Por Aluísio Azevedo (1881)
Mal se serviram de café com leite e bolo de tapioca com manteiga, formou-se uma quadrilha. na qual o Casusa, de par com Eufrasinha, fez o que ele chamava “pintar o padre''' Ditado este que sobremaneira escandalizava o especialista das ladainhas. de cujos olhos partiam, por cima dos óculos, chispas repreensivas sobre aquele.
Este Frei Lamparinas era um homenzinho escorrido, feio, natural de Caxias. Não conseguira nunca ordenar-se em razão da sua extremada estupidez: soletrava ainda as ladainhas que havia vinte anos recitava; jamais entrara com o latim. Os rapazes do Liceu mexiam com ele e atiravam limões verdes por detrás do muro do convento do Carmo, quando o infeliz passava defronte Tinha uma biografia engraçada, cheia de disparates mas todos diziam que era bom de coração e não fazia mal a ninguém.
— O chorado! Venha o chorado! gritavam do fundo da varanda batendo palmas.
E a música, sem se fazer rogada gemeu a lânguida e sensual dança brasileira.
De pronto, Casusa e Sebastião pularam ao meio da sala e puseram-se a sapatear agilmente. com barulho. estalando os dedos e requebrando todo o corpo Em breve arrastaram o Serra, o Faisca e o Freitas: e as mocas. chamadas por aqueles, entraram na irresistível brincadeira. Elas rodavam na pontinha dos pés, o passo miudinho e ligeiro, os braços dobrados e a cabeça inclinada, ora para um lado, ora para outro, estalando a língua contra o céu da boca, numa volúpia original e graciosa.
Os velhos babavam-se.
— Quebra! berrava o Casusa entusiasmado. Quebra meu bem!
E regamboleava furiosamente a perna.
O chorado atingira afinal a sua fase de loucura. Os que não podiam dançar expectavam, acompanhando a música com movimentos de corpo inteiro e palmas cadenciado e espontâneas.
— Bravo! Assim, seu Casusa! — Picadinho! Picadinho!
De repente, ouviu-se um trambolhão e um grito: era o Faísca. que cedera a um “cambite” do Casusa, indo cair aos pés de Maria do Carmo Todos riram.
— Credo! gritou a velha Pois este homem não me queda agarrar a perna?...
Cruz capeta!
— Não aumente, minha senhora, foi no tornozelo...Este ossinho do pé!
— Mas eu tenho muita cócegas, e, depois do defunto Espigão, ninguém mais me tocou no corpo!
Daí a pouco, chamavam para o almoço, e o divertimento continuou sem interrupção.
No dia de São João nunca se abria o armazém de Manuel, e naquele ano a véspera caíra num domingo! “Eram dois dias cheios!” como dizia satisfeito o Vila Rica.
Desde a véspera que o Benedito, e mais uma preta, haviam seguido para o sítio, carregados de fogos e dos paramentos necessários para se armar o altar: na madrugada do dia foi a Brígida, em companhia de Mônica Lá estava D. Amância para tomar conta de tudo. Os empregados iriam também todos; não havia, por conseguinte, necessitado de ficar escravo nenhum em casa.
O quarto dos caixeiros tinha então um aspecto domingueiro: botas engraxadas sobre os baús; roupas de casimira cuidadosamente estendidas nas costas de cadeiras; camisas engomadas por aqui e por ali, a espera da serventia, e um cheiro ativo de extratos para o lenço. Os rapazes vestiam-se. Seriam, quando muito, oito horas da manhã.
Mas, apesar do aspecto festival dos colegas, Dias conservava-se em trajos menores, a varrer o soalho.
— Você não se apronta, seu Dias?... perguntou-lhe o Cordeiro, ocupado a enfiar um par de calcas cor de alecrim. Você não vem conosco à quinta? — Vão andando, que eu já vou.
Não trocaram mais palavra. Os três saíram, e o Dias, encostando no queixo o cabo da vassoura, ficou pensativo. Mal ouviu, porém, bater embaixo o trinco da porta da rua, atirou a vassoura para um canto e desceu cautelosamente à varanda.
A casa tinha a tranqüilidade saudosa de Um lugar abandonado. Só o sabiá chilreava na gaiola.
O caixeiro predileto de Manuel fechou à chave a cancela de madeira polida, que separava a varanda do corredor, e, depois de olhar em torno, seguiu para o quarto de Raimundo, faiscando, nem ele sabia bem o quê. Pôs-se a esquadrinhar o que lá havia, não com a curiosidade amorosa da primitiva bisbilhoteira, porém frio, calculado, com a prudência de quem sabe que está cometendo uma baixeza. E abria gavetas, lia os manuscritos que encontrava, revistava as algibeiras da roupa estendida no cabide, folheava os livros, examinando tudo, todos os cantinhos. Em Uma das malas encontrou um folheto de capa verde, guardou-o logo, depois de lhe ter lido o frontispício, e afinal, quando já nada mais tinha para dar fé, retirou-se sem deixar o menor vestígio do que fez. Daí seguiu para o aposento de Ana Rosa, mas teve logo uma contrariedade: a porta estava fechada; rebuscou a chave na varanda, pelos cantos, não a encontrou, e subiu então rapidamente ao segundo andar, donde trouxe um pedaço de cera, com que modelou a fechadura. Em seguida atirou-se para o quarto de Maria Bárbara, experimentou a porta; estava também fechada. Mas havia um postigo Dias espremeu-se por esse e conseguiu entrar.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)AZEVEDO, Aluísio Azevedo. O mulato. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16537 . Acesso em: 25 mar. 2026.