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#Romances#Literatura Brasileira

O Missionário

Por Inglês de Sousa (1891)

Naquele dia padre Antônio de Morais não fora ouvir de confissão a velha Chica da Beira do Lago. Safra de casa, sem tomar refeição alguma, e como a Matriz lhe ficava em caminho, penetrara maquinalmente no templo. A igreja, toda caiada de branco, estava deserta e fresca. Os morcegos disputando entre si os vãos das telhas, chiavam batendo as asas, e as vespas cruzavam-se no ar, na faina de prover à subsistência da prole, zumbindo alegremente. O sol, entrando pelas janelas laterais, clareava os grandes panos de parede lisa, limpos das parasitas de outrora e curados das feridas que o tempo fizera no reboco; mas punha em evidência, a uma luz crua, as figuras grotescas de santos e demônios, que os quadros parietais ostentavam com uma abundância de cores vivas e de tintas espessas. Através do repintado dos madeiros e da caiação dos muros, a velhice prematura do edifício espiava o abandono da casa de Deus, como se pressentisse o relaxamento da fé entusiástica que a forçara a esconder-se aos olhares ingênuos do povo, cobrindo-se de camadas de tabatinga, oca e alvaiade. Naquela manhã de sol os retábulos grosseiros, as grades toscas, o confessionário repolido, o pavimento remendado com tijolos de fábrica e forma diferentes, os ornamentos do altar-mor, tinham um aspecto velho, gasto, de velhice disfarçada, de arrebiques inúteis. O púlpito parecia cansado de ter-se a pé, à espera do pregador ausente, manifestando o abandono em que o deixavam nas quebras e rupturas da crosta de óleo colorido com que lhe haviam vestido a nudez de velho cedro sujo. A pia batismal, esbeiçada e limosa, guardava semanas uma água grossa e turva, que ocasionava desastres sinistros de baratas afogadas e dramas obuscuros de lagartixas mortas. O assento do confessionário estava cheio de pó. Do teto pendiam já alguns longos filamentos indicando que as aranhas achavam-se a cômodo naquela grande casa e que a vassoura, outrora desapiedada, do terrível Macário, dormia agora escondida a um canto por trás do altar-mor. Mesmo à entrada da igreja um cão vadio e um cabrito vagabundo haviam profanado o asseio do ladrilho, depositando excrementos que pareciam da véspera. No altar do Senhor dos Passos, o santo mostrava-se mais velho e triste do que de costume; a amarelidão da face larga e chata exprimia um desejo ardente de livrar-se da cruz que embalde o Cirineu, teso e de má vontade, procurava sustentar com a mão espalmada e dura; e sobre o altar-mor a própria padroeira, imóvel no seu longo vestido azul-dourado, parecia ansiosa por tirar a coroa e largar o menino, a fim de descansar um bocado ao lado da serpente.

(continua...)

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