Por Bernardo Guimarães (1865)
Sem que o acorde mais o rude acento
Das guerreiras inúbias : – nem nas sombras
Seminua, do bosque a ingênua filha
Na preguiçosa rede se embalança.
Calaram-se para sempre nessas grutas
Os proféticos cantos do piaga;
Nem mais o vale vê esses caudilhos,
Seus cocar na fronte balançando,
Por entre o fumo espesso das fogueiras,
Com sombrio lentor tecer, cantando,
Essas solenes e sinistras danças,
Que o festim da vingança precediam.....
Por esses ermos não vereis pirâmides
Nem mármores, nem bronzes, que assinalem
Nas eras do porvir feitos de glória;
Da natureza os filhos não sabiam
Aos céus erguer soberbos monumentos,
E nem perpetuar do bardo os cantos,
Que celebram façanhas do guerreiro,
– Esses fanais, que acende a mão do gênio,
E vão no mar infindo das idades
Alumiando as trevas do passado.
Seus insepultos ossos alvejando
Aqui e além nos solitários campos,
Rotos tacapes, ressequidos crânios,
Que estalam sob os pés de errante gado,
As tabas em ruína, e os mal extintos
Vestígios das ocaras, onde o sangue
Do vencido corria em largo jorro
Entre as pocemas de feroz vingança,
Eis as relíquias que recordam feitos
Do forte lidador da rude selva.
De virgem mata a sussurrante cúpula,
Ou gruta escura, disputada às feras,
Ou frágil taba, num momento erguida,
Desfeita no outro dia, eram bastantes
Para abrigar o filho do deserto;
No carcás bem provido repousavam
De todo o seu porvir as esperanças,
Que suas eram da floresta as aves,
E nem lhes nega o córrego do vale,
Límpido jorro que lhe estanque a sede.
No sol, fonte de luz e de beleza,
Viam seu Deus, prostrados o adoravam,
Na terra a mãe, que os nutre com seus frutos,
Sua única lei – na liberdade.
Oh! floresta, que é feito de teus filhos?
Esta mudez profunda dos desertos
Um crime – bem atroz! – nos denuncia.
O extermínio, o cativeiro, a morte
Para sempre varreu de sobre a terra
Essa mísera raça, – nem ficou-lhes
Um canto ao menos, onde em paz morressem!
Como cinza, que os euros arrebatam,
Se esvaeceram, – e do tempo a destra
Seus nomes mergulho no esquecimento.
Mas tu, ó musa, que piedosa choras,
Curvada sobre a urna do passado,
Tu, que jamais negaste ao infortúnio
Um canto expiatório, eia, consola
Do pobre Indiano os erradios manes,
E sobre a inglória cinza dos proscritos
Com teus cantos ao menos uma lágrima
Faze correr de compaixão tardia.
III
Ei-lo, que vem, de ferro e fogo armado,
Da destruição o gênio formidável,
Em sua fatal marcha devastando
O que de mais esplêndido e formoso
Alardeia no ermo a natureza;
Que nem somente o íncola das selvas
De seu furor foi vítima; – após ele
Rui também a cúpula virente,
Único abrigo seu, – sua riqueza.
Esta trêmula abóbada, que ruge
Por seculares troncos sustentada,
Este silêncio místico, estas sombras,
Que agora me derramam sobre a fronte
Suave inspiração, cismar saudoso,
Vão em breve morrer ; – lá vem o escravo,
Brandindo o ferro, que dá morte às selvas,
E – afanoso – põe peito à ímpia obra: –
Já o tronco, que os séculos criaram,
Ao som dos cantos do africano adusto
Geme aos sonoros, compassados golpes,
Que vão nas brenhas ressoando ao longe;
Soa o último golpe, – range o tronco,
O tope excelso trêmulo vacila,
E desabando com gemido horrendo
Restruge qual trovão de monte em monte
Nas solidões profundas reboando.
Assim vão baqueando uma após outra
Da floresta as colunas venerandas;
E todas essas cúpulas imensas,
Que inça há pouco no céu balanceando,
A sanha dos tufões desafiavam,
Aí jazem, como ossadas de gigantes,
Que num dia de cólera prostrara
O raio do Senhor.
Oh! mais terrível
Que o raio, que o dilúvio, o rubro incêndio
Vem consumar essa obra deplorável.....
Qual hidra formidável, no ar exalça
A crista sanguinosa, sacudindo
Com medonho rugido as ígneas asas,
E negros turbilhões de fumo ardente
Das abrasadas fauces vomitando,
Em hórrido negrume os céus sepulta.....
Estala, ruge, silva, devorando
Da floresta os cadáveres gigantes;
Voam sem tino as aves assustadas
No ar soltando pios lamentosos,
E as feras, em tropel tímidas correm,
A se embrenhar no fundo dos desertos,
Onde vão demandar nova guarida.....
Tudo é cinza e ruína: – adeus, ó sombra,
Adeus, murmúrio, que embalou meus sonhos,
Adeus, sonoro frêmito das auras,
Sussurros, queixas, suspirosos ecos,
Da solidão misterioso encanto!
Adeus! – Em vão a pomba esvoaçando
Procura um ramo em que fabrique o ninho;
Em vão suspira o viajor cansado
Por uma sombra, onde repouse os membros
Repassados do ardor do sol a pino!
Tudo é cinza e ruína, – tudo é morto!!
E tu, ó musa, que amas o deserto
E das caladas sombras o mistério,
Que folgas de embalar-te aos sons aéreos
D’almas canções, que a solidão murmura,
Que amas a criação, qual Deus formou-a,
– Sublime e bela – vem sentar-te, ó musa,
Sobre estas ruínas, vem chorar sobre elas.
Chora com a avezinha, a quem roubaram
O ninho seu querido, e com teus cantos
Procura adormecer o férreo braço
Do impróvido colono, que semeia
Somente estragos neste chão fecundo!
IV
Mas, não te queixes, musa; – são decretos
Da eterna providência irrevogáveis!
Deixa passar destruição e morte
Nessas risonhas e fecundas plagas,
Como charrua, que revolve a terra,
Onde terminam do porvir os frutos.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)GUIMARÃES, Bernardo. Canto da solidão. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=17319 . Acesso em: 23 fev. 2026.