Por Bernardo Guimarães (1883)
Entretanto o luxo e a opulencia continuavão a reinar na mesma escala no seio daquella familia com aprazimento do major e muito éspecial agrado de Moraes, cuja occupação dahi em diante cifrava-se em frequentar bailes e theatros, em alguns passeios com a familia, ou em brodios de estudantes, a cuja classe ainda se julgava filiado, e cujos habitos não tinha de todo perdido. Assim se passava o tempo, e entretanto a fortuna do major, que elle havia accumulado á custa de peniveis trabalhos durante uma longa vida de actividade e economia, lá se ia escoando de um modo rapido e assustador. Já alquebrado pelos annos o major não podia mais entregar-se á vida laboriosa e fragueira de outrora; sentia no entanto a necessidade sinão de augmentar, ao menos conservar e manter no mesmo estado per meio de alguma especulação vantajosa um patrimonio, de que dependia o futuro de sua descendencia e que seu genro, longe de fazer prosperar, só sabia dilapidar. Portanto para por um paradeiro ao desmantelamento de sua fortuna, lembrou-se de abrir no pavimento terreo da casa nobre, em que agora o encontramos com toda a familia, um vasto armazem de seccos e molhados, em que por cautéla figurava como socio de seu genro, em cuja gerencia não confiava muito.
Alli, à testa de seu estabelecimento, o velho major, que para o commercio tinha bastante tino e aptidão, podia tudo superintender, e vedar que o genro compromettesse por suas imprudencias os interesses da casa. Graças a esse expediente o major poude se abrigar de uma ruina inevitavel, e Moraes achou uma occupação digna e honesta, com a qual podia manter decentemente e mesmo assegurar o futuro da familia sem metter a mão no patrimonio do velho.
Passarão-se assim alguns annos de vida folgada e tranquilla, durante os quaes a prole de Moraes foi-se augmentando até a época a que somos chegados,
CAPITULO III
Ciumes.
A acquisição da linda escrava Rozaura foi um motivo de festa por muitos dias na familia do major. Era um mirno, que ha muito o avô desejava fazer à Estella, linda e interessante netinha, que era o seu idolo ; e para esse fim tinha dado amplas autorisações ao genro. O mimo excedeo a sua expectativa, e valia realmente um thesouro. Rozaura nos primeiros dias foi antes o enlevo e admiração da familia, do que a escrava da casa. Adelaide a tratava com carinho maternal ; Lucinda a rodeava de cuidados e procurava adivinhar-lhe os desejos ; as creanças não comião um doce, uma golodice qualquer, que não repartissem com ella; o major a chamava de minha tetéia, e o senhor Moraes ficava ás vezes a contemplal-a com ar tão terno e embevecido, que não deixava de causar displicencia e inquietação à Adelaide.
E Rozaura merecia bem essas contemplações e deferencias. Activa, intelligente et habilidosa, não se recusava a serviço algum. Na cozinha ajndava a tia Lucinda com tal geito e desembaraço, que fazia pasmar a velha preta. Ne sala engomava, cosia e bordava de modo que encantava a sua senhora. Aos trabalhos mais delicados, como aos mais rudes e fragueiros se offerecia e prestava não só com promptidão, como tambem com certo 'ar affectuoso, que fazia crer que tomava gosto em seu captiveiro. Tratava das creanças com tal amabilidade, geito e carinho, que parecia não uma rapariga de quatorze annos, mas uma provecta mãe de familia, Reunindo-se a estas qualidades adoraveis o porte e o rosto de uma donzella que poderia figurar em um salão aristocratico, póde-se fazer idea do thesouro inapreciavel, que graças ao dinheiro do major eàs diligencias de seu genro era hoje propriedade da casa.
Quando estava em companhia, Rozaura era sempre alegre, meiga e affavel ; mas Lucinda e mesmo Adelaide a tinhão sorprehendido a sós scismando tristemente, e ás vezes com as lagrimas nos olhos.
— Que tens, Rozaura, que estás ahi tão triste e amuada e quasi a chorar Q — perguntou-lhe uma vez Adelaide com ternura.
— Nada, minha sinhá , é porque estava mc lembrando de minha mãe, que já morreo.
— Ora ! não chores ; — replicou Adelaide pousando a mão sobre a linda cabecinha de Rozaura. Eu tambcm quasi não conheci mãe, e não estou chorando. Não chores mais não ; eu tambem sou tua mãe.
E com estas doces palavras a menina sc consolou e recobrou seu ar sereno e jovial.
Este estado de paz e bemaventurança domestica infelizmente não poude durar por muito tempo. A força de contemplar todos os dias as bellezas plasticas da formosa Rozaura, Moraes se foi deixando arrastar por uma paixão insensata e frenetica por ella.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)GUIMARÃES, Bernardo. Rozaura, a enjeitada. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=43488 . Acesso em: 28 fev. 2026.