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#Comédias#Literatura Brasileira

Quem casa, quer casa

Por Martins Pena (1845)

EDUARDO – Vem dar-me o hábito! (Arranca Olaia com violência de junto de Fabiana e a vai levando para dentro, e sai.) 

FABIANA, vendo Sabino fechar Paulina e sair – É um inferno! É um inferno! 

SABINO, seguindo-a – Minha mãe! (Fabiana segue para dentro.)

NICOLAU, entrando – O que é isto? 

FABIANA, sem atender, seguindo – É um inferno! É um inferno! 

NICOLAU, seguindo-a – Senhora! (Vão-se.) 

 

CENA XI

SABINO e depois PAULINA. 

 

SABINO – Isto assim não pode ser! Não me serve; já não posso com minha mulher! 

PAULINA, entrando pela segunda porta, esquerda – Onde está esta velha? (Sabino, vendo a mulher, corre para o quarto e fecha a porta. Paulina:) Ah, corres? (Segue-o e esbarra-se na porta que ele fecha.) Deixa estar, que temos também que conversar... Pensam que hão de me levar assim? Enganam-se. Por bons modos, tudo... Mas à força... Ah, será bonito quem o conseguir! 

OLAIA entra chorando – Vou contar a minha mãe! 

PAULINA – Psiu! Venha cá; também temos contas que justar. (Olaia vai seguindo para a segunda porta da direita. Paulina:) Fale quando se lhe fala, não seja malcriada! 

OLAIA, na porta, voltando-se – Malcriada será ela... (Vai-se.)

PAULINA – Hem? 

 

CENA XII 

EDUARDO, de hábito, trazendo a rabeca, e a dita. 

 

EDUARDO – Paulina, que é de Olaia? 

PAULINA – Lá vai para dentro choramingando, contar não sei o que à mãe. 

EDUARDO – Paulina, minha irmã, este modo de viver que levamos já não me agrada. 

PAULINA – Nem a mim. 

EDUARDO – Nossa sogra é uma velha de todos os mil diabos. Leva desde pela manhã até à noite a gritar... O que me admira é que ainda não estourasse pelas goelas... Nosso sogro é um pacóvio, um banana, que não cuida senão em acompanhar procissões. Não lhe tirem a tocha da mão, que está satisfeitíssimo... Teu marido é um ga... ga... ga... ga... que quando fala faz-me arrelia, sangue pisado. E o diabo que o ature, agora que deu-lhe em falar cantando... Minha mulher tem aqueles olhos que parecem fonte perene... Por dá cá aquela palha, aí vêm as lágrimas aos punhos. E logo atrás: Vou contar à minha mãe... E no meio de toda esta matinada não tenho tempo de estudar um só instante que seja, tranqüilamente, a minha rabeca. E tu também fazes sofrivelmente teu pé de cantiga na algazarra desta casa. 

PAULINA – E tu, não? Pois olha esta tua infernal rabeca! 

EDUARDO – Infernal rabeca! Paulina, não fales mal da minha rabeca; senão perco-te o amor de irmão. Infernal! Sabes tu o que dizes? O rei dos instrumentos, infernal! 

PAULINA, rindo – A rabeca deve ser rainha... 

EDUARDO – Rei e rainha, tudo. Ah, desde a noite em que pela primeira vez ouvi no Teatro de S. Pedro de Alcântara os seus harmoniosos, fantásticos, salpicados e repinicados sons, senti-me outro. Conheci que tinha vindo ao mundo para artista rabequista. Comprei uma rabeca – esta que aqui vês. Disse-me o belchior que a vendeu, que foi de Paganini. 

Estudei, estudei... Estudo, estudo... 

PAULINA – E nós o pagamos. 

EDUARDO – Oh, mas tenho feito progressos estupendíssimos! Já toco o Trêmolo de Bériot... Estou agora compondo um tremulório e tenho ainda em vista compor um tremendíssimo trêmolo. 

PAULINA – O que aí vai!... 

EDUARDO – Verás, hei de ser insigne! Viajarei por toda a Europa, África e Ásia; tocarei diante de todos os soberanos e figurões da época, e quando de lá voltar trarei este peito coberto de grã-cruzes, comendas, hábitos, etc., etc. Oh, por lá é que se recompensa o verdadeiro mérito... Aqui, julgam que fazem tudo pagando com dinheiro. Dinheiro! Quem faz caso de dinheiro? 

PAULINA – Todos. E para ganhá-lo é que os artistas cá vêm. 

EDUARDO – Paulina, o artista quando vem ao Brasil, digo, quando se digna vir ao Brasil, é por compaixão que tem do estado de embrutecimento em que vivemos, e não por um cálculo vil e interesseiro. Se lhe pagam, recebe, e faz muito bem; são princípios da arte... 

PAULINA – E depois das algibeiras cheias, safa-se para as suas terras, e comendo o dinheiro que ganhara no Brasil, fala mal dele e de seus filhos. 

EDUARDO – Também isso são princípios de arte... 

PAULINA – Qual arte? 

EDUARDO – A do padre Antônio Vieira... Sabes quem foi esse? 

PAULINA – Não. 

EDUARDO – Foi um grande mestre de rabeca... Mas aí, que estou a parolar contigo, deixando a trovoada engrossar. Minha mulher está lá dentro com a mãe, e os mexericos fervem... Não tarda muito que as veja em cima de mim. Só tu podes desviar a tempestade e dar-me tempo para acabar de compor o meu tremulório. 

PAULINA – E como? 

EDUARDO – Vai lá dentro e vê se persuade a minha mulher que não se queixe à mãe. 

PAULINA – Minha cunhada não me ouve, e... 

EDUARDO, empurrando-a – Ouvir-te-á, ouvir-te-á, ouvir-te-á. Anda, minha irmãzinha, faze-me este favor. 

PAULINA – Vou fazer um sacrifício, e não... 

EDUARDO, o mesmo – E eu te agradecerei. Vai, vai... 

 

CENA XIII 

 

(continua...)

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