Por Aluísio Azevedo (1895)
- Malvado!
- Não acho! A senhora é infeliz porque me ama; não me amasse!
Ela então lançou-lhe os braços em volta do pescoço e abriu a dizer entre beijos:
- Não! não é possível que sejas tão mau! Sei que dizes tudo isso para me experimentar!
Amo-te, adoro-te! Estou disposta a afrontar tudo!
Teobaldo desembaraçou-se das mãos dela grosseiramente, foi buscar o chapéu, enterrou-o na cabeça e saiu, dando-se aos diabos.
A pobre rapariga, depois do esforço que fizera para dete-lo, deu ainda alguns passos, muito ofegante, até à porta e afinal caiu sem sentidos. Esta crise era promovida pelo despeito e em grande parte pela ausência do jantar.
Coruja, que no seu quarto aprontava com pressa um trabalho para o dia seguinte, ouviulhe o baque da queda e correu a socorre-la.
- Que significa isto? perguntou ele, erguendo-a do chão e indo depo-la sobre a cama de Teobaldo, que ficava na alcova próxima.
- Fugiu-me! disse a infeliz, abrindo os olhos e soluçando com mais ânsia; - fugiu-me, depois de dizer que não me amava e que nunca me amaria!
- Pois ele disse isso!... murmurou André, sem saber o que devia fazer, muito perturbado com aquelas lágrimas e com aquele desespero.
- É um ingrato! É um homem mau! exclamava ela nas curtas intermitências do choro. É um malvado.
- Veja se consegue ficar tranqüila... aconselhava o professor a acarinhá-la. Faça por isso...
E, com uma idéia:
- Mas, agora reparo, a senhora está aqui há um bom par de horas e naturalmente precisa comer. Vou arranjar-lhe qualquer coisa.
- Não se incomode.
- É que por essa forma a senhora ficará pior. Vamos, procure tranqüilizar-se enquanto lhe arranjo a ceia.
Ela aceitou afinal e o Coruja afastou-se.
No fim de um quarto de hora voltava ele com uma bandeja nos braços.
- Veja se consegue sempre meter alguma coisa no estômago, dizia a arranjar a mesa; eu lhe farei companhia. Vamos.
Ernestina arrastou-se ainda muito chorosa até à mesa e, entre suspiros, principiou a comer. O Coruja ao seu lado desfazia-se em solicitudes, sem aliás conseguir animá-la. - Oh! mas é que dói muito semelhante ingratidão! exclamava ela com a boca cheia. Um rapaz, por quem eu seria capaz de dar a vida, tratar-me deste modo, dizer-me cara a cara o que me disse e, afinal, sair como saiu, desprezando-me, nem que se eu fosse um cão tinhoso!
- É que ele estava hoje de mau humor, coitado! arriscou André. Há de ver que amanhã já a tratará de outro modo...
- Qual! amanhã fará pior; tola fui eu em mostrar-me apaixonada Ingrato!
O professor empregou ainda alguns esforços para tranqüilizá-la e depois confessou que estava muito atrapalhado de serviço e precisava continuá-lo.
- Não me posso descuidar um instante, acrescentou. É um trabalho com pressa. Olhe, a senhora fique a seu gosto, está em sua casa, se precisar de qualquer coisa é só chamar por mim. Com licença. Até logo.
E, enquanto ele se afastava, muito feio com o seu ar giguento e mal amanhado, Ernestina murmurava:
– Foi-se aquele ingrato e ainda por cima deixa-me aqui este maldito Coruja, que a gente só de olhar para ele parece que fica doente! Credo! Que estupor!
XIII
Teobaldo saiu de casa verdadeiramente aborrecido.
- Malditas fossem todas as mulheres! Maldito fosse ele, que não conseguia dar um passo sem tropeçar logo num rabo de saia! Arre! Era preciso despedir-se de Leonília por uma vez e fazer com todas as outras o que fizera com Ernestina! Esta com certeza estava mais que despachada!
E, assim considerando pelo caminho, principiou a passar uma revista mental aos seus amores.
- No fim de contas, pensava, só trouxera de tudo isso conseqüências ridículas ouperniciosas, que serviam apenas para lhe atrasar a vida e afastá-lo dos seus verdadeiros interesses. Ah! mas desta vez havia de tomar uma resolução, uma medida séria! Naquele andar não conseguiria nunca fazer carreira... A ter de ter amores, que fossem estes com mulheres de quem lhe viesse algum benefício real: mulheres que, lhe abrindo os braços, abrissem-lhe também as portas de um futuro garantido e cômodo. Estava disposto a amar, sim senhor, contanto que lhe viesse daí algum proveito imediato para as suas ambições.
Com estes cálculos chegava ao largo de S. Francisco quando o Aguiar lhe bateu no ombro. Virou-se, sem ter tempo de compor um sorriso amável.
- Oh! Estás com uma cara! disse-lhe aquele.
- Não é nada! Tédio.
- Eu também não me sinto de bom humor. Dormi mal A noite passada e tive enxaqueca durante todo o dia. Vou beber para ver se distrai; queres vir também? - Não, obrigado; estou incapaz de tudo.
- Anda daí.
- Está bom. Vamos lá.
E à mesa do botequim, defronte dos copos de cerveja:
- Mas, que diabo tens tu? perguntou Aguiar.
- Desanimado, filho, totalmente desanimado! Não imaginas a série de contrariedades que me sucedem todos os dias. Agora, para cúmulo de caiporismo, é o diabo da Leonília que entende perseguir-me de um modo atroz!
E contou minuciosamente o que ela fizera.
Aguiar abriu os olhos com exagero de espanto.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)AZEVEDO, Aluísio Azevedo. O coruja. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7406 . Acesso em: 18 mar. 2026.