Por Domingos Olímpio (1903)
— Que quer você? – disse ele, apurado, riscando com proficiência grave, mapas e tabelas.
— Vim aqui dar parte... – respondeu, perturbada pela severidade do homem de má cara, muito barbada e muito fechada.
— Anda depressa, que estou muito ocupado. Comando o destacamento na ausência do tenente, que foi fazer uma diligência, e não tenho tempo para trelas.
Teresinha, muito sobressaltada, denunciou-lhe a cena do jogo em casa de Belota e a briga de Crapiúna com os paisanos.
— Bem desconfiava eu que aqueles malandros tinham casa de jogo na Gangorra – rebentou o sargento, com cólera, cheio de censura disciplinar – Deixa estar essa corja que os arranjarei... É só isso?
Logo que a moça começou a narrar o episódio de ter descoberto o dinheiro no quintalzinho do seu quarto, o sargento, em crescente interesse, largou a régua, tirou cautelosamente o tira-linhas da boca, onde o sustinha atravessado, e pejado de tinta, e cravou indagadores olhos na delatora.
— Como é isso? – inquiriu, com surpresa – Então aquele homem que está preso?...
— Inocente, meu senhor; limpo como saiu da barriga da mãe...
— Dele – atalhou, rapidamente, Carneviva, que não queria dúvidas – Veja o que está dizendo mulher...
— Vossa senhoria, se quiser, pode ver com os seus próprios olhos... Depois, eu não tenho necessidade de mentir...
— Lá isso é história. De enredos de mulheres estou farto. Vocês, quando têm raiva dos soldados inventam e mentem como deslambidas. Enfim, vou indagar o caso da jogatina. Oh! Cabecinha!...
— Pronto, seu cadete.
— Que é do Crapiúna?
— Está na guarda da cadeia.
— E o Belota?
— Também.
— Mande rendê-los e que venham já à minha presença.
Cabecinha partiu, e Teresinha fez um movimento para retirar-se e evitar a acareação com os soldados.
— Não senhora – ordenou Carneviva – Fique para deslindarmos já esse negócio.
— Poucos minutos decorreram. Crapiúna entrou primeiro, e não pôde disfarçar a surpresa de encontrar, na sala do sargento, a moça, transida de susto pelo vexame. Belota chegou, depois, com ares humildes, tímidos.
— Que história foi essa – perguntou-lhe Carneviva – do jogo em sua casa? Já lhe não havia dito que, à primeira denúncia, você, seu Belota, ajustava comigo novos e velhos?
— Saberá vossa senhoria – balbuciou Belota – que é menos verdade... Até tenho andado doente...
— Qual doente!... Você quando faz maroteira, dá-lhe logo na fraqueza...
— Por Deus, seu cadete...
— Vamos lá. Quero saber tudo... E, se mentir, arranco-lhe com a chibata, o coiro do lombo...
— Vossa senhoria me perdoe... Foi, foi... uma brincadeira... a... a leite de pato...
—Bom. E o senhor? – perguntou o sargento, voltando-se para Crapiúna, que dardejava sobre Teresinha, olhos ferozes.
— Eu não sei nada respondeu ele, secamente, e sem hesitação.
— Ah!... Então você não esteve jogando em casa de Belo a com os vagabundos Zoião, Candinho e Vicente da Henriqueta?
— Vossa senhoria não ande atrás de histórias desta mulher, que mente como uma cadela vadia.
— Então o senhor – atalhou Teresinha, pulando, irritada pela injúria – não esteve quase se pegando com os outros? Não foi aqui o seu Belota, quem apartou a briga!?... Não é verdade que, quando eles foram embora, saltou para o meu quintal paredes-meias?...
O sargento impôs-lhe silêncio, com um gesto rápido e enérgico. Crapiúna empalideceu, e Belota, espantado, sem atinar com a significação da palavra da moça, interrogava o camarada com o olhar.
— Vamos seu Belota – ordenou o sargento – Bote para fora o que sabe. Vamos que temos panos para mangas...
Belota, sempre cheio da intransigência das ameaças do sargento, acobardouse e contou o caso, amenizando-o com disparatadas justificativas. Fora uma brincadeira de amigo, uma coisa à-toa, que terminara num bate-boca.
— E aqui este mestre?
Crapiúna olhava, de soslaio, para Belota.
— Saberá vossa senhoria – respondeu este - que o seu Crapiúna não estava...
— Você está mentindo seu diabo...
— Quero dizer... sim senhor... Não estava não, senhor...
— Veja bem o que está dizendo.
— Não estava no... no... princípio: chegou; quase no fim... Mas, juro que não vi ele saltar o muro...
— Bom. Chegou no fim, heim!?
— É menos verdade – interrompeu Crapiúna, num ímpeto de audácia insolente – Este homem diz isto para se desenrascar.
— Não negue, seu Crapiúna - retorquiu Belota – O senhor estava. Eu, mesmo contra mim, falo a verdade como homem. Se porém, eu disser que vi você saltar o muro, minto porque deixei o senhor sozinho em minha casa, e fui ao quartel.
— E você, seu Crapiúna, o que foi fazer ao quintal vizinho?...
— Já disse a vossa senhoria que é mentira dessa língua danada.
— Também será mentira que tirou debaixo de um caixão, uma bolsa de coiro de onça?...
Crapiúna ficou lívido, e atirou, desesperadamente, um gesto de ameaça a Teresinha.
— A bolsa? – exclamou ele, maquinalmente, tomado de pasmo.
— Sim, senhor – afirmou o sargento, com ironia. – A bolsa onde guarda o seu dinheiro, a sua botija encantada.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)AZEVEDO, Aluísio Azevedo. O touro negro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7415 . Acesso em: 25 mar. 2026.