público. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16815 . Acesso em: 29 abr. 2026.